Arquivo mensal: janeiro 2014

A casa alaranjada

A casa alaranjada

Como a escritora Adélia Prado, moramos por muitos anos em uma casa alaranjada:

“Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo”.

Fração

Fração :  s.f.  Ato de partir, rasgar ou dividir; parte de um todo; quebrado

Encontraram duas vezes para tentar rascunhar a partilha, mas foi um fracasso. Não chegavam a um denominador comum. Ele apresentando uma proposta que para ela estava fora de cogitação. No calor da emoção, porém, ela não conseguia apresentar uma contra-proposta. Não tinha um décimo da racionalidade dele para decidir sobre as divisões do patrimônio dos anos de casados. Também nunca fora expert em matemática. Aliás, na sétima série, teve que tomar aulas particulares para aprender equação do segundo grau. Até hoje sabe de cor a fórmula para encontrar o delta: Bê ao quadrado menos quatro a c.

Repetia mentalmente a fórmula enquanto aguardavam a advogada que ia cuidar da partilha. Optaram por um profissional que pudesse chegar a um denominador comum. A sala de espera minúscula e aquele constrangimento, um ao lado do outro como se fossem dois estranhos e não um casal que havia partilhado a cama por tantos anos. Muito mais da metade da cama sempre era ocupada por ele que, além de fora de forma, dormia com travesseiros vários. Um abraçado ao corpo, outro entre as pernas e o terceiro tampando o rosto. A divisão da cama não era nada justa e ela quase sempre dormia espremida entre o terceiro travesseiro e a parede na qual a cama estava encostada.

A cama, aliás, era uma metáfora dos últimos tempos da vida conjugal. Ela espremida contra a parede, o marido distante, vários obstáculos impedindo uma reaproximação. A repetição mental incessante da fórmula do delta foi interrompida por uma pergunta vinda daquele agora estranho sujeito  com quem atualmente só dividia a poltrona daquele escritório. Quando o olhar dela se deparou com o rosto dele, levou um susto, o nariz dele tinha diminuído horrores!!! Não, ele não tinha feito plástica depois da separação, mas parecia muito menor do que antes. De fato, há muito havia parado de olhar cara a cara pra ele, mas a impressão é que o nariz tinha diminuído. Por uma fração de segundo, o achou até mais bonito, mas a admiração passou como um relâmpago.

A pergunta era se ela havia trazido uma contra-proposta, se tinha pensado na partilha ou iriam partir do zero. Começar do nada seria o destino dela, caso aceitasse aquela planilha que ele insistia em apresentar, pensou com seus botões. O questionamento quebrou o silêncio entre os dois, mas ela não estava com a mínima paciência de começar a discutir a divisão ali, mesmo por que estavam pagando uma pessoa para encontrar uma fração ideal para os dois. Ela respondeu laconicamente que havia pensado em algumas alternativas e frisou que não aceitaria ser lesada. Não fariam uma conta de Malba Tahan para encurtar a partilha. Mentiu descaradamente, sabia que no fim das contas abriria mão de alguma coisa para evitar o desgaste. Mesmo assim, fingiu que estava determinada a defender a parte que lhe cabia daquele patrimônio. Foda-se, era uma representação, mas nada ali parecia muito real: até o nariz dele havia reduzido pela metade…

Ele sorriu um sorriso amarelo e sacou do bolso uma barrinha de cereal – sim, agora que o casamento chegou ao fim o canalha resolveu fazer uma dieta… Desembrulhou a barrinha e ofereceu um pedaço. Para não se fazer de chata, resolveu aceitar e o que saiu em sua mão foi uma lasquinha, muito menos que a fração ideal que tanto apostava que a advogada encontraria para aqueles que um dia foram dois, mas agora seguiam cada um por si. E mastigou a lasca da barrinha enquanto voltava a repetir mentalmente a fórmula do delta…

barrinha

Casa alaranjada – os recônditos

Além do lugar onde se fazia a goiabada no tacho de cobre, os fundos da casa alaranjada guardava outros tesouros. Havia uma piscina que, como a mureta de entrada, parecia enorme como a dos clubes, mas era um pequeno quadrado onde se podia refrescar. A construção da piscina causou um frisson na casa. Os irmãos mais velhos, que já não moravam mais na casa alaranjada, acompanharam a construção de longe. Uma irmã, certa vez, mandou uma carta para as caçulas, brincando que deveriam tomar cuidado: “Não vão sonhar que a piscina está pronta e pular no concreto”. Mas não tardou e a piscina foi concluída, o que era sonho virou realidade e muitos “tibuns” foram dados naquele refrescante quadrado.

Ainda nos fundos da casa havia a horta, com os canteiros de couve. Era a verdura que alimentava os coelhinhos que chegaram à casa certa vez. No princípio as caçulas se animaram, mas com o passar do tempo foi a vovó que passou a tomar conta dos coelhinhos que se refestelavam com as verduras. Vovó era habilidosa para cuidar dos coelhinhos, para encontrar o ponto do doce de goiaba, para fazer lindos forros de crochê e para preparar as bandeirolas para a festa junina do aniversário de uma das netas. Ela cortava revistas velhas, preparava artesanalmente o grude que ia colar as bandeirolas e esticava o barbante nos fundos da casa para a festa. Ficava uma lindeza a área dos fundos enfeitada para a festa de São João.

E o porão da casa que constantemente amanhecia era o recôndito no qual todas as tralhas iam se amontoando. Jornais e revistas velhos, móveis em desuso,quadros já desgastados, engradados e cascos de refrigerante, inclusive Fanta Uva. Casco de cerveja raramente se via por lá porque ninguém da família bebia….

Outro recôndito charmoso era o pomar, onde foram morar os coelhinhos. Pés de laranja-lima e canas docinhas eram as mais concorridas…Não raro, garotos ousados pulavam o muro do pomar para roubar as canas. Os moradores da casa não gostavam nada da investida, afinal, precisava ter cana à vontade porque o pai descascava a iguaria  para seus filhos, cuidadosamente, com seu canivete. Além de descascar, cortava a fruta em toquinhos e os todos se deliciavam com aquele carinho. Mais uma doce lembrança da casa alaranjada… Continuar lendo Casa alaranjada – os recônditos

Casa Alaranjada

Como a escritora Adélia Prado, moramos por muitos anos em uma casa alaranjada:

Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo
.

A nossa casa alaranjada teve como primeiro endereço a Rua Louis Ensch, 274, que mais tarde virou Rua Lúcio Monteiro de Oliveira. Na fachada, havia uma mureta, separada por um portãozinho. De um lado, um jardim para onde dava a janela do quarto das irmãs mais velhas, do outro, duas lindas palmeiras. Atrás delas, uma rampinha que dava no alpendre. A porta de entrada era lateral e dava na sala de visitas. Toda essa arquitetura se transformou ao longo dos anos e a casa hoje guarda pouco do que foi nas décadas de 1970 e 1980.

No endereço, muitas lembranças. A mureta de entrada, especialmente aquela que guardava as palmeiras, atraía a atenção da meninada. Equilibrar-se naquela mureta era diversão certa, mas o garoto sapeca da casa vizinha quebrou o braço depois de cair bem debaixo de uma palmeira. Na nossa visão de criança era um muro alto, mas a construção na verdade não passava de uma pequena proteção para o jardim. Abrindo a porta lateral, chegava-se à sala onde havia o toca-discos e as bolachas compradas especialmente pelas irmãs mais velhas. As caçulas da família davam gargalhadas quando Caetano Veloso cantava, “sou o seu bezerro gritando mamãe…” Entender Caetano já era um desafio na década de 1970. Ou não…

Também dava para a sala de visitas, o quarto do irmão com guarda-roupa e espelho. Era o lugar preferido para a caçula da família treinar sua peça de teatro. O texto de “A Bruxinha que era Boa” foi exaustivamente ensaiado diante daquele espelho. O quarto das irmãs mais velhas também dava para a sala de visitas. Nas noites de serenata, a família toda corria para o quarto, pois era o que permitia ouvir  melhor as canções entoadas do lado de fora, sob a luz da lua. Como agradecimento, buscava-se o interruptor do quarto e acendia-se e apagava-se a luz: era a senha de que a apresentação tinha agradado.

Ainda havia um terceiro quarto que dava para a sala de visitas : era o quarto de hóspedes. Quando chovia forte, a mãe e as filhas caçulas abriam um pequeno vão na janela de vidro do quarto de visitas para ver a enxurrada descer a rua Louis Ensch.

Na sala de televisão, que vinha logo após a sala de visitas, a família se reunia para assistir aos slides que contavam as peripécias da família Castro. As viagens a Guarapari, os encontros de agropecuária na fazenda Cachoeira D´Anta, imagens dos pais jovens, das crianças pequenas, da fazendinha de Santa Isabel com seus pomares e suas lagoas de pescar. Ainda havia um slide da fachada da casa alaranjada com a mureta, as palmeiras, as janelas de vidro e as paredes com a cor marcante.

O quarto dos pais dava para a sala de TV e assistir qualquer programa que fosse após dez da noite era briga na certa. O pai, acostumado a acordar cedo, dormia cedo também e pedia que o volume da TV ficasse baixinho, para ouvir qualquer conteúdo não se podia piscar os olhos.

Outro quarto que saía na sala de TV era o quarto das caçulas, que tinha estante de livros, bonecas e o ursinho de pelúcias Peposo convivendo quase que em harmonia com um pôster do grupo Os Menudos pregado no guarda-roupas. Dá pra entender que as meninas que habitavam o quarto transitavam da infância para a adolescência.

Depois vinha um corredor com o banheiro, o quarto da vovó e a cozinha. No emaranhado das memórias já dá pra se perder pela casa. E desse ponto pra frente a visão fica embaralhada.Não dá pra saber se já existia a copa, ou se já se deparava com a cozinha. Mas o quarto da vovó traz lembranças nítidas de mãos ágeis tecendo forros de crochê e dos tachos de goiabada. Era no fundo da casa que vovó preparava o doce, no tacho de cobre. O doce borbulhando e a colher-de-pau sendo mexida sem parar.

Era um deleite amanhecer nessa casa alaranjada, de doces lembranças…

Inspiração e transpiração

Acabo de escrever um pequeno texto para uma amiga, uma apresentação para seu blog de moda. Não me é um assunto familiar, mas ela ficou muito satisfeita com o resultado. Isso me faz pensar nessa coisa de escrever. Como determinados temas, às vezes pouco distantes de nossa realidade, rendem textos bons. E outros assuntos, sobre os quais até sabemos mais, tornam-se áridos, como se as palavras escapassem, as expressões se escondessem do escritor, o vocabulário surge repetitivo e pobre. Talvez sejamos seletivos na hora de escrever e até mesmo bloqueamos a inspiração. Outra vezes não podemos nos dar a esse luxo: a inspiração aparece como o cachorrão preto correndo atrás da gente. Enfim, tem texto que flui e tem outros que empacam. Por isso deve ser árdua a tarefa de escrever diariamente, estejamos ou não inspirados. Não é à toa que o grande Saramago guardava um segredo: se rendia a uma partidinha de freecell antes de sentar-se diariamente para escrever.