Casa Alaranjada

Como a escritora Adélia Prado, moramos por muitos anos em uma casa alaranjada:

Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo
.

A nossa casa alaranjada teve como primeiro endereço a Rua Louis Ensch, 274, que mais tarde virou Rua Lúcio Monteiro de Oliveira. Na fachada, havia uma mureta, separada por um portãozinho. De um lado, um jardim para onde dava a janela do quarto das irmãs mais velhas, do outro, duas lindas palmeiras. Atrás delas, uma rampinha que dava no alpendre. A porta de entrada era lateral e dava na sala de visitas. Toda essa arquitetura se transformou ao longo dos anos e a casa hoje guarda pouco do que foi nas décadas de 1970 e 1980.

No endereço, muitas lembranças. A mureta de entrada, especialmente aquela que guardava as palmeiras, atraía a atenção da meninada. Equilibrar-se naquela mureta era diversão certa, mas o garoto sapeca da casa vizinha quebrou o braço depois de cair bem debaixo de uma palmeira. Na nossa visão de criança era um muro alto, mas a construção na verdade não passava de uma pequena proteção para o jardim. Abrindo a porta lateral, chegava-se à sala onde havia o toca-discos e as bolachas compradas especialmente pelas irmãs mais velhas. As caçulas da família davam gargalhadas quando Caetano Veloso cantava, “sou o seu bezerro gritando mamãe…” Entender Caetano já era um desafio na década de 1970. Ou não…

Também dava para a sala de visitas, o quarto do irmão com guarda-roupa e espelho. Era o lugar preferido para a caçula da família treinar sua peça de teatro. O texto de “A Bruxinha que era Boa” foi exaustivamente ensaiado diante daquele espelho. O quarto das irmãs mais velhas também dava para a sala de visitas. Nas noites de serenata, a família toda corria para o quarto, pois era o que permitia ouvir  melhor as canções entoadas do lado de fora, sob a luz da lua. Como agradecimento, buscava-se o interruptor do quarto e acendia-se e apagava-se a luz: era a senha de que a apresentação tinha agradado.

Ainda havia um terceiro quarto que dava para a sala de visitas : era o quarto de hóspedes. Quando chovia forte, a mãe e as filhas caçulas abriam um pequeno vão na janela de vidro do quarto de visitas para ver a enxurrada descer a rua Louis Ensch.

Na sala de televisão, que vinha logo após a sala de visitas, a família se reunia para assistir aos slides que contavam as peripécias da família Castro. As viagens a Guarapari, os encontros de agropecuária na fazenda Cachoeira D´Anta, imagens dos pais jovens, das crianças pequenas, da fazendinha de Santa Isabel com seus pomares e suas lagoas de pescar. Ainda havia um slide da fachada da casa alaranjada com a mureta, as palmeiras, as janelas de vidro e as paredes com a cor marcante.

O quarto dos pais dava para a sala de TV e assistir qualquer programa que fosse após dez da noite era briga na certa. O pai, acostumado a acordar cedo, dormia cedo também e pedia que o volume da TV ficasse baixinho, para ouvir qualquer conteúdo não se podia piscar os olhos.

Outro quarto que saía na sala de TV era o quarto das caçulas, que tinha estante de livros, bonecas e o ursinho de pelúcias Peposo convivendo quase que em harmonia com um pôster do grupo Os Menudos pregado no guarda-roupas. Dá pra entender que as meninas que habitavam o quarto transitavam da infância para a adolescência.

Depois vinha um corredor com o banheiro, o quarto da vovó e a cozinha. No emaranhado das memórias já dá pra se perder pela casa. E desse ponto pra frente a visão fica embaralhada.Não dá pra saber se já existia a copa, ou se já se deparava com a cozinha. Mas o quarto da vovó traz lembranças nítidas de mãos ágeis tecendo forros de crochê e dos tachos de goiabada. Era no fundo da casa que vovó preparava o doce, no tacho de cobre. O doce borbulhando e a colher-de-pau sendo mexida sem parar.

Era um deleite amanhecer nessa casa alaranjada, de doces lembranças…

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