Arquivo mensal: setembro 2015

Tão perto e tão longe

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Eu sabia que não tardaria a fazer as pazes com a Regina Casé, essa figura que divide opiniões sempre. Escrevi muitas páginas sobre a atriz e apresentadora na minha dissertação, que tratava da recepção de jovens de periferia aos programas dela sobre os morros. Já na minha seleção na banca de mestrado essa impressão dúbia sobre Casé se revelaria. Metade dos professores aprovava minha proposta de estudo e metade rejeitaria, já colocando em dúvida a legitimidade de Casé para falar da periferia. A resenha se repetiu nos grupos focais que fiz com os jovens, metade era fã, metade tinha aversão dela. Depois do mestrado, vejo que a cisão continua. Há os que detestam o programa “Esquenta” e há os que acompanham a cada domingo. Tem gente que torce o nariz para as causas que ela abraça, tem quem pensa que é oportunismo.
Mas, com o filme “Que horas ela volta”, eu pressentia que iria me render. Muitos amigos comentaram e recomendaram a trama e todos destacaram Casé, não sem deixar a polêmica de lado. Alguém até destacou, “nem parece a Regina Casé”. De fato, é difícil resistir aos encantos de Val, personagem de Casé, no filme de Anna Muylaert. Ela é uma empregada doméstica arretada, que tem um carisma semelhante a de outra personagem nordestina interpretada por Casé, em Eu, Tu, Eles.
Porém, todo mundo sabe que assistir a um filme muito recomendado sempre nos coloca naquela armadilha do excesso de expectativa. E, sendo assim, eu gostei, mas não amei a história. Como já disse, a Casé está perfeita no papel de uma mulher que deixa sua filha em Pernambuco para ganhar a vida olhando o filho de um casal de camada alta paulistana. Ela é divertida, é amorosa, tem essa alegria contagiante de gente que apanha da vida, mas levanta, sacode a poeira e dá volta por cima. A divisão de classes brasileira está muito bem representada nas figuras da empregada e dos patrões. O filme também aborda a possibilidade de os jovens brasileiros pobres cursarem uma faculdade por causa das políticas afirmativas que o país vem adotando. Nesses aspectos, penso que o filme cumpre muito bem o papel.
Na abordagem da relação de Val com o garoto paulistano, o Fabinho, penso que a diretora dá uma derrapada. Difícil imaginar um pré-vestibulando correndo para cama da babá porque ficou com insônia. Se mostrar tão fragilizado e infantil assim não combina com o espírito aguerrido da juventude, mesmo para um rapaz mimado e criado sem a presença firme de pai e mãe.
Na abordagem da maternidade, porém, o filme se redime, justamente por mostrar uma mãe humanizada, em conflito entre sustentar a filha com o mínimo de conforto de longe, ou criá-la sem dinheiro, ao alcance da vista. Uma das primeiras cenas mostra Val cuidando do filho dos patrões e o garotinho perguntando pra babá sobre a mãe dele, “Que horas ela volta?”, frase que dá nome ao filme. Na verdade, é uma pergunta que permeia toda a trama porque se refere tanto à ausência da mãe paulistana, uma profissional muito assoberbada, quanto da mãe pernambucana, que viveu longe da filha, trabalhando no Sudeste e bancando financeiramente outra mulher para criar Jéssica.
A trama mostra dez anos de separação física e emocional entre Val e Jéssica e acredito que ninguém passa impune por uma experiência dessas, nem mãe, nem filha. A diretora mostra as marcas que essa separação causou, mas de forma bastante leve. Escrevendo agora, penso que tratar disso com zelo pode ter sido, ao fim e ao cabo, uma ótima estratégia para não estigmatizar a personagem como “a mãe que abandonou a filha”. Não fica margem para esse sentimento. Como mãe e como mulher não julguei Val em nenhum momento. Achei que ela foi uma grande mãe. Fez o que era possível fazer. A grande sacada de Val foi que ela pegou e emendou as pontas dessa relação quando a corda esticou demais.