Arquivo mensal: novembro 2015

Muito mais do que o irmão do Henfil

betinho

Talvez assim como eu você só se lembre do irmão do Henfil como aquele sociólogo que lançou a campanha contra a fome no Brasil. Como a gente sabe pouco sobre o Herbert de Sousa! O documentário Betinho – A Esperança Equilibrista​, de Victor Lopes, é, então, uma aula sobre esse grande cara de quem o Brasil conhece somente algumas facetas.

Mineiro de Bocaiúva, Betinho conviveu com a iminência da morte desde sempre, sobreviveu à hemofilia (doença também de seus irmãos Henfil e Chico Mário), à tuberculose, mas foi abatido pela Aids, em 1997, não sem antes ter enfrentando outras mazelas, como a ditadura brasileira e a injustiça social. Assistindo aos tempos em que era o companheiro “Wilson”, nome frio usado para despistar os militares que sempre viveram em seu encalço, é inacreditável imaginar que alguém tenha a insanidade de sair às ruas pedindo a volta da ditadura.

Ao falar do Chile (Javier Celedón SJ​), primeiro local que o acolheu durante o exílio, os olhos de Betinho brilham, comparando sair do inferno brasileiro da ditadura ao paraíso chileno de um país democrático. Betinho foi nada menos que o ghost writer de Salvador Allende, escrevendo belos discursos para o presidente do paraíso chileno, que também foi tomado pela ditadura e voltou a ser como o inferno brasileiro.
O documentário traz depoimento riquíssimos das mulheres, Irles Carvalho e Maria Nakano, dos filhos Daniel Sousa e Henrique Nakano, além de amigos, especialmente do IBASE, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, que virou o Q.G. do sociólogo.

Mais de um relato destaca o humor fino de Betinho, um corpo franzino e sensível, mas uma fortaleza para encarar os revezes de sua vida. Um dos amigos conta que se alguém próximo chegava e reclamava de desânimo e de cansaço Betinho respondia com uma voadora: “Tá cansado? Quer uma pitadinha de Aids pra reanimar?”

E foi com essa garra que Betinho foi abraçando as diversas causas – a do incentivo às pesquisas contra a Aids, que dizimou todos os hemofílicos brasileiros que contraíram a doença em transfusões de sangue, à da campanha contra crianças vivendo nas ruas, à do impeachment contra o presidente Collor, e finalmente contra a fome, movimento que lhe deu mais notoriedade e a indicação para o prêmio Nobel da Paz, em 1994.

Três anos depois, em 1997, Betinho partiu, após uma incansável batalha contra a Aids e, ao assistir ao documentário, é impossível não pensar na falta que o sociólogo faz ao Brasil de hoje. Um de seus amigos se refere às manifestações de junho de 2013 e declara ter a certeza de que Betinho ficaria muito mexido com a mobilização popular. Ele acredita que com a campanha contra a fome foi plantada uma primeira semente. Agora é hora do país acabar com “outras fomes”, como o desejo de direitos humanos, participação popular e igualdade social.

RIP, Betinho! Você fez muito pelo Brasil. Agora que cada brasileiro faça a sua parte.

Elis Regina canta “O bêbado e o equilibrista”, mencionando Betinho, o irmão do Henfil. A música, de João Bosco e Aldir Blanc, virou o hino da anistia aos exilados brasileiros

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