Arquivo mensal: janeiro 2016

Nunca te vi, sempre te amei

Até a noite de quinta-feira  (5/11/2015), eu nem sabia da existência de Bento Rodrigues, um lugarejo de Mariana, nessas Minas Gerais, o Estado brasileiro com o maior número de municípios (853). Mas assim que as notícias do rompimento de duas barragens começaram a surgir, embora tenhamos “oitenta por cento de ferro nas almas”, como poetizou Drummond, não houve coração mineiro que não se desmanchasse.

Impossível para quem nasceu entre as montanhas não se identificar com os moradores do Bento. Todo mineiro já cruzou estrada de terra, comeu poeira, passou por mata-burro e chegou a uma igrejinha da padroeira no centro de algum rincão, onde “um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar… as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus”.

De uma hora para outra, aquele senhor de chapéu de palha, produtor de pimenta biquinho, virou alguém da família, assim como a doninha quitandeira. Tive a sensação de que fui amiga de infância daquele menino Marcos, que correu de telhado em telhado pelas casas do Bento, fugindo da lama que engolia seu pedaço de chão. E a roça do Adriano? A roça do Adriano foi levada, o caminhão do Zezé acabou, o que será do Seu Zé? “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…”

Mas meu pavor foi mesmo a escola. Quando o gigante que dormia nas águas profundas da mineradora despertou e partiu furioso montanha abaixo, meu temor era que ele alcançasse aquelas salas de aula, em uma tarde até então pacata. No entanto, havia anjos naquele lugarejo chamado Bento, não por acaso. O marido de Eliene correu para a escola e alertou a todos. “Ele chegou gritando que tínhamos que correr”, contou Eliene aos repórteres. Desesperada, ela reuniu as crianças, e em três minutos todas estavam a salvo!

Outros, porém, não tiveram a mesma sorte daqueles que foram blindados pela escola. Uma mulher correu léguas com a morte no seu calcanhar e, em determinado momento, perdeu a sobrinha pra força das águas.

Vejo um menino correndo desolado; diferentemente de Marcos, ele não subiu pros telhados do Bento. Voltou à lama e suplicou, em lágrimas: “Mãe, cadê minha mãe?!”

Pois agora dei de me imaginar numa vigília pelo lugarejo fantasmagórico. Em meu devaneio, pego a mão do menino e vamos numa busca infinita; percorrermos cada pedaço do Bento, que nunca pisei e nunca mais ninguém vai alcançar…

bento patty

Imagem: Patrícia Caetano

Fernanda Castro é mãe, mulher e menina. Pequenina e gigante. Mezzo educadora, mezzo comunicadora. Mestre em Educação, graduada em Jornalismo, pesquisa EaD, Comunicação, Tecnologias e Redes Sociais.

Beagá brilha!

Escrevo ainda sob o impacto do ensaio de um dos blocos carnavalescos de Beagá. De alguns anos pra cá, a capital mineira redescobriu seu carnaval. E por que ficou tempos com seu espírito de foliã represado parece que as comportas da alegria inundaram a cidade. Se você é belo-horizontino e não comprou  um tamborim de uns anos pra cá e se juntou a uma das dezenas de baterias pela cidade,  ao menos já ouviu alguma marchinha composta por um músico de BH, tem algum amigo ritmista em um bloco ou uma conhecida que montou uma fantasia mara no último carnaval. O belo-horizontino que ainda não se rendeu ao carnaval de rua, mais dia, menos dia, vai sucumbir.

E a animação carnavalesca de Beagá não é fogo de palha. Passados os quatro dias de folia, o clima ameniza, mas volta a se pensar em carnaval de novo muito antes de fevereiro chegar. Alguns blocos mantêm seus ensaios muitos meses durante o ano pra fazerem bonito nos dias decisivos. E se sabe que essa retomada carnavalesca começou bem ao jeito mineiro, timidamente, como quem não quer nada, os blocos foram se juntando, se fortalecendo e deu na bela festa que deu.

É claro que nem tudo são confetes e serpentinas. Tem sempre o vizinho despeitado que quer furar a bola da turma que caiu no seu quintal. Não é diferente aqui. Tem um grupo desmancha prazer que quer elitizar o carnaval e tenta concorrer com os blocos de rua, organizando as festas fechadas e pagas. Quem quiser que experimente, o direito de escolha existe, mas tá na cara que não tem melhor festa do que aquela em que você se apropria da sua cidade, com samba no pé pela Guaicurus, a Savassi, a Praça da Liberdade, a Praça da Estação.

Os blocos gritam aos quatro ventos que precisam de incentivo, de um som decente, de estrutura pra ensaiar e não se vê quase nenhuma iniciativa do poder público nesse sentido. No entanto, tem muita canetada pra proibir ambulante de vender cerveja em isopor, decidir qual marca você poderá tomar, em que local o bloco pode passar e tal. É tanta restrição que bate um medo de a festa se descaracterizar virando um carnaval grandão bobo.

Mas, vamos acreditar que sempre vai passar nessa avenida o samba popular. E que o carnaval de Beagá será iluminado, como foi o ensaio do Então, brilha de hoje. Que sempre sobre empolgação, simpatia, ritmo, samba no pé. Que o clima permaneça amistoso – hoje alguém esbarrou em mim no ensaio e me pediu desculpas sinceras – que os ambulantes garantam seu troco, que os iniciantes peguem o ritmo da batida do tamborim. Que o morador de rua, o bebum, a dona de casa, o mauricinho, o petralha e o coxinha se divirtam sem moderação.

Que não nos falte lantejoulas e purpurinas. Mas se faltar, que o carnaval de BH brilhe mesmo assim!entao brilha!

 

Explicando a internet usando cartaz e pincel

“As ideias estão no chão, você tropeça e acha a solução”, cantaram os Titãs. E no campo da Educação isso é muito verdadeiro.

Às vezes as soluções mais simples, que estão bem à mão, ilustram complexas teorias.

Um professor do Rio de Janeiro teve esta sacada. Pegou uma cartolina e um pincel e escreveu seu apelo: profs

O post, que busca demonstrar pela própria internet, o alcance e a rapidez da rede mundial de computadores, foi publicado há dois dias, no Facebook. Na manhã de hoje, havia mais de 20 mil compartilhamentos e 20 mil comentários. Em uma pesquisa rápida, depois de compartilhar e entrar na ciranda, registrando minha localização, Minas Gerais, encontrei comentários de vários estados brasileiros – Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Goiás. A campanha chegou também na Hungria, Inglaterra, Colômbia e Tóquio.

Ainda que existam comentários fakes, conhecemos muito pouco até mesmo do autor da campanha, que se identifica apenas como “profs” , a ideia é muito feliz.

Escrevi pro profs, que conta apenas que é carioca e trabalha com turmas do Espro (Ensino Social Profissionalizante), e pedi que ele compartilhe os resultados, o que ele já prometeu fazer, adiantando que os números são “estratosféricos”.

Bela sacada! Ensinar pode ser muito mais descomplicado do que se imagina. Por via das dúvidas, deixe cartolina e pincel sempre à mão!

 

O direito de existir

Eu imaginei que As Sufragistas (Reino Unido, 2015) fosse um filme bom. Mas, é muito mais.É um filmaço, daqueles que te tiram de órbita e fazem balancê com as ideias.

Nem sei por onde começar a descrever o que mais me tocou no filme, são muitas as abordagens que me enredaram – o feminismo, a maternidade, os ideais, a tristeza. Enfim, se pode sentir o filme por muitos caminhos.

Pra começo de conversa, o enredo não te poupa de nada. Desde as primeiras cenas a exploração da mulher é escancarada em uma lavanderia da Inglaterra do início do século XX. Meninas e jovens se esfalfando em um trabalho insalubre, enfadonho, pesado e mal remunerado. Patrões opressores, assédio moral e sexual, humilhações estão na rotina de trabalho dessas mulheres.

Esqueça o que você aprendeu nos livros de História sobre a glamourosa Revolução Industrial e as novas formas de trabalho. Se não houve nenhum refresco para a classe masculina, quando a produção deixou de ser artesanal e passou a ser industrial, imagina para as mulheres. Imagina para aquelas que, além de mulheres trabalhadoras, resolveram reivindicar o direito de voto. Imagina para aquelas que foram além, questionaram por que entregar o suado ordenado inteiramente na mão de seus maridos. Imagina para as sufragistas que resolveram usar a força para chamar a atenção para a sua causa.

Chocante o que essas mulheres tiveram de passar para que o voto fosse uma conquista. E para países como a Arábia Saudita esse direito só foi alcançado em 2015, no ano passado!

Pode parecer clichê, mas não há outro sentimento a não ser o da injustiça. De como a humanidade tem uma grande dívida com as mulheres, assim como com os negros que foram escravizados ou como os imigrantes, que vivem essa incompressão e esse “não lugar” nos dias de hoje.

Quantas “minorias” continuarão sendo hostilizadas e oprimidas para que outros grupos se sobressaiam? Eu, na minha condição de mulher, tive vergonha do papel masculino no tempo retratado no filme. Tive um grande desconforto de assistir ao tratamento dado às mulheres em um país que era vanguarda como a Inglaterra do início do século XX. E me compadeço de pensar em quantas mulheres ainda são violentadas e subjugadas em pleno século XXI.

Como bem disse a Nina de Oliveira, ao comentar do filme, não é sem razão que as mulheres carregam uma tristeza atávica, uma melancolia, uma desesperança, tão bem representadas pela personagem Maud Watts (Carey Mulligan).

Cansamos de carregar pedras. Queremos o castelo.

as sufragistas