Nunca te vi, sempre te amei

Até a noite de quinta-feira  (5/11/2015), eu nem sabia da existência de Bento Rodrigues, um lugarejo de Mariana, nessas Minas Gerais, o Estado brasileiro com o maior número de municípios (853). Mas assim que as notícias do rompimento de duas barragens começaram a surgir, embora tenhamos “oitenta por cento de ferro nas almas”, como poetizou Drummond, não houve coração mineiro que não se desmanchasse.

Impossível para quem nasceu entre as montanhas não se identificar com os moradores do Bento. Todo mineiro já cruzou estrada de terra, comeu poeira, passou por mata-burro e chegou a uma igrejinha da padroeira no centro de algum rincão, onde “um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar… as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus”.

De uma hora para outra, aquele senhor de chapéu de palha, produtor de pimenta biquinho, virou alguém da família, assim como a doninha quitandeira. Tive a sensação de que fui amiga de infância daquele menino Marcos, que correu de telhado em telhado pelas casas do Bento, fugindo da lama que engolia seu pedaço de chão. E a roça do Adriano? A roça do Adriano foi levada, o caminhão do Zezé acabou, o que será do Seu Zé? “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…”

Mas meu pavor foi mesmo a escola. Quando o gigante que dormia nas águas profundas da mineradora despertou e partiu furioso montanha abaixo, meu temor era que ele alcançasse aquelas salas de aula, em uma tarde até então pacata. No entanto, havia anjos naquele lugarejo chamado Bento, não por acaso. O marido de Eliene correu para a escola e alertou a todos. “Ele chegou gritando que tínhamos que correr”, contou Eliene aos repórteres. Desesperada, ela reuniu as crianças, e em três minutos todas estavam a salvo!

Outros, porém, não tiveram a mesma sorte daqueles que foram blindados pela escola. Uma mulher correu léguas com a morte no seu calcanhar e, em determinado momento, perdeu a sobrinha pra força das águas.

Vejo um menino correndo desolado; diferentemente de Marcos, ele não subiu pros telhados do Bento. Voltou à lama e suplicou, em lágrimas: “Mãe, cadê minha mãe?!”

Pois agora dei de me imaginar numa vigília pelo lugarejo fantasmagórico. Em meu devaneio, pego a mão do menino e vamos numa busca infinita; percorrermos cada pedaço do Bento, que nunca pisei e nunca mais ninguém vai alcançar…

bento patty

Imagem: Patrícia Caetano

Fernanda Castro é mãe, mulher e menina. Pequenina e gigante. Mezzo educadora, mezzo comunicadora. Mestre em Educação, graduada em Jornalismo, pesquisa EaD, Comunicação, Tecnologias e Redes Sociais.

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