Quando eu reencontrei o Legião

Há 13 horas inebriada de Legião Urbana, e com a sensação de que vou levar alguns dias e muitas horas pra me situar novamente. Talvez nem eu mesma soubesse que existia um cabloco João de Santo Cristo adormecido em mim. Mas ele despertou ontem, me deu uma carteirinha de legionária e eu aceitei, sem restrições.

Eu era adolescente nos anos 80, quando o Legião Urbana nasceu, junto ao Barão Vermelho, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e Kid Abelha. Eu gostava muito da banda, mas não era a minha favorita. Não tinha, por exemplo, “disco” deles –  haha, bolacha, vinil, esse bicho estranho que a gente chamava de “disco” e que funcionava no “toca-discos”. Não era, então, uma legionária propriamente, mas eu percebia que a banda do Renato Russo era muito diferenciada, engajada, e desde o início, cultuada.

Adorava ouvir meus amigos de adolescência cantar, sem titubear, “Faroeste Caboclo”, aquilo era incrível.!!! Uma música que, além de maior da história do mundo todo, já vinha, como em “Eduardo e Mônica”, com um roteiro : impossível ouvir sem acompanhar no imaginário a saga de João de Santo Cristo. Gosto especialmente de quando ele chega ao Planalto Central e fica bestificado com as luzes : “Meu Deus, mas que cidade linda, no Ano-Novo eu começo a trabalhar, cortar madeira, aprendiz de carpinteiro, ganhava cem mil por mês em Taguatinga”.

Três décadas depois,  eu não esperava um reencontro com os criadores de Faroeste Caboclo em tão grande estilo. Eu esperava encontrar uma Legião Urbana diferente no show em que o grupo comemora 30 anos de lançamento de seu primeiro disco. Mas não foi nada disso, eu encontrei um grupo que me fez emocionar como se fosse a década de 80. Como pode isso, a banda do Renato Russo, sem o Renato Russo, emocionar como se fosse ontem?

Quando cheguei ao Chevrolet Hall, a energia já era tão legionária 220 wolts que eu comprei uma camisa de um vendedor ambulante. E na hora de escolher a estampa eu lembrei dos meus amigos de adolescência que sabiam Faroeste Caboclo de cor, mas que me aplicaram  “Indios”: “é a letra mais linda do Legião”. Quem sou eu pra discordar de um Renato Russo que compõe: “Quem me dera ao menos uma vez/ Que o mais simples fosse visto/Como o mais importante/Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente”?

Pois é, o mito partiu em 1996, mas é possível reconhecê-lo em cada momento do show. Ainda que a gente saiba do temperamento difícil e radical do Renato, dos porres, das brigas, da vaidade…ainda que o filho dele queira cercear o acesso de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá ao patrimônio imaterial do Legião Urbana, nós te perdoamos, Renato. Você pode tudo, onde quer que você esteja, você pode entrar com o pé na porta, porque você deixou, entre tantas, esta pérola: “É preciso amar as pessoas/ Como se não houvesse amanhã/ Porque se você parar pra pensar/Na verdade não há…”.

Por tudo isso eu me rendi. E vi milhares de pessoas da mesma forma, numa histeria coletiva, numa adoração, que nunca vi igual em nenhum show de artista brasileiro. Vi um público maduro e um público jovem cantando a plenos pulmões todas as canções levadas com muita segurança por André Frateschi, a quem foi dada a responsabilidade de vocalista da turnê. Não cabe aqui o termo “substituir Renato Russo”porque nenhum fã acredita nessa possibilidade. Mito é mito e ponto final.

E por falar em ponto final, o fechamento do show – de inacreditáveis duas horas e meia – foi com chave de ouro. Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava que Dado e Marcelo Bonfá iam mandar aquela, no grand finale. Na minha doce ilusão não cabia uma música naquele formato no show. Pois no bis, Dado voltou e fez uma pergunta singela, mas que deu a senha do que viria a seguir: “Estão prontos? São nove minutos!”. E todos nós internamente, como bons súditos que somos, respondemos: “estamos sim, senhor capitão!”. E lá fomos nós, até o último minuto, quando se desenrola a saga: ” João não conseguiu o que queria/Quando veio pra Brasília com o diabo ter/Ele queria era falar com o presidente/Pra ajudar toda essa gente que só faz/ Sofrer!!”

legiao

 

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