Arquivo mensal: maio 2016

Os bons fluidos da Professora Indelicada

Texto originalmente escrito para a rede Professores transformadores

Ao contrário da imagem angelical, da “tia” carinhosa e acolhedora, é uma Professora Indelicada(https://goo.gl/7iV77R) que faz sucesso no Facebook. Sem papas na língua, esse personagem fictício usa a rede social para rir das mazelas do Magistério e desconstruir o estereótipo em torno dos profissionais que educam.

 

Pouco se sabe sobre quem está por trás desse personagem: apenas que a mentora é uma professora do Ensino Fundamental e do Médio, tanto do sistema público quanto do particular. Se a autora opta por esconder sua verdadeira identidade, o seu posicionamento em relação ao ofício de ensinar é bem claro: “Professores, esta página não vos iluminará ou afagará com postagens fofas, rosas, frases de efeito. Não vamos enaltecer as alegrias da profissão, que são muitas, apesar de… TUDO. Se acostumem!”, disparou aIndelicada, em uma de suas últimas publicações.

 

Até que ponto a Professora Indelicada tem razão? Será que rir de si mesmo é uma boa estratégia para aliviar o peso dos problemas do Magistério? Ou usar esse humor cáustico esvazia o debate em torno de questões sérias e urgentes da Educação?

 

Os números indicam que as estratégias da idealizadora do personagem caíram no gosto popular: 223.527 pessoas já curtiram a página da Professora Indelicada, que, nos últimos tempos, tem recebido mensagens de educadores denunciando alguns desafios da prática docente, como uma profissional que sofreu um boicote da família de um aluno, depois que se ausentou da sala de aula por adoecimento. A Professora Indelicada tem reportado as queixas e aberto o espaço para opinião e debate entre educadores. Nesse sentido, observa-se que a personagem vem criando um rico diálogo entre os professores, identificados com reclamações que, às vezes, são também da sua rotina como educadores.

 

Além desse fórum virtual criado pela Professora Indelicada, a opção pelo humor ferino pode ser uma saída interessante para expor os dilemas da Educação. Não é possível sorrir diante do contracheque: o Piso Nacional do Magistério não é cumprido pela maioria dos Estados. Também não se pode gargalhar com a seguinte manchete: “Renda extra: Professores e garçons estão entre os bicos mais buscados” (https://goo.gl/P4tsVp).

 

Mas, também, não se pode sentar na calçada e esperar por uma mudança nos planos de carreira e de salários, tampouco pela valorização simbólica do professor, em curto prazo. Diferentemente disso, podem-se criar redes de apoio entre os profissionais, conhecer as pautas dos movimentos sindicais da categoria, divulgar pesquisas sobre a carreira docente e, no fim das contas, porque ninguém é de ferro, também se divertir com aquele aluno que pergunta: “Professora, hoje vai ter alguma coisa importante na aula?!”

meme pronto

(Fernanda Castro é mãe, mulher e menina. Pequenina e gigante. Mezzo educadora, mezzo comunicadora. Mestre em Educação, graduada em Jornalismo, pesquisa EaD, Comunicação, Tecnologias e Redes Sociais.)

Sobrei!

Na nossa pequena família tem uma brincadeirinha assim: quando não somos incluídos em algum programa legal, vamos logo dizendo: “eles estão nos evitando”. Aí, eu saí da brincadeira e nestes dias vivi isso na real, de uma pessoa que eu considerava e queria bem. Claro, desagradável, mas perfeitamente contornável. Ninguém gosta de ser excluído, de sobrar, de ficar de fora. A gente quer se sentir querida, quer saber que faz falta. É humano. E é canceriano: carentes por natureza, somos do “signo de câncer com ascendência em dramas”.

O mais curioso é que o episódio me remeteu a uma reminiscência da infância, quando uma turma da rua de cima não me chamava pra jogar queimada e eu ficava com essa sensação de carta fora do baralho. Bem, éramos crianças, muitos anos se passaram, hoje sou adulta, mas as relações humanas não evoluem em muitos aspectos.

Moral da história: mais cedo ou mais tarde alguém vai te evitar. Então, prepare-se para não ser essencial sempre e use um artifício para te poupar: aquela turma é muito bola murcha e não perdi grande coisa.

solidao

No quadrado de Maura

Bom tirar a poeira do blog com alguém que chega despretensiosamente e te arrebata. Eu não conhecia nada desta contista, até que ela me veio pelas mãos da Célia Musilli. E foi a forma mais instigante de saber de Maura Lopes Cançado, não pela falta, mas pelo excesso. Não pelo foco, mas pelo enquadramento.

Foi assim que ela me foi apresentada: não se falou da  escritora Maura pelo mais raso: a sua doença mental, as suas internações, a biografia polêmica. Não se martelou o que faltou à poeta: bom senso, racionalidade, equilíbrio, mas sim do seu transbordamento, do que jorrava de suas palavras, enquanto era interna de hospícios.

E dessa forma, pelos títulos dilacerantes – “Hospício é Deus”, “Rosa Recuada”, “O sofredor do ver”, “No quadrado de Joana” – pelo jogo de palavras, pela escrita refinada, pelos temas universais, ficou o encantamento. Ficou a admiração por alguém que optou pela curva da pétala, mesmo que obrigada a seguir em linha reta:

“Como fazer pra explicar que está enquadrada num novo tempo? Não pode sequer dar meia volta. Precisa poupar-se, conservando a forma. Entretanto, precisa explicar o que só ela entende. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, num tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de um pétala.”

Maura