O vinho vem, o sexismo também

Reunimos, dois casais, quatro amigos, para comemorarmos o Dia dos Namorados. Escolhi um restaurante italiano, com um cardápio especialmente preparado para os pombinhos. Chegamos primeiro que o casal amigo e fomos recebidos por um jovem garçom, que explicou o funcionamento da casa, a opção por respeitar a gastronomia italiana e não misturar pratos (ô, lá em casa…) como massas e carnes. O restaurante seleciona ingredientes frescos e blá, blá, blá, blá, blá,blá, ti-ti-ti-ti-ti-ti-ti.

Tava tudo muito bom, tudo muito bem… até que pedimos a carta de vinhos, para escolhermos uma bebida que combinasse com aquele jantar romântico. O sommelier veio à mesa e nos indicou três opções. Não somos muito entendidos, apenas nos deliciamos com um vinho bom a cada sexta-feira, mas não temos conhecimentos avançados de harmonização, de bebida encorpada, de origem das uvas, de sabores frutados e outras frescurites. Gostamos especialmente do prazer de ficarmos altinhos e do resultado da bebida: “o vinho desce, as palavras sobem”.

Nesse meio tempo, nossos amigos chegaram, admiramos a casa e eu especialmente um quadro de frente para nossa mesa, com a indefectível bota que faz da Itália esse país tão popular. Conversamos rapidamente sobre o cardápio e escolhemos o vinho, de comum acordo, entre as três opções que o sommelier havia sugerido.

Aí veio a nota triste da noite romântica. Não que o fato tenha estragado o jantar, mas tirou um pouco o brilho da comemoração, ao menos pra mim. O sommelier trouxe a garrafa e fez aquele protocolar procedimento em que o cliente degusta o vinho antes de aprová-lo. Penso aqui com meus botões se já houve alguém que virou para o cabra e disse: “não gostei, abra outra garrafa”. Deve haver, esses enólogos da vida devem se prestar a isso, mas não era o nosso caso, naturalmente.

Então, o vinho foi despejado na taça e o sommelier imediatamente estendeu a bebida para meu amigo, ignorando todos os outros três clientes da mesa. A etiqueta (tsc) diz que quem aprova a bebida e dá o veredicto é a pessoa que escolhe o vinho. Bem, na nossa mesa, escolhemos coletivamente, então, essa regra não valia pro nosso quarteto. Eu senti um certo desconforto, mas meu amigo, muito gentil, passou a taça para mim e perguntou se eu queria aprovar a bebida. Fiquei com aquela cara de indecisa, se transgredia ou não o protocolo, porque, afinal, estava na cara que o sommelier não considerou as duas mulheres da mesa como aquelas que poderiam dar a cartada final sobre o vinho. Movida de constrangimento, eu provei e aprovei o vinho, e o jantar seguiu seu curso.

Talvez se meu amigo não tivesse furado o protocolo, ignorado o sommelier e estendido a taça para mim, eu nem me desse conta dessa invisibilidade feminina na escolha da bebida. Mas, não deixa de ser estranho que um restaurante fino, da zona sul da capital, com muitas estrelas nos guias gastronômicos, não atente para essa indelicadeza, para usar um eufemismo. E não me parece uma exceção: pode ser que estejamos frequentando lugares conservadores, mas sempre que pedimos um vinho em um restaurante bacana, a decisão sobre a escolha  é dirigida ao meu marido.

Não é nada, não é nada, mas significa.

vinho

 

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