Mulher desdobrável

Sete mulheres refugiadas que vivem em São Paulo chegaram a BH por intermédio da exposição Vidas refugiadas. O cotidiano delas estava lá, em grandes murais e em closes muito bem recortados pelo fotógrafo Victor Moriyama. Em letras miúdas, um pouco da vida, sempre dura, dessas mulheres: uma vende bilhetes em um cinema, outra trabalha na praça de alimentação de um shopping, há uma professora de espanhol e uma cabeleireira, que sonha em trazer os filhos que ficaram pra trás.

Esse foi o primeiro impacto, mas o soco no estômago veio depois, quando a nigeriana Nkechinyere Jonathan contou a uma pequena plateia, seus dramas para se adaptar à vida em São Paulo, sendo mulher, negra e refugiada. Como acontece com pessoas que passam por grandes conflitos,  – e não se compreende de onde brota essa gana -, Jonathan era só sorrisos. Ao falar de pobreza, discriminação, direitos não conquistados, nenhum semblante de tristeza. Era possível até identificar um quê de brasilidade no depoimento de Jonathan, aquela velha mania de ter fé na vida que carregamos conosco.

Há quatro anos acolhida como refugiada no país, Jonathan já entendeu tudo: “é simples, a pessoa que tem fome não consegue pensar. Se a pessoa tem comida, ela consegue refletir”, sintetizou a nigeriana ao questionar o corte de uma cesta básica que significava uma pequena folga no seu apertado orçamento. Jonathan é professora de inglês e trança cabelos para complementar sua renda. Ganha cerca de 900 reais dos quais 500 estão comprometidos com o pagamento do aluguel, mas ela não baixa guarda, simplesmente comemora o fato de estar viva.

Possivelmente, ao ouvir esse relato não compreendi a dimensão dessa frase, “comemoro o fato de estar viva”. Terminado o bate-papo, e já distante da nigeriana, mas ainda tocada por suas histórias, veio o nocaute. Repassando os painéis dessas setes vidas refugiadas, redescobri Nkechinyere Jonathan e o motivo que a fez pedir guarida ao Brasil. A nigeriana fugiu a pé de seu país, andando pela floresta durante cinco dias ininterruptos, depois que o grupo extremista Boko Haram sequestrou suas alunas, fechou a escola onde trabalhava e assassinou dez dos quinze professores.

Ao ler essa passagem da sua vida, tive vontade de voltar até ela, e me demorar num abraço, que foi dado, mas de forma tímida. Desejei que ela trançasse meu cabelo ou me ensinasse a fazer o arroz joloff de Ifemelu. Eu poderia ensiná-la algumas expressões típicas de Beagá, que ela comentou ser uma “bonita cidade”. Queria presenteá-la com nossa melhor cachaça ou o nosso mais saboroso doce de leite. Imaginei levá-la até a Praça do Papa e mostrá-la nossa cidade do alto, com milhares de luzes, somos tantos e somos tão sós… Então, que esse reencontro fosse fechado com a mineiridade de Adélia Prado.

Para Nkechinyere Jonathan, com carinho:
Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
jonathan

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