Deixa eu chorar até cansar

Estou há dois dias atônita, sentindo uma melancolia tão grande e sem saber por que a morte do Vander Lee me abateu dessa forma. Talvez a explicação seja que eu descobri um grande artista, mas tarde demais.

Quanto mais eu tento conectar minhas ideias e baixar a bola, mais eu me vejo enredada na história do músico. São muitos os fãs que estão chocados com essa partida abrupta e toda a repercussão da morte destaca o quanto foi precoce e o quanto ele ainda poderia deixar para a música mineira. Mas, penso que para os belo-horizontinos, a morte pega mais forte. Existe uma ilusão de que a gente era muito próximo do “Vandeco”, pelo simples fato de morar na mesma cidade e essa cidade ser um ovo.

Pensando bem, não é uma ilusão, tem um fundo de verdade nisso. Eu mesma já o encontrei tomando um prosaico café com pão de queijo na Boca do Forno. Nada mais familiar do que isso, todo belo-horizontino já provou um café com pão de queijo na Boca do Forno, ora bolas! Certa vez, ele foi dar entrevista na emissora de TV na qual eu trabalhava e passou pelos setores, até parar na porta da minha sala. Como ali era a memória da TV, ele foi convidado a entrar e eu me vi de cara com ele, não como no café, eu fiquei frente a frente. Mas, como eu já o tinha visto no prosaico lanche, em todo movimento cultural bacana de BH, brilhando na voz de Elza Soares, Gal Costa e Leila Pinheiro, eu já me considerava íntima dele. E foi com toda essa falsa certeza que eu disse que o adorava e cantei um pedacinho de uma das suas músicas que eu mais gostava: “Meu amor, deixa eu chorar até cansar, me leve pra qualquer lugar, onde Deus possa me ouvir”. Ele sorriu e deve ter me achado meio destrambelhada, mas foi gentil e fez uma menção de que eu mandava bem na cantoria, ou seja, ele foi muito gentil, porque eu devo ter cantado mal pra danar.

Quando li da morte, eu pensei que fosse um hoax. Que em poucos minutos alguém ia dizer que era um boato. Mas, ninguém desmentiu. Uma conhecida da área cultural publicou que ele havia morrido e aí caiu a ficha de que era pra valer. Imediatamente me veio essa cena da visita dele à TV. Em seguida, pipocaram depoimentos de amigos, conhecidos e de outros músicos sobre a grandeza do Vander Lee. O Samuel Rosa disse que ele era um artista que fazia uma música mineira genuína, original, que não tinha traço do Clube da Esquina ou do pop rock, tinha o jeito Vander Lee de ser. A Elza Soares o chamou de afilhado querido e falou da porrada que foi receber a notícia de sua morte.

Mas, as histórias que tocam são aquelas mais singelas. Um amigo disse que ele estava passando por um momento delicado, depois de uma separação. Outro amigo contou que ele programava criar um samba dominical pra dar fim à pasmaceira desse dia na capital mineira. Uma amiga me escreveu que ele era uma pessoa boníssima, de um coração enorme. E a cereja do bolo foi ouvir uma música que a Bárbara Barcellos, uma jovem belo-horizontina, super talentosa, havia gravado com ele, uma noite antes de sua morte.

Então, fui montando um mosaico  Vander Lee, de lembranças minhas, de histórias dos amigos, de depoimentos dos grandes músicos, do desenho do cartunista, das letras que foram saltando na minha timeline. Como não admirar alguém que escreve:

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores

Somado a isso, fui formando minha playlist Vandeco, e encaixando as letras inspiradas de sua carreira a passagens da minha vida. Puxa, eu sou Cruzeiro, meu marido é Galo. É claro que me identico quando ele canta:

Ela finge que não, mas no seu coração
Ainda sou artilheiro
Só faz isso porque, meu irmão
Eu sou Galo e ela é Cruzeiro

Eu também me considero do clube Vander Lee, de últimos românticos, que são poucos, pirados e acham que o outro é o paraíso. E me vejo cada vez mais enredada, tomada de uma tristeza, como se ele fosse, de fato, um amigo querido.

Mas, agora só pista vazia.

vandeco

 

2 comentários em “Deixa eu chorar até cansar

  1. que lindo texto.
    eu também amava vander lee e nem sou de BH.
    um grande poeta que a gente perde quase na flor da idade.
    imagina ele com a idade de gil, caetano, djavan, paulinho da viola…
    chorei ao ler sobre a sua morte, tão cedo.
    beijo, querida.

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