Arquivo mensal: setembro 2016

O professor Domingos

A morte do ator Domingos Montagner, afogado no Rio São Francisco, abalou todos nós. Como fã que era, li as muitas reportagens que foram publicadas sobre a trajetória dele porque intuía que ele era um ator diferenciado, especialmente por ter começado a atuar pelo circo. Lá no pé de página de uma das matérias, porém, descobri o real motivo de ele ser tão especial: antes de galã da novela, ator de teatro e artista circense, Domingos Montagner foi professor.

Formado em Educação Física, deu aula por dez anos em São Paulo, sua cidade natal. Talvez essa passagem da vida dele seja menos relevante para a maioria dos fãs e para a grande mídia, que reportou seus anos pelo Magistério superficialmente. Mas para quem é professor isso pode ser estimulante. Mesmo com o pouco que a imprensa divulgou sobre seu lado educador físico, dá juntar uma menção aqui, outra acolá, destacar um ou outro trecho de uma entrevista e compor o perfil do Montagner professor: um profissional dedicado e que valorizava o Magistério.

Dá para perceber que ele tinha orgulho de ter começado sua vida profissional nas quadras esportivas de uma escola. Também deixou transparecer que era um professor empenhado em trazer inventividade para as aulas de Educação Física, tanto que foi para aprimorá-las que enveredou pela arte circense. A educação saiu dele, mas ele nunca saiu da educação é a impressão que o ator passava ao rememorar sua época de professor.

Mas nada como ouvir um aluno para se conhecer um educador. Em um depoimento emocionado, a jornalista Manuela Aquino, que foi sua aluna 25 anos atrás, conta que ele formava, com um professor de música, “uma dupla maravilhosa de mestres cheios de ideias inovadoras”.

Continuando, a jornalista recorda: “Domingos nos acompanhou nos melhores momentos daquela rotina das sete ao meio dia. Ampliou nossas experiências para além da sala de aula e foi com a gente aos melhores passeios (minha primeira vez no Parque do Ibirapuera. A gente jogou basquete e subiu em árvores) e excursões (as cachoeiras de Paranabiacaba e ele se pendurando no cipó). Quebrou o protocolo escolar quando deu dança afro e inovou ao ligar o som no último para uma aula de lambada (…). Seu sorriso enorme e branco acompanhou nossas melhores gargalhadas”.

Ao encerrar o depoimento, a jornalista afirma que se tivesse a chance de reencontrá-lo diria: “Fui sua aluna, você se lembra? Foi inesquecível aquela época na Pacaembu. Você tem noção de como foi um professor incrível e que todos seus alunos se lembram de você com carinho?”.

Não tem legado maior para um professor do que ser lembrado com carinho por seus alunos. Que Domingos Montagner seja inspiração para todos nós, em nossa aventura diária de educar!

domingos

Foto: Jornal Extra/Globo

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Menos talento na tv brasileira

Só na nossa família, Domingos Montagner tinha um fã-clube, eu, Alexandra Castro, minha irmã, e mãe, bela, recatada e do lar, que um dia comentou: “ele é tão bonito!”. Tanta admiração a fez ir ao cinema, assistir ao filme dele, “De onde te vejo”. Eu também corri pro cinema pra assisti-lo nessa deliciosa comédia romântica. Mas, arrebatamento mesmo foi na novela Sete Vidas. Voltei a ligar a TV só pra acompanhá-lo na trama de Lícia Manzo, como o enigmático Miguel.
Lamento pela ironia do destino, por ter sido tragado pelo velho Chico, numa situação tão próxima do papel que representava na novela. Lamento também pela família, pelos filhos, pelos anos ainda em que poderia levar um fôlego novo pra tv brasileira. Formado nos picadeiros, ele tinha essa simplicidade e esse fascínio dos artistas circenses. Sim, ele teve que se enquadrar à caretice da teledramaturgia brasileira, mas penso que tentava imprimir uma originalidade aos seus papéis. Pra mim, era um dos grandes nomes entre os atores maduros da atualidade.

Menos beleza, menos talento e menos autenticidade na telinha brasileira, )-;

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Julieta: de longe e de perto

É mágica a sensação de terminar de assistir a um filme e pensar: “Por que demorei tanto pra conhecer essa história?”. Imagino que para o cineasta, o condutor da história, seja igualmente mágico: que não exista prenda maior do que ter enredado o espectador. Digo isso porque foi assim com Julieta, de Pedro Almodóvar. Soube do filme durante sua realização, acompanhei de perto seu lançamento, mas quando Julieta chegou aos cinemas pra valer, marquei passo e demorei a encontrá-la efetivamente.

Mas, um golpe, literalmente, me fez correr pra sala de cinema: me deixei levar pela trama horas depois da manobra que tirou a presidenta Dilma do poder. Isso me deixa desconcertada: não sei precisar se a ficção foi realmente fascinante ou se era minha realidade por demais desoladora …

Um filme que trata da relação de mãe e filha é, logo de saída, intrigante. Minutos antes de partir pra sala escura, comentei com meu psi, cinéfilo inveterado, que estava a caminho do cinema de Almodóvar. Ele me deixou com a pulga atrás da orelha, dizendo que a fita não agradava a todas as mães e filhas. Pra mim agradou, em cheio!

Penso que um filme te pega, geralmente, por dois ângulos: o foco e o fundo. Julieta vista em plano geral é Almodóvar em estado bruto: o vermelho do vestido, as personagens deliciosamente exageradas, o papel de parede sufocante do cenário, a música dramática, as cerejas do bolo irritantemente viçosas, o espanhol sensualmente ganhando seus ouvidos e toda a latinidade te invadindo: às vezes muito familiar, outras horas completamente enigmática.

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Mas Julieta em close, de perto, é aquele tapa na cara, aquele sacolejo, aquele balancê das ideias: é a vida tortuosa, te tirando dos trilhos, te fazendo perder o prumo. É o destino que vem e te arranca todas as certezas. É o tempo te engolindo e te exigindo paciência e consternação. É a vontade de pegar a mãe no colo e, ao mesmo tempo, ficar tempos sem vê-la. É o desejo de morar sozinha, mas de ligar pra mãe no primeiro apuro da vida solo.

Julieta, nas lentes do microscópio, é o amor romântico, mas falho. É morar de frente pro mar, mas ser só dona de casa. É morar na cidade e ter saudades do mar. É essa inquietação, esse não-lugar. Esse grande dilema humano. “É um não contentar-se de contente”. Está tudo lá, na trama de Almodóvar, pro bem e pro mal!