Julieta: de longe e de perto

É mágica a sensação de terminar de assistir a um filme e pensar: “Por que demorei tanto pra conhecer essa história?”. Imagino que para o cineasta, o condutor da história, seja igualmente mágico: que não exista prenda maior do que ter enredado o espectador. Digo isso porque foi assim com Julieta, de Pedro Almodóvar. Soube do filme durante sua realização, acompanhei de perto seu lançamento, mas quando Julieta chegou aos cinemas pra valer, marquei passo e demorei a encontrá-la efetivamente.

Mas, um golpe, literalmente, me fez correr pra sala de cinema: me deixei levar pela trama horas depois da manobra que tirou a presidenta Dilma do poder. Isso me deixa desconcertada: não sei precisar se a ficção foi realmente fascinante ou se era minha realidade por demais desoladora …

Um filme que trata da relação de mãe e filha é, logo de saída, intrigante. Minutos antes de partir pra sala escura, comentei com meu psi, cinéfilo inveterado, que estava a caminho do cinema de Almodóvar. Ele me deixou com a pulga atrás da orelha, dizendo que a fita não agradava a todas as mães e filhas. Pra mim agradou, em cheio!

Penso que um filme te pega, geralmente, por dois ângulos: o foco e o fundo. Julieta vista em plano geral é Almodóvar em estado bruto: o vermelho do vestido, as personagens deliciosamente exageradas, o papel de parede sufocante do cenário, a música dramática, as cerejas do bolo irritantemente viçosas, o espanhol sensualmente ganhando seus ouvidos e toda a latinidade te invadindo: às vezes muito familiar, outras horas completamente enigmática.

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Mas Julieta em close, de perto, é aquele tapa na cara, aquele sacolejo, aquele balancê das ideias: é a vida tortuosa, te tirando dos trilhos, te fazendo perder o prumo. É o destino que vem e te arranca todas as certezas. É o tempo te engolindo e te exigindo paciência e consternação. É a vontade de pegar a mãe no colo e, ao mesmo tempo, ficar tempos sem vê-la. É o desejo de morar sozinha, mas de ligar pra mãe no primeiro apuro da vida solo.

Julieta, nas lentes do microscópio, é o amor romântico, mas falho. É morar de frente pro mar, mas ser só dona de casa. É morar na cidade e ter saudades do mar. É essa inquietação, esse não-lugar. Esse grande dilema humano. “É um não contentar-se de contente”. Está tudo lá, na trama de Almodóvar, pro bem e pro mal!

4 comentários em “Julieta: de longe e de perto

  1. Vc tem que ler “A fugitiva” de Alice Munro. Dois contos desse livro inspiraram Almodovar a fazer o roteiro. A história do filme ia acontecendo e eu pensava “eu já li uma história assim”, aí depois que pesquisei eu vi que ele comprou os direitos. Por falar nisso, se nunca leu nada de Alice Munro, esse é um bom início. Mulher e nobel de literatura, não podemos deixar de ler, né?

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