Arquivo mensal: novembro 2016

A música vai à academia

Coluna originalmente escrita para o site http://indicai.mus.br/.

A força da música é tão potente que a faz transcender, chegando a universos como o da academia ou da literatura. Não raro, algum pesquisador se encanta por um artista da Música Popular Brasileira e se propõe a defender teses ou dissertações sobre sua obra. Quando o resultado é muito impactante, os estudos até viram livros, permitindo que pessoas comuns mergulhem no processo de criação dos músicos que foram os objetos de pesquisa.

Chico Buarque, com certeza, é um dos compositores brasileiros que mais transita pelas bancas de doutorado ou mestrado. Ele é um dos músicos do país que mais motiva estudos acadêmicos, pela riqueza de sua obra: mais de 50 anos de carreira, mais de 300 canções, e composições gravadas em mais de 40 álbuns. As canções que abordam as personagens femininas são o principal enfoque dos pesquisadores que o estudam, mas também há acadêmicos que abordam suas composições com enfoque político e até quem descubra “as geografias” presentes na obra do artista. Carolina Pereira, por exemplo, foi por esse caminho.

Em seu doutorado pela USP, a pesquisadora investigou lugares que ficaram marcados na obra de Chico Buarque. O estudo analisa, por exemplo, a canção “Estação derradeira”, composta em 1987 para o álbum Francisco, que exalta o Rio de Janeiro: Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/Cada ribanceira é uma nação. Aborda, também, outros temas ligados ao universo geográfico e que foram cantados por Chico, como a cidade vista a partir do olhar urbano, em “As vitrines” (Álbum Almanaque, 1982): Eu te vejo sumir por aí/ Te avisei que a cidade era um vão/ Dá tua mão/ Olha pra mim/ Não vai lá não. O trabalho também cita a migração e a formação plural do povo brasileiro, por meio da letra “Paratodos”, do álbum de mesmo nome, lançado em 1993: O meu pai era paulista/Meu avô, pernambucano/O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano.

Mesmo com a supremacia de Chico Buarque, a academia se rende também a autores como Paulinho da Viola. Elite Eça Negreiros, que também é cantora e pesquisadora de Música Popular Brasileira, escolheu o sambista para seu objeto de pesquisa, tanto no mestrado quanto no doutorado, pela USP. Sua tese, agora, foi adaptada e se transformou no livro “Paulinho da Viola e o Elogio do Amor” (Editora Ateliê, 148 págs).

Para a pesquisadora, ao investigar as canções do sambista foi possível identificar algumas modalidades da representação do amor. Em “Foi um rio que passou em minha vida” (1970), um dos sambas mais conhecidos do compositor, Negreiros destaca a paixão do amante que, mesmo diante da dor gerada pelas desilusões afetivas, continua se apaixonando e buscando no próprio amor a cura para os seus males: Meu coração tem mania de amor/ Amor não é fácil de achar/ As marcas dos meus desenganos ficou, ficou/ Só o amor pode apagar.

E para as compositoras da MPB, há espaço na academia? Repetindo a desigualdade de gênero, os estudos enfocando as mulheres que compõem são em número mais reduzido, ou não são tão badalados. É possível encontrar pesquisas sobre Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Dolores Duran (1930-1959) e Maysa (1936-1977). Das compositoras contemporâneas, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são algumas das pesquisadas.
Mas, inspiração não falta. As letras da MPB são riquíssimas e é possível se debruçar sobre a obra de vários artistas. E, no fim das contas, uma canção que nos arrebata pode mudar tudo, como bem escreveu Chico Buarque, em 1980: Qualquer canção de amor/ É uma canção de amor/ Não faz brotar amor/ E amantes/ Porém, se essa canção nos toca o coração/ O amor brota melhor/ E antes.

Barcelona: amor à segunda vista

Dias 10, 11 e 12: Barcelona

Tolinha que sou, achei que estava decidido: me identifico mais com Madrid do que com Barcelona. Claro, a primeira é muito mais parecida com Beagá: é linda,  envolvente, mas mais perto dos padrões. Uma cidade mais certinha, uma moça fina pra casar, um bom partido. Nós, mineiros, somos assim, mais previsíveis. Já Barcelona me assustou da primeira vez, achei a cidade muito vida loka, ainda que também a tenha considerado linda e envolvente como Madrid. Diferentemente da capital espanhola, achei Barcelona muito evoluída pros meus padrões.

Mas como diz Saramago, nada como voltar a um lugar no qual já se foi e descobrir uma pedra que não tinha notado, observá-la de noite, seus detalhes,suas idiossincrasias…Essa máxima do escritor caiu como uma luva: nessa segunda visita descobri uma cidade que me arrebatou. A graça de voltar a um mesmo lugar está nisso: nessas surpresas, na mudança de conceitos, preconceitos e percepções. Pode ser que eu tenha vindo a Barcelona numa fase menos Madrid e, anteriormente, tenha visitado a cidade numa época mais enquadrada. Agora, não, caí de amores por essa ovelha negra da Espanha.

Tudo me encantou, mas essa rebeldia, o desejo de ser um país independente e a garra com a qual os catalães defendem esse ideal separatista é de cair o queixo. Não sei dizer se é uma causa justa, a separação é polêmica. Não sei quem tem razão, mas sei que quem defende uma ideia com tanta veemência, num mundo onde tudo é tão volátil, onde nossos heróis morreram de overdose, onde procuramos uma ideologia pra viver, ah, isso tem muito valor!

Gaudi, Barceloneta, Parque da Cidadela, Las Ramblas…tudo é lindo, mas nada é mais tocante do que as bandeirinhas da Cataluña em todos, eu disse, todos os prédios de moradores de Barcelona, acenando para esse desejo de liberdade, de autonomia. No amor a uma causa, Barcelona é imbatível. E agora, no meu coração a cidade também é! Arriba!!!

 

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Fuliculi fulicula

Dias 9 e 10: Nápoles

Última hora na Itália. Terminamos em Nápoles. O primeiro dia foi bem impactante. A cidade é mesmo suja, o trânsito é caótico e os atendentes são mega apressados, sempre parecendo que vão ter que correr pra tirar a pizza do forno.

Mas, passado esse primeiro impacto, a cidade é mostra seus encantos. Às margens do porto, as paisagens são lindas e os garçons mais afáveis. Descobrimos que, como os mineiros, eles também engolem o fim das palavras. E também riem do caos da cidade, numa espécie de conformismo: somos malucos, mas somos beleza.

Fala-se que, diferentemente do Brasil, o norte da Itália é mais desenvolvido. Não deu pra perceber se os napolitanos se sentem os primos pobres do país, mas com certeza, eles são muito mais animados do que os conterrâneos do andar de cima. Nisso também me parece que os napolitanos såo mais parecidos com os brasileiros. Eles animam uma festa como ninguém, gesticulam e falam alto, assobiam e fazem pasta, tudo ao mesmo tempo.

Por fim, ostentam a fama de terem a melhor pizza do mundo. Eu achei maravilhosa, embora simples: molho de tomate e muçarela de búfala, basicamente. Por isso são tão competentes, fazem menos virar mais!

Vim, vi e perdi

Dias 7 e 8: Roma

Ainda que eu quisesse ignorar, acordei em Roma com a notícia-bomba de que Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos da Améria. Perdi mais uma vez, perdemos todos: foi eleito um xenófobo para governar a nação mais poderosa do mundo.

Lamento especialmente pelos imigrantes, não tenho parâmetros, mas as ruas romanas estão apinhadas de vendedores ambulantes, a imensa maioria homens, jovens e negros.  Vendem quinquilharias, passam o dia pelas ruas, têm um semblante de desperança. Imagino onde vivem e se vivem em algum lugar para além da rua. Serão cada vez mais invisíveis e desrespeitados na era Trump, um declarado senhor que ignora os direitos humanos.

Mas, vida que segue, agora cada vez mais à direita. Diferentemente, foi virando à esquerda que me deparei com o Coliseu! Roma é assim: um monumento em cada esquina e é impossível não ficar mexido diante de um dos cartões-postais mais famosos do mundo, onde o lema era o do imperador Júlio César: vim, vi e venci!

A noite foi em Trastevere, o bairro boêmio de Roma. É um charme, e jantamos em um restaurante típico, com uma comida maravilhosa! Mas, como nada é perfeito, o taxista nos usurpou na volta, não zerando o taxímetro e nos obrigando a pagar a nossa e a corrida anterior. Esse está ainda com as mãos sujas, ao invés da campanha pela limpeza da corrupção do país.

A terça feira foi de turismo religioso. O Vaticano também é empolgante, mas tanta suntuosidade constrange. Tudo é superlativo, tem muitos visitantes e o Museu do Vaticano é enorme, com muitas, muitas salas, ainda que você opte pelo roteiro de visitação menor.

O teto da Capela Sistina, pintada por Michelângelo, a menina dos olhos do museu, mal pode ser admirada. Há uma recomendação recorrente dos guardas da sala, “no foto”, “no foto”, o que inibe e desconcentra. É aquela arte inatingível e que te frustra de alguma maneira: muito perto e muito longe, superlativo e paradoxal.

Pra arrematar, almoço no Mercado Central de Roma: comi um ravioli de carne maravilhoso. Fim de noite foi numa trattoria, também muito simpática, mas a temporada romana se encerrou com uma pontinha de tristeza: não vimos o papa. Tudo bem, diferentemente do Michelângelo, do papa Francisco todo mundo se sente próximo, mesmo distante.

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Chove lá fora, vinho cá dentro

Dias 5 e 6: Livorno e Roma

Florença deixou as melhores lembranças, mas queremos chegar à cidade eterna. A questão é que a porta do céu é pequena e foram dois dias em que ralamos pra chegar ao paraíso: alugamos um carro em Florença, mas chovia a cântaros.

Com tanta intemperie nossos planos de conhecer as vilas de Cinque Terri foram por enxurrada abaixo. Uma barreira caída na estrada e as cidadezinhas ficaram pra próxima.

Rumamos então pra Pisa, mas o temporal era tão forte que vimos a torre pendente num flash, só pra registrar. Em compensação, almoçamos felizes em um restaurante a poucas ruas da torre: a maior sorte, porque foi a primeira porta que avistamos aberta, no meio do temporal.

Chegamos em Livorno pra pernoitar, e essa era uma estadia top, pois se tratava do hotel mais bacana, mais estrelado e mais recomendado pelo nosso agente de viagem. É lindo mesmo, de frente pro mar Tirreno, todo sofisticado, mas…muito impessoal.

Os ricos são estranhos: no hotel mais caro, glamour zero: ninguém pra ajudar com as malas, um cartão magnético que não abria a porta do quarto, nem um planfeto com a senha do wifi e um ninho de amor de fundo, quando podíamos ter um oceano de frente dos nossos olhos.

Mudamos pro quarto com vista pro Tirreno, mas na volta do jantar a porta continuou emperrada. Tudo bem, já tínhamos tomado um vinho e nada nos abalou.Eu também tinha experimentado o prato típico de Livorno e matado minha curiosidade. Muito diferente da minha vã filosofia. Chamam de “uma espécie de sopa” de frutos do mar. Mas, é propaganda enganosa: não tem caldo, portanto, não é sopa. É um prato forrado com pão e muito fruto do mar, de diferentes qualidades, alguns bichinhos dos quais nunca tive notícias…

O amanhecer em Livorno, sem chuva, foi ótimo. Demos até uma corridinha antes de pegar a estrada novamente. Mas foi só entramos na rodovia e o céu veio abaixo. Chegamos a Roma já de noitinha, debaixo do maior dilúvio, mas na maior expectativa pra desvendar a cidade eterna!

Sob o sol da Toscana

Dias 3 e 4: Florença

Não é que eu seja facinha, é que impossível não gostar da Itália. Que país mais fascinante! Passamos do Nordeste pro Norte, em Florença, na Toscana e…como não amar?

Hospedamos de frente pro crime, da sala de estar do hotel avistávamos a Praça della Signoria: por 48 horas fomos vizinhos de Botticelli, Leonardo da Vinci, Michelangelo.

Da mesma maneira que os artistas estão a poucos metros, as griffes italianas estão a cada esquina, não que sejam pro nosso bico, mas estão todas lá, nos constrangendo com tanta ostentação, Loius Viutton, Prada, Gucci.

Mas isso é o menos importante, o máximo foi comer a primeira pizza na terra da pizza. Fomos de caprichosa, com presunto, muçarela, funghi, alcachofra. Não é tão fininha quanto nos disseram nem tão alta como as do Brasil. São de um tamanho só, equivalente à nossa pizza grande, mas o dono do estabelecimento perguntou se eram duas para o casal. Respondemos que era uma pizza e ele nos mirou com semblante de, “seus amadores!”

Quando amanhecemos em Firenze já estávamos menos verde oliva. Começamos pela Galeria degli Uffizi com todos os artistas famosos do renascimento. Passamos pela Catedral Duomo e chegamos à Farmacia de Santa Maria Novella, fundada em 1612!!! Trouxe um sabonete que vai virar requília porque vai ser difícil colocar um aroma tão lendário num banho qualquer…

Então, hora do rango! Já estamos craques no vinho rosso da casa pra acompanhar o almoço, mas até então não tínhamos achado “a cantina”. Como sempre, estava escondida por trás de uma portinha estreita. Lá dentro, muito sotaque italiano nas mesas, servidas por um bando de garçons frenéticos: achamos um restaurante típico, prego!!!

Fizemos o quilo passeando pelas ruas fiorentinas e a cidade foi relevando um lado mais corriqueiro e menos turístico do que o veneziano: uma manifestaçao popular no meio da rua, o vai-e-vem de vespas, os camelôs vendendo óculos em bancas improvisadas nas calçadas.

Pra despedir de Firenze um restaurante também tradicional, onde não há wifi “pra que todos os clientes possam jantar e conversar”, me passou o sermão, o garçom. Desconfio que o meu marido foi lá antes e combinou isso com o dono da trattoria!

Grazie di tutto

Dia 2: Veneza

Já não escrevo de Veneza, mas apaixonei pela città. Agora que tenho um segundo parâmetro, minha impressão é de que pela Sereníssima é paixão à primeira vista e Florença é pra se conquistar sem tanto arroubo.

Veneza é assim, envolvente de cara. Nada me chateou, me aborreceu ou foi menos interessante do que eu podia supor. No Mercado do Peixe, tive a sensação que um nonno foi ríspido comigo, deduzi que ele queria passar e eu estava euforicamente fotogrando todos os temperos para os carbonaras que farei na volta. Ele bradou e eu fiz cara de paisagem, cara de Ponte Rialto, e toquei o bonde, ou a gôndola, pra ficar no espírito veneziano.

 

Como não falamos niente de italiano não me aperto e saco meu livrinho básico para viagem, ou jogo no aplicativo tradutor. Mas, não fosse isso, a gente não ia passar sufoco algum. Diferentemente de Paris, todos os venezianos se esforçaram para nos compreender. De minha parte, também saquei que basta dizer :Prego! É uma palavra curinga, prego pra agradecer, pra despedir, pra agradar, pra concordar, pra tudo que você quiser.

Embora seja uma cidade apinhada de turistas, o que até nos fez sair do miolo pra almoçar, Veneza não é boêmia. Tentamos sentar num bar e experimentar o spritz, um drinque típico daqui, e o estabelecimento nos recusou porque estava fechando as portas, as 8 horas da noite!!

Encontramos outro, mas na volta pro hotel, a cidade já estava adormecida. Fizemos um segundo tempo dentro do quarto mesmo, com vinho, queijos, pesto e tiramissu, que compramos ao longo do dia.161104_015327_collage-1

Foi um par de dias apenas em Veneza, mas delicioso: prego!!

Um peixe dentro da bota

Dia 1: Veneza

Viemos parar dentro da bota, do país do qual ninguém se esquece, o primeiro da Europa a ser reconhecido nas aulas de Geografia e que nos parece íntimo mesmo sem nunca termos pisado em seu solo.

Diferentemente de outras vezes, cheguei sabendo pouco sobre o que me esperava. Não tive tempo de estudar nossos destinos, de planejar os dias, as visitas e os comes e bebes. Isso é ruim, mas também é bom. Não estando preparada, tudo me surpreende ainda mais em Veneza, nossa primeira parada. Tudo é mais estonteante do que poderia imaginar. Em poucas horas aqui, percebi que todo o alvoroço em torno de Veneza se justifica: aqui é singular!!!

Por essas terras não se anda, se navega. Já do aeroporto até a cidade se faz um longo passeio…de barco! Também pudera, Veneza é um peixe que caiu dentro da bota: a cidade tem esse formato, segundo soube pelas linhas do autor Tiziano Scarpa.Encantado por esse Nemo italiano, ele escreveu que a cidade abocanhou o anzol e agora não pode mais sair de dentro da bota!

Dá pra sacar que aqui guarda muito mais encantamentos do que ruas aquáticas, passeios de gôndolas e mascarados no carnaval.

Já tenho a sensação que essa bota é o meu número: acolheu meu pé com carinho, é confortável, macia e firme ao mesmo tempo. Aliás, se não estiver enganada, já que nem sempre a primeira impressão é a que fica, assim parecem ser os italianos: firmes e ao mesmo tempo suaves. Não te dão muito refresco ao primeiro contato, mas depois cedem, que nem uma bota velha…

Na estreia já estamos encantados e certos de que começamos com o pé direito!