A música vai à academia

Coluna originalmente escrita para o site http://indicai.mus.br/.

A força da música é tão potente que a faz transcender, chegando a universos como o da academia ou da literatura. Não raro, algum pesquisador se encanta por um artista da Música Popular Brasileira e se propõe a defender teses ou dissertações sobre sua obra. Quando o resultado é muito impactante, os estudos até viram livros, permitindo que pessoas comuns mergulhem no processo de criação dos músicos que foram os objetos de pesquisa.

Chico Buarque, com certeza, é um dos compositores brasileiros que mais transita pelas bancas de doutorado ou mestrado. Ele é um dos músicos do país que mais motiva estudos acadêmicos, pela riqueza de sua obra: mais de 50 anos de carreira, mais de 300 canções, e composições gravadas em mais de 40 álbuns. As canções que abordam as personagens femininas são o principal enfoque dos pesquisadores que o estudam, mas também há acadêmicos que abordam suas composições com enfoque político e até quem descubra “as geografias” presentes na obra do artista. Carolina Pereira, por exemplo, foi por esse caminho.

Em seu doutorado pela USP, a pesquisadora investigou lugares que ficaram marcados na obra de Chico Buarque. O estudo analisa, por exemplo, a canção “Estação derradeira”, composta em 1987 para o álbum Francisco, que exalta o Rio de Janeiro: Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/Cada ribanceira é uma nação. Aborda, também, outros temas ligados ao universo geográfico e que foram cantados por Chico, como a cidade vista a partir do olhar urbano, em “As vitrines” (Álbum Almanaque, 1982): Eu te vejo sumir por aí/ Te avisei que a cidade era um vão/ Dá tua mão/ Olha pra mim/ Não vai lá não. O trabalho também cita a migração e a formação plural do povo brasileiro, por meio da letra “Paratodos”, do álbum de mesmo nome, lançado em 1993: O meu pai era paulista/Meu avô, pernambucano/O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano.

Mesmo com a supremacia de Chico Buarque, a academia se rende também a autores como Paulinho da Viola. Elite Eça Negreiros, que também é cantora e pesquisadora de Música Popular Brasileira, escolheu o sambista para seu objeto de pesquisa, tanto no mestrado quanto no doutorado, pela USP. Sua tese, agora, foi adaptada e se transformou no livro “Paulinho da Viola e o Elogio do Amor” (Editora Ateliê, 148 págs).

Para a pesquisadora, ao investigar as canções do sambista foi possível identificar algumas modalidades da representação do amor. Em “Foi um rio que passou em minha vida” (1970), um dos sambas mais conhecidos do compositor, Negreiros destaca a paixão do amante que, mesmo diante da dor gerada pelas desilusões afetivas, continua se apaixonando e buscando no próprio amor a cura para os seus males: Meu coração tem mania de amor/ Amor não é fácil de achar/ As marcas dos meus desenganos ficou, ficou/ Só o amor pode apagar.

E para as compositoras da MPB, há espaço na academia? Repetindo a desigualdade de gênero, os estudos enfocando as mulheres que compõem são em número mais reduzido, ou não são tão badalados. É possível encontrar pesquisas sobre Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Dolores Duran (1930-1959) e Maysa (1936-1977). Das compositoras contemporâneas, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são algumas das pesquisadas.
Mas, inspiração não falta. As letras da MPB são riquíssimas e é possível se debruçar sobre a obra de vários artistas. E, no fim das contas, uma canção que nos arrebata pode mudar tudo, como bem escreveu Chico Buarque, em 1980: Qualquer canção de amor/ É uma canção de amor/ Não faz brotar amor/ E amantes/ Porém, se essa canção nos toca o coração/ O amor brota melhor/ E antes.

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