Arquivo mensal: fevereiro 2017

Por isso eu cooorrrooo demais…

Temos uma relação delicada, eu e a corrida. Mas, por outro lado, ninguém pode dizer que se sente enganado nessa convivência. Foi assim: desde o primeiro dia deixei claro que minhas intenções não eram nada nobres. Procurei a corrida não pra dormir melhor, não pra produzir serotonina, não pra testar meus limites. Claro que recebo de bom grado essas gracinhas que ela me traz, mas de cara, toquei a real: “Querida, só estou com você porque quero emagrecer, ficar esbelta, perder os quilos a mais, ter de volta meu corpo de, pelo menos, alguns anos atrás… falô?”

Ela, por sua vez, também foi categórica: “Bonita, não te prometo vida boa, aqui é muita ralação, muita contusão, muita transpiração, muita competição e lá na frente, bem lá frente, uma medalhinha para levantar o ânimo… falô?”.

Com as cartas na mesa, começamos o relacionamento, que evoluiu aos trancos e barrancos. A cada dois dias, quando vou me encontrar com a bendita, me pergunto por que cargas d´água entrei nessa canoa furada, como caí nessa esparrela, pra que fui inventar essa moda? Mas, no momento seguinte, lembro que a outra alternativa é pior: emagrecer sem exercício físico é lenha, então, resignada, vou ao encontro da moça.

O que mais me desanima nessa relação delicada, além de o fato de ter que acordar cedo para me esfalfar nas pistas, são as intercorrências: o namoro não vinga, não deslancha, não evolui, não gera compromisso porque a corrida é malévola. Dói, literalmente. Dói tudo, dói intensamente: dói o calcanhar, dói o joelho, dói a coxa, dói a perna, dói o dedão do pé…Até que um dia param de doer os membros inferiores e começam a incomodar os superiores, como o cotovelo ou ombro, por exemplo, porque você deu um tranco durante a corrida. Ou o pescoço, porque você dormiu mal porque doía o calcanhar, o joelho, a coxa, a perna, o dedão do pé…

Mas não tem nada de bom nessa relação? Claro que tem, mas ainda não descobri…Sabe aquele “barato” que todo corredor afirma sentir depois do aquecimento, dos primeiros quilômetros, quando você entra na vibe da corrida e se sente flutuando…? Não sei, nunca senti. Essa moça é muito voluntariosa, e me trata a barrinha de cereal e água…

A sorte é que eu sou persistente e gosto de uma briga boa. Faço o jogo do contente e penso que essa moça deve ter lá o seu charme. Ela é marrenta, mas eu sou mais. Se virou modinha ser corredor, se tem uma penca de gente que se rendeu às passadas, se tem monte de estudos que comprovam que a corrida é do bem, não é possível que comigo ela ia ser tão mal.

E, então, como boa estrategista que é, numa manhã qualquer como hoje, a danada te apronta uma surpresa. Quando você não está nem um pouco a fim de encarar a figura, porque está exaurida das dores do encontro anterior, ela vem toda mansinha e te enreda: aumenta seu pace, te dá a maior disposição, te faz correr bonito como nunca. Bonito, assim, para os parâmetros de uma relação desgastada. Bonito para quem é iniciante, empolgado e  tem coração mole…Aí você esquece tudo e acha que nasceu pra correr, que vai ser lindo, que essa relação tem futuro. Até o joelho começar a doer e você a xingar essa parceira maldita…

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Lenu & Lila

Feliz de começar o ano terminando A amiga genial, de Elena Ferrante. Feliz é modo de dizer, estou muito contente por ter conhecido Lenu e Lila, mas na verdade essa dupla mexeu comigo. Há muito um livro não me arrebatava assim, me deixando de queixo caído no ponto final. Como assim, senhora Ferrante, encerrar o enredo, provocando no leitor esse dessossego, imaginando a cena a seguir?

Outro espanto: que escrita redonda! Não encontrei uma aresta, uma palavra fora do lugar, uma descrição nem a mais nem a menos. Não vi nenhum deslize, nem uma derrapada. Que prazer encontrar uma autora que põe uma palavra atrás da outra com tanta maestria!

Mas o grande pulo do gato da obra, para mim, é o deslocamento que ele provoca no leitor. Lenu e Lila são igualmente envolventes e, na minha percepção, vão se alternando no pódium da genialidade. Por identificação, me apeguei mais a Lenu, mas torcendo para que ela viesse a ter seus dias de Lila. Tudo em vão:  ela preferiu seguir seu destino, apenas inspirada pela ousadia da amiga.

A arretada, a ardida como a pimenta, a corajosa, durante quase a totalidade do livro, é Lila. E isso também é irresistível. Ponto pra Lila, vai pro trono de rainha. Porém, de repente, quando vai passar uma temporada diante do mar, surge a Lenu solar, nada lembrando a sorumbática estudante do caótico bairro napolitano. Sai Lila, sobe Lenu.

Voltando à vida normal, no entanto, ressurge a Lenu insegura, dependente do carinho da amiga decidida, passa-se a torcer pela Lila. Nesse vai-e-vem de alternâncias na preferência do leitor,  no final, prevalece o óbvio: são goiabada e queijo, as meninas se completam e são imbatíveis quando estão juntas, misturadas, inspirando uma a outra, mesmo que sejam tão diferentes.

Ainda fica aquela inveja enorme de se ter uma amiga genial para chamar de sua. Como uma amizade leal faz a vida pulsar diferente! Dá para idealizar um caminho assim, percorrido junto a uma amiga querida, daquelas com quem a gente se sente gigante, mesmo sendo uma formiguinha:

Tínhamos doze anos, mas caminhamos sem tempo pelas ruas fervilhantes do bairro, entre a poeira e as moscas que os velhos caminhões de passagem deixavam para trás, como duas velhinhas fazendo o balanço de suas vidas cheias de desilusão, bem apegadas uma à outra. Ninguém nos compreendia, só nós duas – pensávamos – nos entendíamos.