Por isso eu cooorrrooo demais…

Temos uma relação delicada, eu e a corrida. Mas, por outro lado, ninguém pode dizer que se sente enganado nessa convivência. Foi assim: desde o primeiro dia deixei claro que minhas intenções não eram nada nobres. Procurei a corrida não pra dormir melhor, não pra produzir serotonina, não pra testar meus limites. Claro que recebo de bom grado essas gracinhas que ela me traz, mas de cara, toquei a real: “Querida, só estou com você porque quero emagrecer, ficar esbelta, perder os quilos a mais, ter de volta meu corpo de, pelo menos, alguns anos atrás… falô?”

Ela, por sua vez, também foi categórica: “Bonita, não te prometo vida boa, aqui é muita ralação, muita contusão, muita transpiração, muita competição e lá na frente, bem lá frente, uma medalhinha para levantar o ânimo… falô?”.

Com as cartas na mesa, começamos o relacionamento, que evoluiu aos trancos e barrancos. A cada dois dias, quando vou me encontrar com a bendita, me pergunto por que cargas d´água entrei nessa canoa furada, como caí nessa esparrela, pra que fui inventar essa moda? Mas, no momento seguinte, lembro que a outra alternativa é pior: emagrecer sem exercício físico é lenha, então, resignada, vou ao encontro da moça.

O que mais me desanima nessa relação delicada, além de o fato de ter que acordar cedo para me esfalfar nas pistas, são as intercorrências: o namoro não vinga, não deslancha, não evolui, não gera compromisso porque a corrida é malévola. Dói, literalmente. Dói tudo, dói intensamente: dói o calcanhar, dói o joelho, dói a coxa, dói a perna, dói o dedão do pé…Até que um dia param de doer os membros inferiores e começam a incomodar os superiores, como o cotovelo ou ombro, por exemplo, porque você deu um tranco durante a corrida. Ou o pescoço, porque você dormiu mal porque doía o calcanhar, o joelho, a coxa, a perna, o dedão do pé…

Mas não tem nada de bom nessa relação? Claro que tem, mas ainda não descobri…Sabe aquele “barato” que todo corredor afirma sentir depois do aquecimento, dos primeiros quilômetros, quando você entra na vibe da corrida e se sente flutuando…? Não sei, nunca senti. Essa moça é muito voluntariosa, e me trata a barrinha de cereal e água…

A sorte é que eu sou persistente e gosto de uma briga boa. Faço o jogo do contente e penso que essa moça deve ter lá o seu charme. Ela é marrenta, mas eu sou mais. Se virou modinha ser corredor, se tem uma penca de gente que se rendeu às passadas, se tem monte de estudos que comprovam que a corrida é do bem, não é possível que comigo ela ia ser tão mal.

E, então, como boa estrategista que é, numa manhã qualquer como hoje, a danada te apronta uma surpresa. Quando você não está nem um pouco a fim de encarar a figura, porque está exaurida das dores do encontro anterior, ela vem toda mansinha e te enreda: aumenta seu pace, te dá a maior disposição, te faz correr bonito como nunca. Bonito, assim, para os parâmetros de uma relação desgastada. Bonito para quem é iniciante, empolgado e  tem coração mole…Aí você esquece tudo e acha que nasceu pra correr, que vai ser lindo, que essa relação tem futuro. Até o joelho começar a doer e você a xingar essa parceira maldita…

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