Arquivo mensal: maio 2017

O amor é o que fica

Publicado originalmente em 23 de maio de 2015

Conhecia pouco sobre Kandinsky, e também não sei nada de arte abstrata. O que tentei fazer [ao visitar a exposição Kandissnky: Tudo começa em um ponto] foi capturar algumas sutilezas da vida do artista e então gostei da faceta dele poeta, do interesse pela cultura popular e da relação afetiva com Gabriela Munter. Ela teria dito algo como, “depois de ter um professor como Kandisnky vai ser difícil acostumar com qualquer outro”.

E fiquei encantada com o tempo em que eles viveram nesta casa, uma espécie de xangrilá do casal, em Murnau, na Alemanha. O romance não vingou, Kandinsky casou de novo, mas tenho a impressão que foi o tempo em que ele foi mais feliz.

kandisnky

Pode não ser nada disso, mas o que ficou pra mim não foram as telas, as cores, o brilhantismo…o que me tocou é que, como sempre, o amor é a fase mais linda da história de todas as pessoas, das mais comuns às mais geniais

Meu coração, não sei por que, bate feliz, quanto te vê…

Sem querer fazer intriga, mas já fazendo, em São Paulo, Marisa Monte e Paulinho da Viola tocaram pouco mais de uma hora. Em BH, foi quase o dobro. Paulinho, um poço de timidez, estava perto de soltinho, até sorrindo ao narrar histórias pitorescas de sambistas da Portela.
Marisa Monte, aquela artista perfeita: a gente procura, procura e procura um defeito, mas sem sucesso! Com figurino dama de vermelho, cachos cada vez mais lindos, performática, delicada com a plateia, arrebatou o público quando cantou Carinhoso e logo depois propôs um bis de Pixinguinha, que compôs essa “música que faz a gente sentir tanto orgulho do Brasil”.
Quando você pensa que tá tudo redondinho, vem outras surpresas, como Carnavália, dos Tribalistas (sorry, eu curto), essa ode à festa mais bonita do país: Sinto a batucada se aproximar/Estou ensaiado para te tocar/Repique tocou, o surdo escutou/E o meu corasamborim/Cuíca gemeu/Será que era eu/Quando ela passou por mim…
Pra fechar com chave de ouro, um #ForaTemer bem ao estilo de mineiro, que gosta de falar sem dizer. Sugerida pelo sambista de cabelos brancos, Marisa e Paulinho cantaram Comida: A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte/
A gente não quer só comida/A gente quer saída para qualquer parte.
Enfim, melhor do que a encomenda.
Obrigada, universo!
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Todos os Caetanos do mundo

Primeiramente, devo confessar que sempre fui mais Chico do que Caetano. Até que ontem descobri que não sou tão convicta assim, pois fiquei completamente balançada pela filho da Dona Canô, no show Cobra Coral Canta Caetano. E, de quebra, também virei fã número 1 do quarteto mineiro, no melhor estilo, “nunca te vi, sempre te amei”. Flávio Henrique, Mariana Nunes, Kadu Vianna e Pedro Morais selecionaram preciosidades da obra do Caetano Veloso e fizeram um show marcante!

Sabe quando você já cantou uma música de cor e salteado, dezenas de vezes, mas só de repente se dá conta da beleza dos versos? Isso me arrebatou nos primeiros minutos. Achei de uma beleza tão triste esta queixa…”Um amor assim violento/ Quando torna-se mágoa/É o avesso de um sentimento/Oceano sem água”.

caetano-veloso

Mas logo em seguida me reanimei com a verde-e-rosa e a Bahia, a estação primeira do Brasil: “Isso é a confirmação de que a Mangueira/É onde o Rio é mais baiano”.

Na voz de Mariana Nunes, impossível não pensar que Caetano é baianeiro e seu Trem das Cores são todas as maria-fumaças serpenteando Minas Gerais: “As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar/Os dois lados da janela/E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há/Azul que é pura memória de algum lugar”.

E teve os músicos, seus arranjos fantásticos e suas vozes lindas pra lavar a alma da plateia em Podres Poderes: “Será que nunca faremos senão confirmar/A incompetência da América católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos/Será, será, que será?

Pra lavar a alma e também nos fazer lembrar dos versos mais lindos compostos debaixo dos caracóis daqueles cabelos: “Eu vi a mulher preparando outra pessoa/O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga/A vida é amiga da arte/É a parte que o sol me ensinou/
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou”.

E vieram mais e mais versos, mais arranjos, mais releituras, todas delicadamente escolhidas e ensaiadas, inclusive uma ou duas composições do lado B do Caê.

Mas o que arrebatou mesmo foram as clássicas, os grandes sucessos, as composições icônicas e poderosas como uma Tigresa, cantada no improviso por Mariana Nunes: “Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar/Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar/Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão/E a tigresa possa mais do que o leão”.

cobra coral

Que prazer em dose dupla! Obrigada, Caetano, por me fazer descobrir o Cobra Coral! Obrigada Cobra Coral, por me fazer (re)descobrir o Caetano!