Arquivo mensal: junho 2017

Sangrando

Existe uma máxima que diz, “escrever é fácil, é só sentar diante do papel e deixar sangrar a testa”.  Não é assim tão dramático, mas também não é muito diferente. E digo com conhecimento de causa. Depois de muitos anos longe do ofício raiz de um jornalista, que é escrever, voltei para a labuta.

Meu veículo é um jornalzinho semanal, os assuntos são amenos, minha editora é super compreensiva, minhas fontes são acessíveis, mas sexta-feira ao fim da manhã, faça chuva ou faça sol, ainda que eu conte com todas essas facilidades, os textos têm que sair, nem que seja a fórceps.

E tem dia que empaca. Você senta diante do computador confiante porque as pautas estão fresquinhas na cabeça, os textos desenhados mentalmente, as entrevistas renderam…não pode dar nada errado. Mas é nessa sexta-feira que você vai se enrolar. Lá na penúltima nota você não tem a menor ideia do que vai redigir e o dead line tá fugando no cangote. É desesperador, mas ao mesmo tempo é surpreendente. Como em um passe de mágica, aparece a inspiração, empurrada por aquela adrenalina de um cachorrão preto correndo atrás de você, como bem definiu o Henfil.

Diferentemente de minutos atrás, você desembola um texto bacana, algumas vezes até com uma sacada inspirada,  no melhor estilo, “dominado, tá tudo dominado”. Se eu que sou uma reles jornalista sinto essa realização ao fechar meu jornalzinho, imagino a sensação dos renomados e premiados repórteres, que ainda resistem aos trancos dessa profissão doida e doída, como escreveu meu marido e jornalista preferido.

Mas, modéstia às favas, tantos os pequeninos quanto os gigantes redatores têm a mesma epifania após o ponto final de um texto sofrido, quase uma dádiva em um mundo onde há tanta gente procurando a real vocação: eu nasci pra isso, pra juntar uma letrinha atrás da outra; não poderia fazer nada melhor em nenhuma outra profissão!

escrita

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Meus dias com Rita

Rita Lee é aquele tipo de artista que parece da família, pois está em todas as fases da vida da gente. Seus sucessos embalaram minhas primeiras paixões adolescentes (eu nem sinto meus pés no chão, olho e não vejo nada, eu só penso se você me quer…), as desilusões amorosas (desculpe, babe, eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória, minha glória), as fantasias românticas (que tal nós dois, numa banheira de espuma…), os barracos afetivos (desculpe o auê, eu não queria magoar você...) as crises existenciais (não adianta chamar, quando alguém está perdido, procurando se encontrar…) e por aí vai…

Talvez seja por isso que a autobiografia da roqueira tenha me balançado tanto, a ponto de nos últimos meses ter sido o único livro a me tirar  das redes sociais, em um 2017 em que me propus voltar às leituras não-virtuais e estava perdendo de lavada até então.

Rita escreve cronologicamente, às vezes puxando um ou outro fato fora do andar da carruagem, o que pra mim foi um jeito envolvente de preparar o terreno para a fase hard da sua carreira. Na infância e adolescência em São Paulo, Rita parece uma garota banal, filha de uma mãe carola e um pai metódico. Não dizem que os filhos vêm para confrontar os pais? Pois é. Dito e feito. Mesmo criada em uma prosaica família paulistana, Rita foi ao extremo, para o bem e para o mal.

Gosto de pensar que meu pai é um bom termômetro do alcance da música de Rita Lee. No livro ela conta que, no auge da carreira, o príncipe Charles foi a uma boate e pediu que a casa tocasse um de seus sucessos. Agradar a realeza é o máximo, mas o suprassumo mesmo é agradar meu pai, um fazendeiro dos rincões mineiros, sistemático,  que nunca deve ter se aproximado de uma guitarra e, ainda assim, era super fã do disco Saúde da Lee.

Toda essa popularidade entre os famosos e anônimos, no entanto, não aplacaram muitas angústias da roqueira. O livro é recheado de histórias divertidas, pitorescas, calientes dela e do marido Roberto, mas tudo isso intercalado com as nuvens pesadas da relação com os meninos Mutantes, a imprensa brasileira (ela se queixa de ter sido duramente criticada ao longo da carreira) e a dependência das drogas e do álcool.

Ser vida lôka e estar por um fio no universo do rock é um filme repetido entre as estrelas do show bisness, mas quando é com a Rita Lee, pôxa, dá uma super vontade de pegar no colo e dizer, “miga, pára com isso”. É dilacerante ver a sucessão de interna-desinterna-interna-desinterna da roqueira, buscando se livrar dos entorpecentes.

Mas aí vem a neta e a vovozinha do rock consegue parar a montanha-russa que quase a derruba. Fofa.

Não podia ser diferente. Já pensou que vida irritante sem a Rita?

rita lee