Meus dias com Rita

Rita Lee é aquele tipo de artista que parece da família, pois está em todas as fases da vida da gente. Seus sucessos embalaram minhas primeiras paixões adolescentes (eu nem sinto meus pés no chão, olho e não vejo nada, eu só penso se você me quer…), as desilusões amorosas (desculpe, babe, eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória, minha glória), as fantasias românticas (que tal nós dois, numa banheira de espuma…), os barracos afetivos (desculpe o auê, eu não queria magoar você...) as crises existenciais (não adianta chamar, quando alguém está perdido, procurando se encontrar…) e por aí vai…

Talvez seja por isso que a autobiografia da roqueira tenha me balançado tanto, a ponto de nos últimos meses ter sido o único livro a me tirar  das redes sociais, em um 2017 em que me propus voltar às leituras não-virtuais e estava perdendo de lavada até então.

Rita escreve cronologicamente, às vezes puxando um ou outro fato fora do andar da carruagem, o que pra mim foi um jeito envolvente de preparar o terreno para a fase hard da sua carreira. Na infância e adolescência em São Paulo, Rita parece uma garota banal, filha de uma mãe carola e um pai metódico. Não dizem que os filhos vêm para confrontar os pais? Pois é. Dito e feito. Mesmo criada em uma prosaica família paulistana, Rita foi ao extremo, para o bem e para o mal.

Gosto de pensar que meu pai é um bom termômetro do alcance da música de Rita Lee. No livro ela conta que, no auge da carreira, o príncipe Charles foi a uma boate e pediu que a casa tocasse um de seus sucessos. Agradar a realeza é o máximo, mas o suprassumo mesmo é agradar meu pai, um fazendeiro dos rincões mineiros, sistemático,  que nunca deve ter se aproximado de uma guitarra e, ainda assim, era super fã do disco Saúde da Lee.

Toda essa popularidade entre os famosos e anônimos, no entanto, não aplacaram muitas angústias da roqueira. O livro é recheado de histórias divertidas, pitorescas, calientes dela e do marido Roberto, mas tudo isso intercalado com as nuvens pesadas da relação com os meninos Mutantes, a imprensa brasileira (ela se queixa de ter sido duramente criticada ao longo da carreira) e a dependência das drogas e do álcool.

Ser vida lôka e estar por um fio no universo do rock é um filme repetido entre as estrelas do show bisness, mas quando é com a Rita Lee, pôxa, dá uma super vontade de pegar no colo e dizer, “miga, pára com isso”. É dilacerante ver a sucessão de interna-desinterna-interna-desinterna da roqueira, buscando se livrar dos entorpecentes.

Mas aí vem a neta e a vovozinha do rock consegue parar a montanha-russa que quase a derruba. Fofa.

Não podia ser diferente. Já pensou que vida irritante sem a Rita?

rita lee

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