Meu pai passarinho

As lembranças de pai estão irremediavelmente ligadas à terra e a tudo que vem dela. Impossível pensar nele sem sentir o pé pisando a terra,  o gosto do leite ao pé da vaca, a vista se perdendo diante de um pasto verdinho, o barulho dos passarinhos, o galope do cavalo, o Rio Doce na sua travessia sem parar…

Essa terra o deu muito e ele generosamente transferiu toda essa riqueza para nós, em forma material e imaterial. Das primeiras, as mais emblemáticas eram as férias na praia. Meu pai Dedé nos levou – a mim, meus irmãos e minha mãe -, por anos a fio, para o Espírito Santo, na segunda quinzena de janeiro. Guarapari era nossa xangrilá. Era um luxo trocar as montanhas de Minas pelas areias escaldantes capixabas e depois descansar as peles torradas de sol na cama de um hotel.  Em um tempo em que turismo era pra poucos, ele, em sua simplicidade, ano após ano, reservava para a família aquele três estrelas que, aos nossos olhos, era a hospedagem mais top que poderia existir.

Eu fui a última a nascer e não peguei esse período, mas os irmãos mais velhos contam que ele teve a fase do chocolate Laka. Vinha à cidade e trazia para a roça uma caixa de barrinhas para a filharada. Também buscava o retratista – como eram chamados os fotógrafos da época – para registrar as imagens da família Castro e depois dependurá-las na parede da sala .

Perdi os chocolates, mas ganhei uma Caloi Ceci com cestinha, que era a mais maravilhosa bicicleta que uma criança podia desejar. Dividi com minha irmã Alexandra dezenas de pasteizinhos de milho que ele trazia de viagem, quando já morávamos na cidade e ele vinha à capital.

Mas a herança imaterial, essa sim, é a que fica pra valer. Foi com a roças de milho verde que ele bancou a faculdade de todos os filhos que se graduaram em escola particular. Embora tenha poucos anos de estudo, sempre nos estimulou a fazer ao contrário e morria de orgulho a cada filho que conquistava um canudo. Quando entrávamos no mercado de trabalho, contava para meio mundo coisas como, “minha filha trabalha na Rede Globo”, para meu desespero que morria de vergonha de tanta prosa.

Ele nos ensinou a ter uma sede imensa de aprendizado, de vontade de escarafunchar as coisas, de criar projetos e empreender. As coisas cresciam na cabeça dele e ficávamos apavorados com tantos planos mirabolantes, que envolviam às vezes uma habilidade que ele não tinha e cifras que ele também não possuía. Ele se jogava, sem rede. A grande maioria deu certo, e os que não deram, eu sublimei. Só me lembro dele com uma confiança inabalável a cada projeto que emplacava, nos olhando como quem diz, “tolinhos, por que vocês acharam que daria errado?”.

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Tem também uma herança que guardo com carinho porque penso que nesse quesito eu sou bem parecida com ele – a ironia, o humor fino, misturado ao jeito antenado. Uma marca bem mineira de fazer troça, de rir de algo que não parece engraçado à primeira vista. E de ser um grande observador de tipos humanos, incrementando a história deles com um toque piadista.

Além de nos deixar essa lista de tantas boas heranças, a hora da partida também foi especial. Foi dormindo, tirando uma prosaica soneca depois do almoço, que ele se despediu. Assim como um passarinho, que sai de cena de mansinho, batendo asas, como as dezenas de andorinhas que sobrevoam sua fazenda diariamente.

Eles passarão, você passarinho!

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