Arquivo mensal: dezembro 2017

Dois compadres destes, bicho!

Difícil apontar o momento mais tocante do show de lançamento do DVD de 20 anos de carreira de Vander Lee. O material foi gravado em julho de 2016 e, um mês depois, o artista partiu.

Todos os que subiram ao palco, entre eles a ex-mulher, Regina Souza, os filhos, Lucas Rasta, Laura Catarina e Clara Catarina, Chico César e Zeca Baleiro, além da banda que o acompanhou no DVD, estavam emocionadíssimos e fizeram as melhores reverências ao Vandeco.

Mas os depoimentos de Maurício Tizumba foram um caso à parte. Imagina que privilégio… os caras eram compadres! Então, Tizumba contou da lindeza dessa amizade. Explicou a confusão em torno de uma das letras de Vander Lee, criticada por ter versos de frieza com as mulheres. O compadre explicou, “mas gente, ele fez a canção motivado por uma manequim de loja”.

vander lee e tizumba

Em cada história, dava pra entender perfeitamente o impacto da morte de Vandeco para o congadeiro, que disse que foi a partida que mais o tocou, a ponto de ele não conseguir assimilar essa fatalidade.

E não menos importante, Tizumba falou de ter apadrinhado a caçula de Vander Lee. Só quem é comadre e compadre de um amigo ou amiga querida sabe o elo que se forma dessa relação. Tizumba falou lindamente do batizado de Clara Catarina e do ritual escolhido pelos padrinhos e pais para a bênção. Contou que escolheram uma cerimônia com muito fogo pra Clara ser firme e aguerrida, com muito azeite, pra ela ter molejo e se desvincilhar das armadilhas da vida, e muita água, pra que a menina pudesse correr solta pela vida afora.  Pra arrematar, tocaram tambor e cantaram, padrinho e afilhada, inspiradíssimos, uma música de Vander Lee.

tizumba

Sentir a força dessa história de compadres foi um bálsamo. Salve, Tizumba! Salve, Vandeco!

 

 

Sob as bênçãos de Baco

O melhor do vinho é o balancê que ele faz no nosso corpo e na nossa alma. Todo mundo que já secou uma garrafa conhece os efeitos – aquela sensação de leveza, o riso que vem solto e as palavras que saem da boca sem a menor cerimônia…As pernas ficam bambas na medida exata – não a ponto de você perder a linha, mas suficiente pra tudo ficar muito mais bonito, atraente e saboroso porque a visão é aguçada e o paladar é apurado.

É possível experimentar isso tudo, sem saber quase nada do que está por trás da produção, pode ser até com o vinho em oferta que você encontrou na prateleira do supermercado… Mas o pulo do gato é que quando você descobre os bastidores, a aventura fica muito mais divertida, como explicou o amigo Túlio Mafra, na noite de vinhos que organiza de tempos em tempos. Os seis rótulos que degustamos foram harmonizados com um jantar pra lá de especial, preparado pela Maria Esperança, sua mulher. Imagina que combinação: ele escolhe os vinhos, ela seleciona e prepara o menu. E nós, os convidados, fazemos o “sacrifício” de experimentar o resultado dessa dobradinha…

Com esse lembrete inicial, começamos bem. O compromisso foi ter uma noite leve como o barato do vinho, ninguém com obrigação de  virar expert no assunto, muito menos se transformar em um enólogo prepotente, o enochato, como é popularmente conhecido.

Os dois primeiros vinhos foram brancos. A bebida da primeira garrafa, da África do Sul, é feita com a uva chenin blanc, tem gosto de fruta e aroma que lembra melão, pêra e goiaba branca. Como sou muito facinha, de cara simpatizei com o cabra. Veio acompanhado de mil folhas de palmito, com mousse de haddock defumado e ceviche de camarões. Como diria minha vó Dota, feito com tanto ingrediente bom, só pode ser ótimo, e foi.

Em seguida, a pedida foi  um vinho feito com a uva riesling. Fabricado na Alemanha, ele também tem sabor frutado e aroma que lembra pêssego e lima. O teor alcoólico é um pouco menor que o primeiro, então, é uma boa opção se você quer deixar as pernas somente levemente bambas. Degustamos junto de bruschettas de cogumelos e tomates, e sendo bruschettas fui imensamente contemplada porque é uma entrada que eu amo de paixão!

 

Aí, pra bagunçar o coreto, pois você já começava a se iludir que estava pegando a manha dos brancos, vem um vinho tinto. Chi-Chi-Chi-lê-lê-lê, Viva Chile! Produzido às portas do deserto do Atacama, é feito com uva pinot noir e tem sabor frutado, remetendo a framboesa, morango e cereja. Ficou perfeito com um ragu de fraldinha, com molho de frutas vermelhas.

fraldinha esta

Na quarta etapa, voltamos aos brancos. Esse chegou chegando, classificado como um vinho mais opulento e caro. Elaborado com a uva pinot gris é produzido na Califórnia, na vinícola fundada por Fred MacMurray, ator falecido de Hollywood. Achei isso de cinema e vinho muito acertado e delicioso! Pra acompanhar, a Maria mandou muitíssimo bem, com um assado de bacalhau desfiado.

 

Na etapa final, vieram mais dois tintos. O primeiro, um vinho da Toscana, tem paladar de framboesa e é suave, comprovando que a Itália nunca decepciona.  Mas a Espanha também não fica pra trás, e de lá veio a derradeira garrafa, feito com as uvas cabernet sauvignon e monastrell. É um tipo mais diferentão no aroma e no paladar, pois tem um toque de especiarias. Eu, leiga que sou, não identifiquei esse diferencial, mas se os entendidos dizem que tem, tem.

O último prato também foi em grande estilo, um lombo ao molho de vinho com batatas elegantes. A elegância foi produção da Maria, que teve que criar um prato em seu curso de gastronomia e batizá-lo com nome forte. Inspirada no queijo cheddar derretendo pela batata, surgiu a nomenclatura – batatas elegantes.  Atesto e dou fé : elegantes, macias e saborosas!

E pra fechar com chave-de-ouro, a sobremesa pela qual eu arrasto um bonde: creme brûléé. Pela cara de bebinhos e felizes dos confrades dá pra imaginar o quão perfeita foi a noite.

Evoé, Baco!