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Minha carne é de carnaval

Em setembro começou meu carnaval. Foram cinco meses bebendo na fonte do Belchior e tentando colocar um tamborim no meio da obra do Bigode. Nos ensaios do Volta Belchior um novo dialeto passou a fazer parte da minha vida: naipes, regência, ritmos, samba reggae, samba duro, ijexá…Um batuque passou a fazer parte do meu cotidiano e frequentemente eu me pegava tentando eleger o instrumento mais foda de uma bateria. Descobri que não é o tamborim, primo pobre da percussão, mas terminei sem concluir qual era the best. O surdo, que é o coração da bateria? O imponente repique? A caixa, considerada a mais cabulosa de aprender? E o que dizer do xequerê, que faz samba com gotas de luxo tocadas numa cabaça? Impossível escolher um só…

Dos instrumentos pros ritmistas também foi puro aprendizado. Conheci pessoas muito legais mas, como não podia ser diferente, as mulheres foram as mais incríveis. A produtora do nosso bloco foi uma dessas jóias. No final do cortejo resumiram tudo o que ela fez pelo bloco: “O Volta Belchior estava uma bagunça quando comandada pelos homens. Aí eu resolvi trazer a Amada, uma mulher, negra e periférica pra coordenar o bloco e ela pôs tudo no lugar”.

Dos cinco meses de preparativos ao grande dia foi adrenalina pura. O Volta Belchior chegou chegando já no sábado de carnaval. Mas é também no sábado o Então Brilha. Impossível perder esse que é o bloco mais amado do meu coração. É o Brilha que coloca uma escola de samba dentro do meu peito quando vem todo pimpão nascendo na avenida nos primeiros raios de sol do sábado de carnaval. Então, fomos meter o lôko no Brilha e valeu cada duas horas que estive por lá. No mar de gente foliã encostei ao lado de um vendedor de sacos de gelo. O cara via todo o espetáculo do alto, estrategicamente posicionado sobre os sacos. Pedi humildemente que ele me deixasse ter aquele gostinho de camarote vip. Ele não só autorizou como me deixou reinar plena no camarote do Brilha. Vi como mais nenhum folião mortal o Di Souza, Kadu dos Anjos, Djonga, a bateria reluzente rosa e dourada…Pronto, venci na vida!

Dos raios de sol toquei pro rapaz latino-americano sem dinheiro no banco e aí foi só deleite. Indescritível você estar no meio de amigos, tocando e cantando Belchior. Lindo ver as pessoas fantasiadas, acompanhando a bateria…incrível a tiazinha com um regador, na sacada de casa, refrescando os percussionistas pingando de suor. Mágico ter um sonho modesto de tocar num bloco de carnaval e ele se materializar no meio de um cortejo.

Como cantou lindamente Belchior, tive a certeza que depois de ter sangrado pra cachorro ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!

De lama e de luta

O carnaval de BH é pra cair na lama, mas também na luta. São muitos as bandeiras bacanas levantadas pelos blocos. Mas vou citar só cinco delas, que merecem registro e aplausos:

  • O Bloco Bruta Flor saiu na frente e já mostrou a que veio. Desfilou no último domingo de janeiro, falando de feminismo, sororidade e empoderamento.
  • O Então Brilha, que desfila nas imediações da Guaicurus, região onde trabalham prostitutas, vai ter uma ala só para essas profissionais. Mais do que merecido dar visibilidade a essas trabalhadoras tão excluídas, afinal, como diz o poema do russo Maiakóvski, que inspira o bloco, “gente é pra brilhar” .
  •  O Alô Abacaxi também dará visibilidade a outro grupo marginalizado, os  LGBTIQA. Por isso, escolheu como local de cortejo, o Barro Preto, nos arredores da Praça Raul Soares, por considerar a região como símbolo de ocupação e de resistência da classe. Na página, está explicado que os abacaxis querem mostrar que se trata de um”cenário de ocupação da cidade, não só como ponto de lazer”, mas, principalmente, problematizar “as questões sociais envolvidas, como a prostituição, o tráfico de drogas, a violência urbana, a resistência das minorias frente ao preconceito, ao julgamento da sociedade, à discriminação”.
  • O Todo Mundo Cabe no Mundo já nasceu de luta. Desde o início tem o propósito de ser inclusivo, abrindo os braços para a diversidade e acolhendo os cadeirantes, os portadores de síndrome e de necessidades especiais. Bola super dentro, porque outros blocos seguiram o exemplo e também já colocam alas inclusivas em seus cortejos, como contou direitinho a Patrícia Cassesse nesta matéria.
  • E cabe também luta pro carnaval sair do miolo. Um dos que puxou o bloco pra descentralização da folia foi o Du Pente, que organizou, contagiou e vai fazer acontecer o carnaval do Barreiro. U-hu!

 

bruta flor