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Sangrando

Existe uma máxima que diz, “escrever é fácil, é só sentar diante do papel e deixar sangrar a testa”.  Não é assim tão dramático, mas também não é muito diferente. E digo com conhecimento de causa. Depois de muitos anos longe do ofício raiz de um jornalista, que é escrever, voltei para a labuta.

Meu veículo é um jornalzinho semanal, os assuntos são amenos, minha editora é super compreensiva, minhas fontes são acessíveis, mas sexta-feira ao fim da manhã, faça chuva ou faça sol, ainda que eu conte com todas essas facilidades, os textos têm que sair, nem que seja a fórceps.

E tem dia que empaca. Você senta diante do computador confiante porque as pautas estão fresquinhas na cabeça, os textos desenhados mentalmente, as entrevistas renderam…não pode dar nada errado. Mas é nessa sexta-feira que você vai se enrolar. Lá na penúltima nota você não tem a menor ideia do que vai redigir e o dead line tá fugando no cangote. É desesperador, mas ao mesmo tempo é surpreendente. Como em um passe de mágica, aparece a inspiração, empurrada por aquela adrenalina de um cachorrão preto correndo atrás de você, como bem definiu o Henfil.

Diferentemente de minutos atrás, você desembola um texto bacana, algumas vezes até com uma sacada inspirada,  no melhor estilo, “dominado, tá tudo dominado”. Se eu que sou uma reles jornalista sinto essa realização ao fechar meu jornalzinho, imagino a sensação dos renomados e premiados repórteres, que ainda resistem aos trancos dessa profissão doida e doída, como escreveu meu marido e jornalista preferido.

Mas, modéstia às favas, tantos os pequeninos quanto os gigantes redatores têm a mesma epifania após o ponto final de um texto sofrido, quase uma dádiva em um mundo onde há tanta gente procurando a real vocação: eu nasci pra isso, pra juntar uma letrinha atrás da outra; não poderia fazer nada melhor em nenhuma outra profissão!

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