Arquivo da categoria: Letras

Lenu & Lila

Feliz de começar o ano terminando A amiga genial, de Elena Ferrante. Feliz é modo de dizer, estou muito contente por ter conhecido Lenu e Lila, mas na verdade essa dupla mexeu comigo. Há muito um livro não me arrebatava assim, me deixando de queixo caído no ponto final. Como assim, senhora Ferrante, encerrar o enredo, provocando no leitor esse dessossego, imaginando a cena a seguir?

Outro espanto: que escrita redonda! Não encontrei uma aresta, uma palavra fora do lugar, uma descrição nem a mais nem a menos. Não vi nenhum deslize, nem uma derrapada. Que prazer encontrar uma autora que põe uma palavra atrás da outra com tanta maestria!

Mas o grande pulo do gato da obra, para mim, é o deslocamento que ele provoca no leitor. Lenu e Lila são igualmente envolventes e, na minha percepção, vão se alternando no pódium da genialidade. Por identificação, me apeguei mais a Lenu, mas torcendo para que ela viesse a ter seus dias de Lila. Tudo em vão:  ela preferiu seguir seu destino, apenas inspirada pela ousadia da amiga.

A arretada, a ardida como a pimenta, a corajosa, durante quase a totalidade do livro, é Lila. E isso também é irresistível. Ponto pra Lila, vai pro trono de rainha. Porém, de repente, quando vai passar uma temporada diante do mar, surge a Lenu solar, nada lembrando a sorumbática estudante do caótico bairro napolitano. Sai Lila, sobe Lenu.

Voltando à vida normal, no entanto, ressurge a Lenu insegura, dependente do carinho da amiga decidida, passa-se a torcer pela Lila. Nesse vai-e-vem de alternâncias na preferência do leitor,  no final, prevalece o óbvio: são goiabada e queijo, as meninas se completam e são imbatíveis quando estão juntas, misturadas, inspirando uma a outra, mesmo que sejam tão diferentes.

Ainda fica aquela inveja enorme de se ter uma amiga genial para chamar de sua. Como uma amizade leal faz a vida pulsar diferente! Dá para idealizar um caminho assim, percorrido junto a uma amiga querida, daquelas com quem a gente se sente gigante, mesmo sendo uma formiguinha:

Tínhamos doze anos, mas caminhamos sem tempo pelas ruas fervilhantes do bairro, entre a poeira e as moscas que os velhos caminhões de passagem deixavam para trás, como duas velhinhas fazendo o balanço de suas vidas cheias de desilusão, bem apegadas uma à outra. Ninguém nos compreendia, só nós duas – pensávamos – nos entendíamos.

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No quadrado de Maura

Bom tirar a poeira do blog com alguém que chega despretensiosamente e te arrebata. Eu não conhecia nada desta contista, até que ela me veio pelas mãos da Célia Musilli. E foi a forma mais instigante de saber de Maura Lopes Cançado, não pela falta, mas pelo excesso. Não pelo foco, mas pelo enquadramento.

Foi assim que ela me foi apresentada: não se falou da  escritora Maura pelo mais raso: a sua doença mental, as suas internações, a biografia polêmica. Não se martelou o que faltou à poeta: bom senso, racionalidade, equilíbrio, mas sim do seu transbordamento, do que jorrava de suas palavras, enquanto era interna de hospícios.

E dessa forma, pelos títulos dilacerantes – “Hospício é Deus”, “Rosa Recuada”, “O sofredor do ver”, “No quadrado de Joana” – pelo jogo de palavras, pela escrita refinada, pelos temas universais, ficou o encantamento. Ficou a admiração por alguém que optou pela curva da pétala, mesmo que obrigada a seguir em linha reta:

“Como fazer pra explicar que está enquadrada num novo tempo? Não pode sequer dar meia volta. Precisa poupar-se, conservando a forma. Entretanto, precisa explicar o que só ela entende. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, num tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de um pétala.”

Maura