Arquivo da categoria: Música

Por mais beijos vira-latas

Não sabia o que falar com o Zeca Baleiro. Temia ficar mais sem graça que a top-model magrela na passarela. Aí olhei pro cd que eu havia acabado de comprar, com uma ilustra do músico caminhando com um cachorro. Bingo! Eu ia falar de cachorros, como não?

Ele me cumprimentou, eu falei algumas obviedades, que era fã, que tinha uma amiga que era do Maranhão e o conhecia e mandei, na lata: “Esse cachorro da capa do cd é seu?”. Ele falou que não, que a filha dele é que tinha um vira-lata, chamado Blink. Perguntou se eu tinha cachorro, se eu gostava e tal.

zeca baleiro 1

Depois perguntei do tempo em que ele morou em BH. Ele disse que adorou morar na Floresta e no Santa Tereza. Que um dia vai morar aqui de novo, pra ficar batendo perna e tomando umas cachaças no Mercado Central. Nesse momento, minha admiração de fã multiplicou por 10 vezes mais.

Um tempo depois, ainda passada de tanta emoção provocada por uma conversa de 10 minutos, minha admiração de fã multiplicou por 20 vezes mais, quando li a dedicatória na capa do cd: Fernanda, beijos vira-latas.

 

zeca baleiro 2

Um disco, um filho e o rio afora

Quando os Tribalistas surgiram, o Henrique acabava de chegar ao mundo. As primeiras mamadas, as noites em claro, as alegrias e as dores da maternidade foram todas embaladas pelas vozes de Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.

tribalistas

Velha infância foi a mais especial. Na volta ao trabalho,  peguei um post-it e uma caneta, escrevi a letra e colei na cabeceira do berço do filhote porque tinha certeza que aquela era a música nos faria ligados, mesmos nas horas distantes:

Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Quase 16 anos depois, com o meu bebê já adolescente, foi um deleite ouvir o álbum novamente, em um show vibrante e super produzido, mesclado com músicas do trabalho recente.

Um filminho passando na cabeça, sem ordem cronológica, vindo e voltando entre 2018 e 2002, misturando maternidade,  velha infância e diáspora, tudo ao mesmo tempo…

O trio super simpático com o público, a cenografia maravilhosa e Maria Monte com figurino de cair o queixo… Os músicos “da cozinha”, que poderiam estar na sala de estar – Pedro Baby, Pretinho da Serrinha e Dadi -, completando o espetáculo.

Com tanta coisa boa a gente faz tudo que seus mestres mandarem, inclusive levantar os braços sob a batuta de Carlinhos Brown e gritar ajayô. Pra minutos depois, se debulhar em lágrimas com Aliança, por que, né, ninguém que acaba de desfazer um casamento passa impune por esta música:

 

Aí a gente se recompõe, retoma o fôlego e canta a plenos pulmões:

Já sei namorar
Já sei chutar a bola
Agora só me falta ganhar
Não tenho juízo
Se você quer a vida em jogo
Eu quero é ser feliz

Para encerrar redondinho e você pensar como não amar esses Tribalistas, eles mandam a versão mineira de Amor, I love you:

Belô, I love you

Belô, I love you

Belô, I love you

Belô, I love you…u..u…

tribalistas 5

Suspiros, lágrimas e fim:

Na vida só resta seguir 
Um risco, um passo, um gesto rio afora

 

Salve, Silva!

Possivelmente você conheça muitas pessoas com o sobrenome Silva, tão comum no Brasil. Mas, do Silva, nome artístico de Lúcio Silva de Souza, pouca gente dá notícia. Por enquanto… porque ele vai estourar, com certeza. Esse capixaba tem menos de 30 anos, mas é cantor, compositor, produtor musical e multi-instrumentista.

silva

Além de tudo é ousado, porque se arvorou a cantar o repertório da Marisa Monte. E não só mandou muitíssimo bem, como fez arranjos maravilhosos para as canções. Sabe quando o discípulo fica em pé de igualdade com a mestre? Pois é! É o caso de Silva canta Marisa.

Mas Silva não só deu uma roupagem totalmente nova para o repertório da Marisa Monte, mesmo que não precisasse, como também compôs “Noturna“, com a cantora.

Pra mim bateu como brisa no rosto, porque vamos combinar que tem noites bem difíceis de atravessar…

Não há nada de novo na noite
Venha cá, não há nada a temer
Pode ser que o silêncio te escute
E no escuro você possa ver

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada, em nada
Deixar pra amanhã
Deixar pra depois
É bom se lembrar de respirar de novo, de novo

Não há nada de novo na noite
Venha cá, não há nada a temer
Pode ser que o silêncio te escute
E no escuro você possa ver

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada

Segundo comentou o artista no show de BH, ao apresentar pra Marisa os acordes que se transformariam em Noturna, ela disse que a música era algo”chiquérrimo”.

Definição perfeita: Silva é chiquérrimo!

silva bh

Dois compadres destes, bicho!

Difícil apontar o momento mais tocante do show de lançamento do DVD de 20 anos de carreira de Vander Lee. O material foi gravado em julho de 2016 e, um mês depois, o artista partiu.

Todos os que subiram ao palco, entre eles a ex-mulher, Regina Souza, os filhos, Lucas Rasta, Laura Catarina e Clara Catarina, Chico César e Zeca Baleiro, além da banda que o acompanhou no DVD, estavam emocionadíssimos e fizeram as melhores reverências ao Vandeco.

Mas os depoimentos de Maurício Tizumba foram um caso à parte. Imagina que privilégio… os caras eram compadres! Então, Tizumba contou da lindeza dessa amizade. Explicou a confusão em torno de uma das letras de Vander Lee, criticada por ter versos de frieza com as mulheres. O compadre explicou, “mas gente, ele fez a canção motivado por uma manequim de loja”.

vander lee e tizumba

Em cada história, dava pra entender perfeitamente o impacto da morte de Vandeco para o congadeiro, que disse que foi a partida que mais o tocou, a ponto de ele não conseguir assimilar essa fatalidade.

E não menos importante, Tizumba falou de ter apadrinhado a caçula de Vander Lee. Só quem é comadre e compadre de um amigo ou amiga querida sabe o elo que se forma dessa relação. Tizumba falou lindamente do batizado de Clara Catarina e do ritual escolhido pelos padrinhos e pais para a bênção. Contou que escolheram uma cerimônia com muito fogo pra Clara ser firme e aguerrida, com muito azeite, pra ela ter molejo e se desvincilhar das armadilhas da vida, e muita água, pra que a menina pudesse correr solta pela vida afora.  Pra arrematar, tocaram tambor e cantaram, padrinho e afilhada, inspiradíssimos, uma música de Vander Lee.

tizumba

Sentir a força dessa história de compadres foi um bálsamo. Salve, Tizumba! Salve, Vandeco!

 

 

Meus dias com Rita

Rita Lee é aquele tipo de artista que parece da família, pois está em todas as fases da vida da gente. Seus sucessos embalaram minhas primeiras paixões adolescentes (eu nem sinto meus pés no chão, olho e não vejo nada, eu só penso se você me quer…), as desilusões amorosas (desculpe, babe, eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória, minha glória), as fantasias românticas (que tal nós dois, numa banheira de espuma…), os barracos afetivos (desculpe o auê, eu não queria magoar você...) as crises existenciais (não adianta chamar, quando alguém está perdido, procurando se encontrar…) e por aí vai…

Talvez seja por isso que a autobiografia da roqueira tenha me balançado tanto, a ponto de nos últimos meses ter sido o único livro a me tirar  das redes sociais, em um 2017 em que me propus voltar às leituras não-virtuais e estava perdendo de lavada até então.

Rita escreve cronologicamente, às vezes puxando um ou outro fato fora do andar da carruagem, o que pra mim foi um jeito envolvente de preparar o terreno para a fase hard da sua carreira. Na infância e adolescência em São Paulo, Rita parece uma garota banal, filha de uma mãe carola e um pai metódico. Não dizem que os filhos vêm para confrontar os pais? Pois é. Dito e feito. Mesmo criada em uma prosaica família paulistana, Rita foi ao extremo, para o bem e para o mal.

Gosto de pensar que meu pai é um bom termômetro do alcance da música de Rita Lee. No livro ela conta que, no auge da carreira, o príncipe Charles foi a uma boate e pediu que a casa tocasse um de seus sucessos. Agradar a realeza é o máximo, mas o suprassumo mesmo é agradar meu pai, um fazendeiro dos rincões mineiros, sistemático,  que nunca deve ter se aproximado de uma guitarra e, ainda assim, era super fã do disco Saúde da Lee.

Toda essa popularidade entre os famosos e anônimos, no entanto, não aplacaram muitas angústias da roqueira. O livro é recheado de histórias divertidas, pitorescas, calientes dela e do marido Roberto, mas tudo isso intercalado com as nuvens pesadas da relação com os meninos Mutantes, a imprensa brasileira (ela se queixa de ter sido duramente criticada ao longo da carreira) e a dependência das drogas e do álcool.

Ser vida lôka e estar por um fio no universo do rock é um filme repetido entre as estrelas do show bisness, mas quando é com a Rita Lee, pôxa, dá uma super vontade de pegar no colo e dizer, “miga, pára com isso”. É dilacerante ver a sucessão de interna-desinterna-interna-desinterna da roqueira, buscando se livrar dos entorpecentes.

Mas aí vem a neta e a vovozinha do rock consegue parar a montanha-russa que quase a derruba. Fofa.

Não podia ser diferente. Já pensou que vida irritante sem a Rita?

rita lee

Meu coração, não sei por que, bate feliz, quanto te vê…

Sem querer fazer intriga, mas já fazendo, em São Paulo, Marisa Monte e Paulinho da Viola tocaram pouco mais de uma hora. Em BH, foi quase o dobro. Paulinho, um poço de timidez, estava perto de soltinho, até sorrindo ao narrar histórias pitorescas de sambistas da Portela.
Marisa Monte, aquela artista perfeita: a gente procura, procura e procura um defeito, mas sem sucesso! Com figurino dama de vermelho, cachos cada vez mais lindos, performática, delicada com a plateia, arrebatou o público quando cantou Carinhoso e logo depois propôs um bis de Pixinguinha, que compôs essa “música que faz a gente sentir tanto orgulho do Brasil”.
Quando você pensa que tá tudo redondinho, vem outras surpresas, como Carnavália, dos Tribalistas (sorry, eu curto), essa ode à festa mais bonita do país: Sinto a batucada se aproximar/Estou ensaiado para te tocar/Repique tocou, o surdo escutou/E o meu corasamborim/Cuíca gemeu/Será que era eu/Quando ela passou por mim…
Pra fechar com chave de ouro, um #ForaTemer bem ao estilo de mineiro, que gosta de falar sem dizer. Sugerida pelo sambista de cabelos brancos, Marisa e Paulinho cantaram Comida: A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte/
A gente não quer só comida/A gente quer saída para qualquer parte.
Enfim, melhor do que a encomenda.
Obrigada, universo!
marisa.png

Todos os Caetanos do mundo

Primeiramente, devo confessar que sempre fui mais Chico do que Caetano. Até que ontem descobri que não sou tão convicta assim, pois fiquei completamente balançada pela filho da Dona Canô, no show Cobra Coral Canta Caetano. E, de quebra, também virei fã número 1 do quarteto mineiro, no melhor estilo, “nunca te vi, sempre te amei”. Flávio Henrique, Mariana Nunes, Kadu Vianna e Pedro Morais selecionaram preciosidades da obra do Caetano Veloso e fizeram um show marcante!

Sabe quando você já cantou uma música de cor e salteado, dezenas de vezes, mas só de repente se dá conta da beleza dos versos? Isso me arrebatou nos primeiros minutos. Achei de uma beleza tão triste esta queixa…”Um amor assim violento/ Quando torna-se mágoa/É o avesso de um sentimento/Oceano sem água”.

caetano-veloso

Mas logo em seguida me reanimei com a verde-e-rosa e a Bahia, a estação primeira do Brasil: “Isso é a confirmação de que a Mangueira/É onde o Rio é mais baiano”.

Na voz de Mariana Nunes, impossível não pensar que Caetano é baianeiro e seu Trem das Cores são todas as maria-fumaças serpenteando Minas Gerais: “As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar/Os dois lados da janela/E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há/Azul que é pura memória de algum lugar”.

E teve os músicos, seus arranjos fantásticos e suas vozes lindas pra lavar a alma da plateia em Podres Poderes: “Será que nunca faremos senão confirmar/A incompetência da América católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos/Será, será, que será?

Pra lavar a alma e também nos fazer lembrar dos versos mais lindos compostos debaixo dos caracóis daqueles cabelos: “Eu vi a mulher preparando outra pessoa/O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga/A vida é amiga da arte/É a parte que o sol me ensinou/
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou”.

E vieram mais e mais versos, mais arranjos, mais releituras, todas delicadamente escolhidas e ensaiadas, inclusive uma ou duas composições do lado B do Caê.

Mas o que arrebatou mesmo foram as clássicas, os grandes sucessos, as composições icônicas e poderosas como uma Tigresa, cantada no improviso por Mariana Nunes: “Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar/Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar/Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão/E a tigresa possa mais do que o leão”.

cobra coral

Que prazer em dose dupla! Obrigada, Caetano, por me fazer descobrir o Cobra Coral! Obrigada Cobra Coral, por me fazer (re)descobrir o Caetano!

Elis lado B

Pimentinha penso que é um bom resumo da Elis Regina da cinebiografia de Hugo Prata. Na telona, a Elis é pimenta, mas menos picante do que nas páginas do livro Nada será como antes. O filme mostra uma cantora mais parecida com a mulher brasileira, o que cria uma grande identificação. A Elis afetada, histérica, deslumbrada, ficou nos bastidores. Tem, naturalmente, a Elis corajosa, irônica, competitiva, mas salta aos olhos a  mãe de primeira viagem, insegura, angustiada com o show business, doce e generosa com os músicos iniciantes.

Junto a isso tem a interpretação de Andréia Horta, que não só me fez acreditar que estava a seis graus de separação da Elis reencarnada, como também que, em determinados trejeitos, Maria Rita, a caçula da artista, entrava em cena. O sorriso, os braços girando no palco, o cabelo curtinho, o olhar. Incrivelmente convincente!

E, claro, a trilha sonora. Que história não fica encantadora embalada por Arrastão, Como nossos pais, O bêbado e o equilibrista, Fascinação? O enredo só fica mais bonito porque a cinebiografia mostra a amizade sincera da cantora com Lennie Dale, coreógrafo e bailarino norte-americano. Ser a maior cantora do Brasil e ter um amigo gay pra te ensinar a rodopiar no palco e na vida é muita sorte. Sorte que só brinda os iluminados!

 

 

 

A música vai à academia

Coluna originalmente escrita para o site http://indicai.mus.br/.

A força da música é tão potente que a faz transcender, chegando a universos como o da academia ou da literatura. Não raro, algum pesquisador se encanta por um artista da Música Popular Brasileira e se propõe a defender teses ou dissertações sobre sua obra. Quando o resultado é muito impactante, os estudos até viram livros, permitindo que pessoas comuns mergulhem no processo de criação dos músicos que foram os objetos de pesquisa.

Chico Buarque, com certeza, é um dos compositores brasileiros que mais transita pelas bancas de doutorado ou mestrado. Ele é um dos músicos do país que mais motiva estudos acadêmicos, pela riqueza de sua obra: mais de 50 anos de carreira, mais de 300 canções, e composições gravadas em mais de 40 álbuns. As canções que abordam as personagens femininas são o principal enfoque dos pesquisadores que o estudam, mas também há acadêmicos que abordam suas composições com enfoque político e até quem descubra “as geografias” presentes na obra do artista. Carolina Pereira, por exemplo, foi por esse caminho.

Em seu doutorado pela USP, a pesquisadora investigou lugares que ficaram marcados na obra de Chico Buarque. O estudo analisa, por exemplo, a canção “Estação derradeira”, composta em 1987 para o álbum Francisco, que exalta o Rio de Janeiro: Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/Cada ribanceira é uma nação. Aborda, também, outros temas ligados ao universo geográfico e que foram cantados por Chico, como a cidade vista a partir do olhar urbano, em “As vitrines” (Álbum Almanaque, 1982): Eu te vejo sumir por aí/ Te avisei que a cidade era um vão/ Dá tua mão/ Olha pra mim/ Não vai lá não. O trabalho também cita a migração e a formação plural do povo brasileiro, por meio da letra “Paratodos”, do álbum de mesmo nome, lançado em 1993: O meu pai era paulista/Meu avô, pernambucano/O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano.

Mesmo com a supremacia de Chico Buarque, a academia se rende também a autores como Paulinho da Viola. Elite Eça Negreiros, que também é cantora e pesquisadora de Música Popular Brasileira, escolheu o sambista para seu objeto de pesquisa, tanto no mestrado quanto no doutorado, pela USP. Sua tese, agora, foi adaptada e se transformou no livro “Paulinho da Viola e o Elogio do Amor” (Editora Ateliê, 148 págs).

Para a pesquisadora, ao investigar as canções do sambista foi possível identificar algumas modalidades da representação do amor. Em “Foi um rio que passou em minha vida” (1970), um dos sambas mais conhecidos do compositor, Negreiros destaca a paixão do amante que, mesmo diante da dor gerada pelas desilusões afetivas, continua se apaixonando e buscando no próprio amor a cura para os seus males: Meu coração tem mania de amor/ Amor não é fácil de achar/ As marcas dos meus desenganos ficou, ficou/ Só o amor pode apagar.

E para as compositoras da MPB, há espaço na academia? Repetindo a desigualdade de gênero, os estudos enfocando as mulheres que compõem são em número mais reduzido, ou não são tão badalados. É possível encontrar pesquisas sobre Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Dolores Duran (1930-1959) e Maysa (1936-1977). Das compositoras contemporâneas, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são algumas das pesquisadas.
Mas, inspiração não falta. As letras da MPB são riquíssimas e é possível se debruçar sobre a obra de vários artistas. E, no fim das contas, uma canção que nos arrebata pode mudar tudo, como bem escreveu Chico Buarque, em 1980: Qualquer canção de amor/ É uma canção de amor/ Não faz brotar amor/ E amantes/ Porém, se essa canção nos toca o coração/ O amor brota melhor/ E antes.

Deixa eu chorar até cansar

Estou há dois dias atônita, sentindo uma melancolia tão grande e sem saber por que a morte do Vander Lee me abateu dessa forma. Talvez a explicação seja que eu descobri um grande artista, mas tarde demais.

Quanto mais eu tento conectar minhas ideias e baixar a bola, mais eu me vejo enredada na história do músico. São muitos os fãs que estão chocados com essa partida abrupta e toda a repercussão da morte destaca o quanto foi precoce e o quanto ele ainda poderia deixar para a música mineira. Mas, penso que para os belo-horizontinos, a morte pega mais forte. Existe uma ilusão de que a gente era muito próximo do “Vandeco”, pelo simples fato de morar na mesma cidade e essa cidade ser um ovo.

Pensando bem, não é uma ilusão, tem um fundo de verdade nisso. Eu mesma já o encontrei tomando um prosaico café com pão de queijo na Boca do Forno. Nada mais familiar do que isso, todo belo-horizontino já provou um café com pão de queijo na Boca do Forno, ora bolas! Certa vez, ele foi dar entrevista na emissora de TV na qual eu trabalhava e passou pelos setores, até parar na porta da minha sala. Como ali era a memória da TV, ele foi convidado a entrar e eu me vi de cara com ele, não como no café, eu fiquei frente a frente. Mas, como eu já o tinha visto no prosaico lanche, em todo movimento cultural bacana de BH, brilhando na voz de Elza Soares, Gal Costa e Leila Pinheiro, eu já me considerava íntima dele. E foi com toda essa falsa certeza que eu disse que o adorava e cantei um pedacinho de uma das suas músicas que eu mais gostava: “Meu amor, deixa eu chorar até cansar, me leve pra qualquer lugar, onde Deus possa me ouvir”. Ele sorriu e deve ter me achado meio destrambelhada, mas foi gentil e fez uma menção de que eu mandava bem na cantoria, ou seja, ele foi muito gentil, porque eu devo ter cantado mal pra danar.

Quando li da morte, eu pensei que fosse um hoax. Que em poucos minutos alguém ia dizer que era um boato. Mas, ninguém desmentiu. Uma conhecida da área cultural publicou que ele havia morrido e aí caiu a ficha de que era pra valer. Imediatamente me veio essa cena da visita dele à TV. Em seguida, pipocaram depoimentos de amigos, conhecidos e de outros músicos sobre a grandeza do Vander Lee. O Samuel Rosa disse que ele era um artista que fazia uma música mineira genuína, original, que não tinha traço do Clube da Esquina ou do pop rock, tinha o jeito Vander Lee de ser. A Elza Soares o chamou de afilhado querido e falou da porrada que foi receber a notícia de sua morte.

Mas, as histórias que tocam são aquelas mais singelas. Um amigo disse que ele estava passando por um momento delicado, depois de uma separação. Outro amigo contou que ele programava criar um samba dominical pra dar fim à pasmaceira desse dia na capital mineira. Uma amiga me escreveu que ele era uma pessoa boníssima, de um coração enorme. E a cereja do bolo foi ouvir uma música que a Bárbara Barcellos, uma jovem belo-horizontina, super talentosa, havia gravado com ele, uma noite antes de sua morte.

Então, fui montando um mosaico  Vander Lee, de lembranças minhas, de histórias dos amigos, de depoimentos dos grandes músicos, do desenho do cartunista, das letras que foram saltando na minha timeline. Como não admirar alguém que escreve:

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores

Somado a isso, fui formando minha playlist Vandeco, e encaixando as letras inspiradas de sua carreira a passagens da minha vida. Puxa, eu sou Cruzeiro, meu marido é Galo. É claro que me identico quando ele canta:

Ela finge que não, mas no seu coração
Ainda sou artilheiro
Só faz isso porque, meu irmão
Eu sou Galo e ela é Cruzeiro

Eu também me considero do clube Vander Lee, de últimos românticos, que são poucos, pirados e acham que o outro é o paraíso. E me vejo cada vez mais enredada, tomada de uma tristeza, como se ele fosse, de fato, um amigo querido.

Mas, agora só pista vazia.

vandeco