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Jovem é outro papo!

Fim-de-semana de festa e vieram sete colegas do filhote, esparramando testosterona por cada metro quadrado da casa. São jovens adoráveis e na mesma medida, intragáveis. São puro êxtase… e velozes e furiosos.

De saída, têm uma urgência de correr contra o relógio, da qual não compreendo a razão – tolinhos, não percebem que o tempo está  todo a favor deles. Trocam uma boa noite de sono que os adultos tanto prezam para virarem uma noite em comemoração. Assumiram o fogão, o que achei louvável, mas deixaram o arroz queimar, entretidos sabe-se lá com o que. Se tem uma coisa da qual a maioria dos adultos não se distrai é comida, mas para eles, parar 15 minutos para cozinhar e outros 15 para saborear o prato é um desperdício.

Já das bebidas, foram fiéis escudeiros. A geladeirinha vermelha foi cuidadosamente esvaziada de bebidas alcoólicas pelos donos da casa, mas as cervejas apareceram e foram muitos litrões, pois tudo é em superlativo. O contrabando para que as “skóis” chegassem ao refrigerador possivelmente foi articulado em dezenas de mensagens de whatsapp. Quando descobertas, ninguém assumiu a responsabilidade, em um corporativismo de dar inveja.

A vela do bolo nem sequer foi acesa e o canto de parabéns deve ter passado longe, afinal, é um tremendo mico essa coisa de torta-doce-fofinha-bonitinha-em-guardanapinho que as mães tanto consideram.

Nas poucas horas que dormiram, foram todos embolados, subvertendo a divisão de camas pré-estabelecida. Travesseiros e cobertas, também desprezaram. Um deles, talvez atordoado com a noite em claro, ignorou a roupa de cama limpinha, deitou e puxou um tecido que estava ao alcance das mãos – dormiu feliz, enrolado em uma cortina fora dos trilhos, com agenda marcada para a lavanderia.

No dia seguinte, na resenha do café da manhã, a mãe implora por uma foto do aniversariante com os convidados. Mas ninguém localiza o protagonista da festa. Depois de muitos apelos de “Cotote! Cadê você, Cotote?”. Eis que surge o aniversariante ajeitando as calças e explicando docemente o motivo do sumiço: “Espera, caralho, tava cagando!”

quinze anos

Grazie di tutto

Dia 2: Veneza

Já não escrevo de Veneza, mas apaixonei pela città. Agora que tenho um segundo parâmetro, minha impressão é de que pela Sereníssima é paixão à primeira vista e Florença é pra se conquistar sem tanto arroubo.

Veneza é assim, envolvente de cara. Nada me chateou, me aborreceu ou foi menos interessante do que eu podia supor. No Mercado do Peixe, tive a sensação que um nonno foi ríspido comigo, deduzi que ele queria passar e eu estava euforicamente fotogrando todos os temperos para os carbonaras que farei na volta. Ele bradou e eu fiz cara de paisagem, cara de Ponte Rialto, e toquei o bonde, ou a gôndola, pra ficar no espírito veneziano.

 

Como não falamos niente de italiano não me aperto e saco meu livrinho básico para viagem, ou jogo no aplicativo tradutor. Mas, não fosse isso, a gente não ia passar sufoco algum. Diferentemente de Paris, todos os venezianos se esforçaram para nos compreender. De minha parte, também saquei que basta dizer :Prego! É uma palavra curinga, prego pra agradecer, pra despedir, pra agradar, pra concordar, pra tudo que você quiser.

Embora seja uma cidade apinhada de turistas, o que até nos fez sair do miolo pra almoçar, Veneza não é boêmia. Tentamos sentar num bar e experimentar o spritz, um drinque típico daqui, e o estabelecimento nos recusou porque estava fechando as portas, as 8 horas da noite!!

Encontramos outro, mas na volta pro hotel, a cidade já estava adormecida. Fizemos um segundo tempo dentro do quarto mesmo, com vinho, queijos, pesto e tiramissu, que compramos ao longo do dia.161104_015327_collage-1

Foi um par de dias apenas em Veneza, mas delicioso: prego!!

O professor Domingos

A morte do ator Domingos Montagner, afogado no Rio São Francisco, abalou todos nós. Como fã que era, li as muitas reportagens que foram publicadas sobre a trajetória dele porque intuía que ele era um ator diferenciado, especialmente por ter começado a atuar pelo circo. Lá no pé de página de uma das matérias, porém, descobri o real motivo de ele ser tão especial: antes de galã da novela, ator de teatro e artista circense, Domingos Montagner foi professor.

Formado em Educação Física, deu aula por dez anos em São Paulo, sua cidade natal. Talvez essa passagem da vida dele seja menos relevante para a maioria dos fãs e para a grande mídia, que reportou seus anos pelo Magistério superficialmente. Mas para quem é professor isso pode ser estimulante. Mesmo com o pouco que a imprensa divulgou sobre seu lado educador físico, dá juntar uma menção aqui, outra acolá, destacar um ou outro trecho de uma entrevista e compor o perfil do Montagner professor: um profissional dedicado e que valorizava o Magistério.

Dá para perceber que ele tinha orgulho de ter começado sua vida profissional nas quadras esportivas de uma escola. Também deixou transparecer que era um professor empenhado em trazer inventividade para as aulas de Educação Física, tanto que foi para aprimorá-las que enveredou pela arte circense. A educação saiu dele, mas ele nunca saiu da educação é a impressão que o ator passava ao rememorar sua época de professor.

Mas nada como ouvir um aluno para se conhecer um educador. Em um depoimento emocionado, a jornalista Manuela Aquino, que foi sua aluna 25 anos atrás, conta que ele formava, com um professor de música, “uma dupla maravilhosa de mestres cheios de ideias inovadoras”.

Continuando, a jornalista recorda: “Domingos nos acompanhou nos melhores momentos daquela rotina das sete ao meio dia. Ampliou nossas experiências para além da sala de aula e foi com a gente aos melhores passeios (minha primeira vez no Parque do Ibirapuera. A gente jogou basquete e subiu em árvores) e excursões (as cachoeiras de Paranabiacaba e ele se pendurando no cipó). Quebrou o protocolo escolar quando deu dança afro e inovou ao ligar o som no último para uma aula de lambada (…). Seu sorriso enorme e branco acompanhou nossas melhores gargalhadas”.

Ao encerrar o depoimento, a jornalista afirma que se tivesse a chance de reencontrá-lo diria: “Fui sua aluna, você se lembra? Foi inesquecível aquela época na Pacaembu. Você tem noção de como foi um professor incrível e que todos seus alunos se lembram de você com carinho?”.

Não tem legado maior para um professor do que ser lembrado com carinho por seus alunos. Que Domingos Montagner seja inspiração para todos nós, em nossa aventura diária de educar!

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Foto: Jornal Extra/Globo

Menos talento na tv brasileira

Só na nossa família, Domingos Montagner tinha um fã-clube, eu, Alexandra Castro, minha irmã, e mãe, bela, recatada e do lar, que um dia comentou: “ele é tão bonito!”. Tanta admiração a fez ir ao cinema, assistir ao filme dele, “De onde te vejo”. Eu também corri pro cinema pra assisti-lo nessa deliciosa comédia romântica. Mas, arrebatamento mesmo foi na novela Sete Vidas. Voltei a ligar a TV só pra acompanhá-lo na trama de Lícia Manzo, como o enigmático Miguel.
Lamento pela ironia do destino, por ter sido tragado pelo velho Chico, numa situação tão próxima do papel que representava na novela. Lamento também pela família, pelos filhos, pelos anos ainda em que poderia levar um fôlego novo pra tv brasileira. Formado nos picadeiros, ele tinha essa simplicidade e esse fascínio dos artistas circenses. Sim, ele teve que se enquadrar à caretice da teledramaturgia brasileira, mas penso que tentava imprimir uma originalidade aos seus papéis. Pra mim, era um dos grandes nomes entre os atores maduros da atualidade.

Menos beleza, menos talento e menos autenticidade na telinha brasileira, )-;

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Julieta: de longe e de perto

É mágica a sensação de terminar de assistir a um filme e pensar: “Por que demorei tanto pra conhecer essa história?”. Imagino que para o cineasta, o condutor da história, seja igualmente mágico: que não exista prenda maior do que ter enredado o espectador. Digo isso porque foi assim com Julieta, de Pedro Almodóvar. Soube do filme durante sua realização, acompanhei de perto seu lançamento, mas quando Julieta chegou aos cinemas pra valer, marquei passo e demorei a encontrá-la efetivamente.

Mas, um golpe, literalmente, me fez correr pra sala de cinema: me deixei levar pela trama horas depois da manobra que tirou a presidenta Dilma do poder. Isso me deixa desconcertada: não sei precisar se a ficção foi realmente fascinante ou se era minha realidade por demais desoladora …

Um filme que trata da relação de mãe e filha é, logo de saída, intrigante. Minutos antes de partir pra sala escura, comentei com meu psi, cinéfilo inveterado, que estava a caminho do cinema de Almodóvar. Ele me deixou com a pulga atrás da orelha, dizendo que a fita não agradava a todas as mães e filhas. Pra mim agradou, em cheio!

Penso que um filme te pega, geralmente, por dois ângulos: o foco e o fundo. Julieta vista em plano geral é Almodóvar em estado bruto: o vermelho do vestido, as personagens deliciosamente exageradas, o papel de parede sufocante do cenário, a música dramática, as cerejas do bolo irritantemente viçosas, o espanhol sensualmente ganhando seus ouvidos e toda a latinidade te invadindo: às vezes muito familiar, outras horas completamente enigmática.

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Mas Julieta em close, de perto, é aquele tapa na cara, aquele sacolejo, aquele balancê das ideias: é a vida tortuosa, te tirando dos trilhos, te fazendo perder o prumo. É o destino que vem e te arranca todas as certezas. É o tempo te engolindo e te exigindo paciência e consternação. É a vontade de pegar a mãe no colo e, ao mesmo tempo, ficar tempos sem vê-la. É o desejo de morar sozinha, mas de ligar pra mãe no primeiro apuro da vida solo.

Julieta, nas lentes do microscópio, é o amor romântico, mas falho. É morar de frente pro mar, mas ser só dona de casa. É morar na cidade e ter saudades do mar. É essa inquietação, esse não-lugar. Esse grande dilema humano. “É um não contentar-se de contente”. Está tudo lá, na trama de Almodóvar, pro bem e pro mal!

Livros: melhores pessoas!

Realizando uma pesquisa sobre livros didáticos e paradidáticos, estou impressionada com o potencial que essas obras podem realizar na vida não só do aluno, como também do professor. Naturalmente, nem tudo funciona a contento com os programas do governo federal que fazem chegar às escolas públicas esses materiais: os livros didáticos, por meio do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), e os recursos paralelos, normalmente obras literárias, via Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Ainda assim, mesmo quando não se pode valer dos livros gratuitos do governo, há muitas opções não só para o aperfeiçoamento profissional do professor como também para desenvolvimento do aluno.

O professor que anda desmotivado com a rotina escolar e precisa incrementar sua prática pedagógica pode lançar mão de variadas obras infanto-juvenis para em suas aulas. Há diversas pesquisas de docentes, disponíveis na rede, relatando suas experiências com textos literários e elas não se resumem aos romances: há trabalhos com contos, crônicas, poesias, obras clássicas e populares. Se a biblioteca da sua escola está desfalcada, não desanime: há obras digitalizadas pelo Ministério da Educação ou documentários comentando grandes nomes da literatura brasileira, na TV Escola.

Se os livros estão em dia, mas falta inspiração para um projeto bacana, recorra ao Portal do Professor há um banco de aulas detalhadamente explicadas, com sugestões de atividades para os diferentes segmentos de ensino. Os trabalhos interdisciplinares também envolvem os alunos e renovam o ânimo tanto do professor quanto das turmas. Aproxime-se de um colega e pensem juntos como usar um livro literário para tratar de Matemática, Geográfica ou Ciências. Da mesma forma é possível realizar um projeto, baseado em um texto literário, que motive a discussão de temas transversais como Ética ou Pluralidade cultural: o desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos com essas aulas pode ser surpreendente!

Também não deixe de acompanhar as novidades que as grandes editoras publicam em suas redes sociais. Elas divulgam os lançamentos de obras, datas comemorativas que podem ser debatidas em sala de aula, sugerem atividades pedagógicas e trazem os autores dos livros didáticos apresentando abordagens diferenciadas dos conteúdos.

Por fim, se nada disso lhe parecer interessante, vá você mesmo atrás de um bom livro, já que a virtude do exemplo é a melhor estratégia para fazer dos seus alunos leitores, e a literatura é a companheira mais fiel, de acordo com o escritor português, Valter Hugo Mãe: “com o tempo, as pessoas que mais nos acompanham na vida talvez sejam livros. No meu caso, as pessoas que mais demoram na minha vida são mesmo feitas de papel”.

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Janis Joplin: pequenina e gigante

Assistir a Janis Joplin na sala escura, na telona, é conhecer os dilemas da cantora em alta voltagem. O documentário é linear, apresenta a trajetória da artista desde antes da fama até o desfecho trágico, embora anunciado.

Apesar de a fita se desenrolar em ordem cronológica, eu, espectadora, fiquei os cento e vinte minutos alimentando a ilusão de que sua história pudesse dar uma reviravolta e Janis Joplin optasse por voltar no tempo e não sucumbir à última viagem ao mundo das drogas, a que a levou pra eternidade.

Não raro, fazemos essa torcida inútil pelos grandes artistas. Assistimos atônitos à partida de grandes nomes como Amy Whinehouse, estrela internacional, e também dos brazucas, Elis Regina, Cazuza e Cássia Eller.

Todos eles, assim como Janis Joplin, com um grande dilema diante da fama. O paradoxo de ter milhares de fãs como seguidores e a solidão de voltar pra casa sozinho.

Todos pagando um alto preço por não se enquadrarem nos padrões: gigantes nos palcos e pequeninos entre quatro paredes. Artistas vagando no labirinto da Alice no País da Solidão.

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Me devolva o ar!

Nenhuma doença é agradável, mas algumas se superam nos incômodos e no desafio de cura que impõem à medicina. Fui “premiada” com um desses males, a asma, uma doença que é tão irritavelmente desconfortável que é chamada de “bronquite”. Nada mais do que um eufemismo pra mascarar a face dessa senhora doença maquiavélica.

O que mais me intriga é o nível de astúcia da senhora asma. Na minha infância sofri com crises recorrentes de chieira no peito, tosse e falta de ar. Na minha adolescência passei pelo mesmo dissabor, assim como na juventude. Xaropes, simpatias, garrafadas, vacinas, testes de alergia e bombinhas em profusão, cheguei à vida adulta e finalmente passei um longo período sem me lembrar daquela doninha indesejável. Mas, doce ilusão: esse ano ela veio me visitar, e com todos os requintes de uma hóspede que chega sem ser convidada: tomou meu corpo numa madrugada fria, depois de duas garrafas de vinho bebidas, entre outros motivos, para esquentar os pulmões – que ironia !

Imagina a tensão de acordar com o peito chiando como um balaio de gatos, a respiração curta, o coração disparado e a sensação de não encontrar o ar. Agora imagina o nível de adrenalina quando, além da tensão, você descobre que não tem uma bombinha a tiracolo. Toca acordar o marido de madrugada, pedindo encarecidamente que te leve a uma farmácia e encontre uma espécie de detefon pra dar fim àquela visita indesejável.

No trajeto de meia-hora até a drogaria, acredito que tive pequenas mortes, com a senhora asma me acenando que não é de brincadeira. Bombinha colocada apressadamente na boca, spray acionado e o Clenil descendo redondo, como o primeiro copo de uma cerveja gelada ou uma taça de champanhe borbulhante. Minutos depois, a gritaria do peito cessa, o ar vai retomando seu ritmo normal, o coração desacelera e dentro dos pulmões parece que nada diferente aconteceu.

Mas, não há mais ilusão: a senhora asma é falsiane e como traiçoeira que é, vai voltar, quando você menos imaginar…

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Eu quero é botar meu bloco na rua!

Dizem que o melhor da festa é esperar por ela. Acreditando nessa máxima, estou me esbaldando no pré-carnaval de BH e rindo de pensar naquela piadinha infame, se o carná de Belóres está bom assim enquanto está verde, imagina semana que vem, quando amadurecer…

Infelizmente nem só de folia vive uma criatura, então curti três blocos até o momento, e as minhas primeiras impressões são que o Bloco Entao Brilha é tipo “coração de mãe”, agrega todas as personas. Lá você encontra os ritmistas profissionais, os amadores, os maloqueiros, os bêbados da Praça da Estação, as ripongas, os mauricinhos e os alternativos .Gosto do repertório, que tem o axé não glamourizado, pré-Cláudia Milk. A turma da coreografia é mara, você se sente tipo do corpo de baile da Timbalada, e ninguém tá nem aí se você erra o passinho.
Então, brilha: aprovado!
O Mamá na Vaca é aquele tipo de bloco “cria fama e deita na cama”. Onze entre dez amigos que curtem carnaval foram pras ruas do Santo Antônio acompanhar o desfile, mas…não me arrebatou. Talvez o espírito do bloco seja só de algazarra mesmo e ninguém me avisou. A bateria é muito zoada, parece que ninguém ensaiou. É bom pra farrear, ver gente bonita, se divertir com as fantasias e fazer reverência pra vaquinha da Rua Leopoldinha. Minha sugestão é parar algumas ruas antes e ficar no Santo Bando, que vi de passagem, é  menos concorrido, mas parece mais autêntico.
Mamá na vaca: deixou a desejar.
Por fim, o Bloco Bem te Viu, Bem te vê, que é do tipo “amor à primeira vista”. O som é ótimo, os músicos são profissionais, o quarteirão fechado da Rua Ceará é perfeito pra folia. Ninguém te empurra, nem pisa no seu pé, porque tem um espaço razoável pra dançar. Dá pra comprar bebida pela metade do preço cobrado no Mamá na Vaca…E a proposta do bloco é tão inusitada quanto irresistível. A banda toca os clássicos do Clube da Esquina em ritmo de carnaval. Você deve estar se perguntando se dá certo. Dá certíssimo! Ninguém fica parado ouvindo Bituca, Lô Borges e Beto Guedes ao som de samba. E tem mais: frevo e marchinhas de carnaval. Não conta pra ninguém, porque egoisticamente espero que somente meus amigos queridos descubram o bloco e não a multidão belo-horizontina que pode melar a festa.
Bem te viu, bem te vê: aprovado com louvor!
Agora, é esperar as próximas atrações do pré-carnaval. Já tenho meus blocos queridinhos da categoria “nunca te vi, sempre te amei”: Pena de Pavão de Krishna e Chama o Síndico.  U-hu!
bem te viu bem te ve

Nunca te vi, sempre te amei

Até a noite de quinta-feira  (5/11/2015), eu nem sabia da existência de Bento Rodrigues, um lugarejo de Mariana, nessas Minas Gerais, o Estado brasileiro com o maior número de municípios (853). Mas assim que as notícias do rompimento de duas barragens começaram a surgir, embora tenhamos “oitenta por cento de ferro nas almas”, como poetizou Drummond, não houve coração mineiro que não se desmanchasse.

Impossível para quem nasceu entre as montanhas não se identificar com os moradores do Bento. Todo mineiro já cruzou estrada de terra, comeu poeira, passou por mata-burro e chegou a uma igrejinha da padroeira no centro de algum rincão, onde “um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar… as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus”.

De uma hora para outra, aquele senhor de chapéu de palha, produtor de pimenta biquinho, virou alguém da família, assim como a doninha quitandeira. Tive a sensação de que fui amiga de infância daquele menino Marcos, que correu de telhado em telhado pelas casas do Bento, fugindo da lama que engolia seu pedaço de chão. E a roça do Adriano? A roça do Adriano foi levada, o caminhão do Zezé acabou, o que será do Seu Zé? “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…”

Mas meu pavor foi mesmo a escola. Quando o gigante que dormia nas águas profundas da mineradora despertou e partiu furioso montanha abaixo, meu temor era que ele alcançasse aquelas salas de aula, em uma tarde até então pacata. No entanto, havia anjos naquele lugarejo chamado Bento, não por acaso. O marido de Eliene correu para a escola e alertou a todos. “Ele chegou gritando que tínhamos que correr”, contou Eliene aos repórteres. Desesperada, ela reuniu as crianças, e em três minutos todas estavam a salvo!

Outros, porém, não tiveram a mesma sorte daqueles que foram blindados pela escola. Uma mulher correu léguas com a morte no seu calcanhar e, em determinado momento, perdeu a sobrinha pra força das águas.

Vejo um menino correndo desolado; diferentemente de Marcos, ele não subiu pros telhados do Bento. Voltou à lama e suplicou, em lágrimas: “Mãe, cadê minha mãe?!”

Pois agora dei de me imaginar numa vigília pelo lugarejo fantasmagórico. Em meu devaneio, pego a mão do menino e vamos numa busca infinita; percorrermos cada pedaço do Bento, que nunca pisei e nunca mais ninguém vai alcançar…

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Imagem: Patrícia Caetano

Fernanda Castro é mãe, mulher e menina. Pequenina e gigante. Mezzo educadora, mezzo comunicadora. Mestre em Educação, graduada em Jornalismo, pesquisa EaD, Comunicação, Tecnologias e Redes Sociais.