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Rioadentro

“Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; (…) Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente.(…) Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. (…) Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente”.

Riodentro  tira a gente do prumo. É como a água doce, tão fascinante e tão assustadora. É como a vida, às vezes serena, às vezes revolta. É o desejo de molhar só a ponta do pé ou se jogar sem medo. É planejar um curso e dar em uma quina de mar que a gente nem imaginava. Está tudo lá, nessa peça teatral que adapta o instigante conto de Guimarães Rosa.

Para narrar a história do pai que, de veneta, larga tudo pra trás e vai morar em uma canoinha no meio do rio, navega pelo palco do teatro, um Benjamim Guimarães abarrotado de mineiridade: as cumbucas e as cabaças, as fitas e o tambor do congado, a moda de viola, as flores de papel para o andor de Nossa Senhora, o chapéu de palha, as fitas no cabelo, a rosa tirana, o boiadeiro.

No pai, representado por Sitaram Custódio, toda a angústia de cada um de nós, tão particular e tão universal. A vontade de partir sem olhar pra trás, sem ter que explicar, o vazio, o ôco. O desejo de deixar o rio nos arrebatar, até viramos pó, ou lama, como no Rio Doce, que também é lembrado na peça.

Na figura da mãe, lindamente representada por Lira Ribas, a força da mulher do Jequitinhonha, do Brasil, do Haiti, da Síria, que embora não entenda os designos do destino, sabe que a vida é como o rio, tem que seguir seu curso.

Completam a cena, a filha do pai que foi embora, menina sem eira nem beira, sem voz, como se tivesse um pássaro entalado na garganta, e o filho, menino que nunca entendeu por que não conseguiu barrar o pai rumo ao rio. Nas interpretações tocantes de Rayni Campos e Carlos Caetano, transbordam emoções, inquietações, mistérios e calmarias. Tal e qual o rio: de onde queremos fugir e para onde queremos ir.