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As voltas que o mundo dá

Mais uma volta em torno do sol. Eu era louca pra escrever isso, porque é uma forma muito poética de despedir de um ano e começar tudo de novo.

Não posso dizer que minha última volta solar foi amena. Eu não dei, eu sofri uma volta, digamos assim. Bati cabeça, busquei um atalho, quis desistir, sofri rasteiras. Perdi o sono, perdi a fome, me perdi de mim, me perdi dos meus. Mas teve um momento que eu entendi que era hora de parar. Que eu não ia sair do lugar se eu não colocasse um pé atrás do outro e começasse a andar.

foto itacare

 

Nesse momento eu tomei um prumo e olha, a vida tava lá me acenando, com seus dias de mãe e de megera. Botei a cara no sol e reencontrei tanta sensação boa, redescobri amigos-irmãos, garimpei novas amigas. Revisitei lugares e conheci novos. Amei e desamei de novo. Vivi um ano em um trimestre.

Nesta inusitada volta ao sol descobri, também, o hino da minha jornada que começa hoje. Já contei pra muitos a poesia desta música, de um jovem compositor, o Tim Bernardes, gravada pelo Paulo Miklos. É isso, “eu vim pro mundo pra viver. Eu vou”.

Quem me acompanha?

Não vou mais aturar
Baixo astral na minha vida
Não vou mais carregar
O peso e a dor que não é minha
Vou correr na direção daquelas tantas
Coisas lindas que eu anseio
Quero andar ao lado de quem
Assim como eu enxerga o copo meio cheio
Eu vou, eu vou, eu vou, eu vou
Eu vim pro mundo pra viver
Eu vou, eu vou, eu vou, eu vou
Eu vim pro mundo pra viver
Vou experimentar
Viver mais livre, leve e solto
Eu vou comemorar
A vida, a morte, o tempo e o sonho
Vou em paz, tudo termina e recomeça
O tempo

#Partiunovaalegria

Mudar de casa para um canceriano não é uma tarefa tranquila. Não é escolher o novo endereço, encaixotar as coisas e contratar a empresa de mudança. Não é assim que funciona. Para os caranguejos, é um ritual de passagem e nem sempre sereno.

No meu caso, em que a mudança foi uma imposição e não um desejo, trocar de endereço tem sido, acima de tudo, muito doído. Quanto mais se aproxima o dia de fechar a porta e fechar um ciclo de vida, mais melancólica a mudança se torna.

Mas hoje, conversando com meus botões, alguma coisa me alentou: foram seis anos de uma casa muito festiva. A princípio, eu não queria esse apartamento porque achava que ele era demais para mim. Sabe a moradia dos sonhos? No início, antes de vir pra cá, tinha essa impressão, e no fim das contas eu não estava tão enganada. Ele não era pra mim mesmo, ainda assim, eu estive nele inteiramente, como se não houvesse o amanhã que chegou hoje.

A casa que começou sob o signo da desconfiança foi virando a casa da alegria. Teve, obviamente, os dias cinzentos, as contas pra pagar, as desavenças, a briga com o vizinho que destratou meu filho na primeira festa no salão do prédio… Mas esses dissabores foram fichinha perto dos bons momentos. Festeira que sou, fiz muitos cafés da tarde pra minha mãe e minhas irmãs. Recebi amigos de fora, lembram, Ju e Moniquinha? Comemorei aniversários, os meus, principalmente. Chamei os amigos para as comilanças e os vinhos. Teve festa pagã, mas também teve festa cristã. Rezamos alguns terços aqui nesta casa.

Foi aqui que o Henrique virou adolescente e, um dia, me dei conta de que ele já estava muito mais alto do que eu. Os amigos do filhote dormiram aqui diversas vezes, e era uma alegria quando a casa tinha uma horda de adolescentes…Foi aqui também que comecei a fase custosa de esperar a volta das festas de 15 anos, quando a casa virava uma imensidão sem fim.

Foi nessa casa que dependurei o quadro mais bonito e alegre na sala de visitas, arte do meu primo Fernando. Eu me enchia de energia a casa vez que eu me deparava com os bichos psicodélicos da tela. Foi neste endereço que minha varanda dava de frente para o luxo de uma praça, toda dia amanhecida com o alarido de crianças e cachorros. Também foi aqui que comecei um pequeno jardim que, como metáfora da vida, em umas fases foi viçoso e em outras murchou e perdeu o encanto.

gutierrez quadro

Vou levar muito disso comigo, naturalmente, não só os bens materiais como os imateriais. Mas agora vai ser outra história. O café desta casa nunca vai ser igual ao da próxima. Nem melhor, nem pior, mas diferente. Dá medo, mas não vou partir do zero. Construir outra casa alegre não vai ser inédito e eu tenho certeza que vai valer a pena ser feliz de novo!

Respira fundo e vai…

Não têm sido dias fáceis. Mas uma pós-graduação que começou muito antes de tudo revirar precisa ser concluída. E tem trabalhos pra entregar e prazos pra cumprir e opiniões para emitir sobre assuntos que não cabem dentro da minha cabeça atolada de problemas existenciais.

Importa-me lá, diz o universo. Eu preciso produzir mesmo que ande tão a flor da pele que qualquer beijo de novela me faça chorar, como cantou tão bonito o Zeca Baleiro. Tudo que não tem remédio, remediado está e tenho feito, sabe-se lá Deus como, os trabalhos da especialização.

O último foi uma lástima. Meu cérebro parecia uma gelatina, era uma segunda-feira de um dia mais péssimo do que tem sido todos os outros, mas não tinha mais prazo. O livro que era a base do trabalho tinha mais de 100 páginas e eu não conseguia reter um parágrafo. Mas saiu a fórceps. Como também foi forçando a barra que saiu o trabalho anterior e como deverá ser o próximo. Não acaba nunca, estamos ainda na terceira semana da disciplina…

Aí vieram as notas e, contrariando, todos os prognósticos, tirei total no dois trabalhos feitos no limite. Não, eu não acho que apreendi muita coisa, nem que fiz uma trabalho a contento. Claro, o professor foi generoso na correção. Mas o que mais me intrigou é como a gente se desdobra, se reinventa, se transforma que nem milho virando pipoca quando a temperatura sobe. Não sei se isso é exatamente bom, porque tem horas que é preciso jogar a toalha. Essa tendência que a gente tem de espremer a laranja ao máximo pode transformar tudo em bagaço, literalmente.

Mas não deixa de ser um alento pensar que a gente pode brilhar, mesmo quando se acha um pavio apagado.

blog pipoca

Fala baixo, se não eu grito!

Os barulhos são meus pastores e a paz me faltará. Tudo começou com o Shopping Cidade. Sou sobrevivente da construção do centro de compras quando o mesmo veio se instalar ao lado do prédio onde morávamos felizes e tranquilos, na Rua Rio de Janeiro.

Foram noites em claro, ligando para os pedreiros, ligando para o Disk-silêncio, que é mudo, saindo de camisola e baixando na construção pra implorar, “pelo amor de Deus, seus cabras, eu preciso dormir”…Tudo em vão porque os empreendedores do shopping estavam pouco se lixando pra insônia dos moradores e dá-lhe britadeira.

Depois dessa experiência traumática, quando precisava escolher um lugar pra morar meu primeiro critério sempre era o silêncio. Meu apartamento no bairro Coração Eucarístico era numa rua tranquila, de frente pra um terreno com uma árvore linda. No amanhecer, um bando de passarinhos vinha se aninhar na árvore e era o máximo! Tive convicção que morava no paraíso e até escutava as trombetas dos anjos. Mas o barulho é um fantasma que encontra brechas e veio a primeira decepção…cortaram a árvore para…adivinhem? Construírem um prédio horroroso.

Acabou minha lua-de-mel com o sossego. E não parou por aí, minha vizinha de cima também comprou um karaokê. É uma delícia cantar músicas bregas e loucas em um bar, em uma festa, em uma despedida, mas ter uma cantoria dessas em cima da sua cabeça, todo sábado e domingo era a treva. E ela, a vizinha até então adorável, cantava mal pacas, e tinha fixação pela música, filme triste, que me fez chorar…Ora, filme triste era aquele que eu estava vivendo…

Corta para a vida no Buritis. Como sempre, apartamento em rua tranquila. Escolhi um predinho em uma via com pouco trânsito, já pra evitar o estresse do bairro mais populoso de BH com a fama de agitado…Novamente a vizinhança tirou minha graça. O problema era o morador solitário do terceiro andar, que passava seu tempo livre, que coincidia com o meu, jogando videogame. Ele era um gamer que realmente entrava no espírito do jogo. E a cada partida ele gritava palavrões impublicáveis, e pulava e urrava em cima da cabeça da gente. A situação ficou tão insustentável que foi pauta de reunião de condomínio.

Mas morando na Alameda do Silêncio, em Pasárgada, não podia dar errado, né? Uma casa numa rua com um nome desses, bicho! Pois o barulho também se esconde nas matas da Região Metropolitana de BH. É para os condomínios que fogem os moradores da cidade estressados com barulhos. E eles vão fazer o que nesses lugares bucólicos? Justamente fazer as festas que os incomodavam na cidade. Nos últimos meses, rolou até uma rave e não teve nem um amigo do rei pra salvar a gente.

megaphone

No Gutierrez a vida é sossegada, não posso queixar. Mas queixo assim mesmo: o playground do prédio é debaixo da minha janela. Não, eu não dei essa mancada ao escolher o apartamento. Quando o prédio estava pronto, os moradores decidiram que o melhor lugar para as criancinhas animadas do edifício brincarem em casinhas de boneca,  balanços e escorregadores era justamente debaixo da minha janela.

Mas você pode estar achando que tô inventando, que sou intolerante, que vida na cidade grande tem barulho em tudo quanto é lugar, menos na sessão de massagem relaxante, correto? Nem sempre…duas horas atrás estava alegre e satisfeita recebendo uma massagem pra aliviar o estresse que ando vivendo. Tudo ia maravilhosamente bem…A massagista uma fofa, com óleos cheirosos, música zen, sala escurinha, e mãos firmes para desatar todos os meus nós quando…começou um barulho. Uma marreta batendo na parede ao lado. Imaginei que era algum vizinho pregando um quadro e aquilo ia acabar logo – eu sou sempre otimista!

Mas não passou, as marretadas persistiram, depois intensificadas por uma furadeira. Diante do caos, resolvi sair do meu nirvana e perguntar o que estava se passando. A massagista estava corada, coitada…e me explicou muito constrangida  que eram obras na casa de máquinas, ao lado da sala de massagens,  pra consertar o elevador. E lá se foi todo meu relax tão sonhado…

Mesmo que eu só queira um pouco de silêncio, talvez os sinais sejam esses,  é preciso conviver com os altos decibéis, se safar dos turbilhões, pra alcançar a calmaria. Ainda assim, que p**** é essa? Tô com vontade de berrar bem alto e acordar toda a vizinhança!!!!!!!!!!

Minha casa, minha vida

Encontrar um filme bacana, partindo do nada, no meio das centenas de opções da Netflix é tarefa dura. É como ficar diante das opções do self-service: bate aquela dúvida sobre o que saborear. Você escolhe  por alto, lendo  as poucas linhas da descrição do prato, mas se depois da primeira garfada  não era aquilo que você tinha sonhado, dá aquela frustração! Ontem, porém, contrariando todas as probabilidades de me dar mal,   fui bem sucedida nessa missão…

Ruth & Alex não tem nada de superprodução. É um filme singelo, mas muito bem costurado, principalmente porque tem dois medalhões como protagonistas, Diane Keaton e Morgan Freeman. Eles são um casal à beira da velhice que vive o dilema de procurar uma nova moradia pra chamar de sua…Alguém falou casa? C-A-S-A? Ah, a palavra casa para uma canceriana como eu tem peso de ouro. Bingo! Não há nada que mais simboliza a essência desse signo do que o lar, doce lar!

ruth e alex

Alex, muito mais do que Ruth, sendo artista plástico, tem muito de geminiano, misturado ao charme do escorpiano. Mas, com certeza, tem ascendente em câncer. Mudar, para ele, deixando pra trás todas as memórias, todos os recônditos, as plantas do terraço, o ateliê de pintura e todos os lampejos de inspiração, os vizinhos de andar e até abrir mão da escadaria do prédio sem elevador é um golpe.

Mudar é saudável, é estimulante, é potente, mas dá trabalho. Imagina começar tudo novo, de novo? Redescobrir a melhor padaria, acostumar com os novos alaridos do prédio, socializar com os vizinhos outra vez…

Entre bater asas e fincar raízes, o canceriano escolhe sempre a segunda opção – pro bem e pro mal.

Por isso eu cooorrrooo demais…

Temos uma relação delicada, eu e a corrida. Mas, por outro lado, ninguém pode dizer que se sente enganado nessa convivência. Foi assim: desde o primeiro dia deixei claro que minhas intenções não eram nada nobres. Procurei a corrida não pra dormir melhor, não pra produzir serotonina, não pra testar meus limites. Claro que recebo de bom grado essas gracinhas que ela me traz, mas de cara, toquei a real: “Querida, só estou com você porque quero emagrecer, ficar esbelta, perder os quilos a mais, ter de volta meu corpo de, pelo menos, alguns anos atrás… falô?”

Ela, por sua vez, também foi categórica: “Bonita, não te prometo vida boa, aqui é muita ralação, muita contusão, muita transpiração, muita competição e lá na frente, bem lá frente, uma medalhinha para levantar o ânimo… falô?”.

Com as cartas na mesa, começamos o relacionamento, que evoluiu aos trancos e barrancos. A cada dois dias, quando vou me encontrar com a bendita, me pergunto por que cargas d´água entrei nessa canoa furada, como caí nessa esparrela, pra que fui inventar essa moda? Mas, no momento seguinte, lembro que a outra alternativa é pior: emagrecer sem exercício físico é lenha, então, resignada, vou ao encontro da moça.

O que mais me desanima nessa relação delicada, além de o fato de ter que acordar cedo para me esfalfar nas pistas, são as intercorrências: o namoro não vinga, não deslancha, não evolui, não gera compromisso porque a corrida é malévola. Dói, literalmente. Dói tudo, dói intensamente: dói o calcanhar, dói o joelho, dói a coxa, dói a perna, dói o dedão do pé…Até que um dia param de doer os membros inferiores e começam a incomodar os superiores, como o cotovelo ou ombro, por exemplo, porque você deu um tranco durante a corrida. Ou o pescoço, porque você dormiu mal porque doía o calcanhar, o joelho, a coxa, a perna, o dedão do pé…

Mas não tem nada de bom nessa relação? Claro que tem, mas ainda não descobri…Sabe aquele “barato” que todo corredor afirma sentir depois do aquecimento, dos primeiros quilômetros, quando você entra na vibe da corrida e se sente flutuando…? Não sei, nunca senti. Essa moça é muito voluntariosa, e me trata a barrinha de cereal e água…

A sorte é que eu sou persistente e gosto de uma briga boa. Faço o jogo do contente e penso que essa moça deve ter lá o seu charme. Ela é marrenta, mas eu sou mais. Se virou modinha ser corredor, se tem uma penca de gente que se rendeu às passadas, se tem monte de estudos que comprovam que a corrida é do bem, não é possível que comigo ela ia ser tão mal.

E, então, como boa estrategista que é, numa manhã qualquer como hoje, a danada te apronta uma surpresa. Quando você não está nem um pouco a fim de encarar a figura, porque está exaurida das dores do encontro anterior, ela vem toda mansinha e te enreda: aumenta seu pace, te dá a maior disposição, te faz correr bonito como nunca. Bonito, assim, para os parâmetros de uma relação desgastada. Bonito para quem é iniciante, empolgado e  tem coração mole…Aí você esquece tudo e acha que nasceu pra correr, que vai ser lindo, que essa relação tem futuro. Até o joelho começar a doer e você a xingar essa parceira maldita…

corrida-parque-municipal

2 ou 3 coisas sobre ser 100% câncer

“Consta nos astros, nos signos, nos búzios

Eu li num anúncio, eu vi no espelho,

tá lá no evangelho, garantem os orixás…”

Pro bem e pro mal, sou 100% canceriana. Meus parcos conhecimentos de astrologia indicam que o que vale e influencia a personalidade da pessoa não é seu signo,mas seu ascendente. No meu caso, segundo um mapa astral que fiz há mil anos, em uma promoção de uma marca de chocolate, do tempo em que chocolate não tinha gosto de parafina (Olá, Samanta) : sou Libra. Mas, como Libra? Equilibrada? Sensata? Nada disso se parece comigo. Se meu ascendente picou a mula e me deixou a ver caranguejos, abracei o bichinho com todas as minhas forças e sigo feliz com meu signo.

Me reconheço perfeitamente nas características mais marcantes dos nascidos sob o signo de Câncer:  emotivos, carinhosos, protetores, obstinados, (às vezes mau humorados!). Sim, o canceriano muda de humor ao sabor do vento, e acredita que há uma legião de conspiradores armando contra ele. E não entre numa intriga com um canceriano. Ele dá um caranguejo pra não entrar numa briga e um mangue inteiro pra não sair dela – o que não é nada bonito, diga-se de passagem!

Também me identifico com aqueles que arrastam correntes, flerto com os góticos (alô, Clau), os que vivem com um pé no passado e resistem aos ebooks no lugar das folhas amareladas dos livros. Me abandone numa biblioteca, em meio a volumosas enciclopédias, e morrerei de felicidade. Me mostre a música que era a parada de sucesso no ano em que nasci e ficarei contente como se tivesse descoberto a pólvora. Me pague um cinema, em uma sala de rua, com pipoqueiro na porta e um lanterninha me conduzindo até minha poltrona, e eu não vou querer outra vida.

O canceriano é esse velho fingindo ser mocinho, mega rabugento, mega dramático, mas doce, como todo vovô sabe ser.

canceriano