Jovem é outro papo!

Fim-de-semana de festa e vieram sete colegas do filhote, esparramando testosterona por cada metro quadrado da casa. São jovens adoráveis e na mesma medida, intragáveis. São puro êxtase… e velozes e furiosos.

De saída, têm uma urgência de correr contra o relógio, da qual não compreendo a razão – tolinhos, não percebem que o tempo está  todo a favor deles. Trocam uma boa noite de sono que os adultos tanto prezam para virarem uma noite em comemoração. Assumiram o fogão, o que achei louvável, mas deixaram o arroz queimar, entretidos sabe-se lá com o que. Se tem uma coisa da qual a maioria dos adultos não se distrai é comida, mas para eles, parar 15 minutos para cozinhar e outros 15 para saborear o prato é um desperdício.

Já das bebidas, foram fiéis escudeiros. A geladeirinha vermelha foi cuidadosamente esvaziada de bebidas alcoólicas pelos donos da casa, mas as cervejas apareceram e foram muitos litrões, pois tudo é em superlativo. O contrabando para que as “skóis” chegassem ao refrigerador possivelmente foi articulado em dezenas de mensagens de whatsapp. Quando descobertas, ninguém assumiu a responsabilidade, em um corporativismo de dar inveja.

A vela do bolo nem sequer foi acesa e o canto de parabéns deve ter passado longe, afinal, é um tremendo mico essa coisa de torta-doce-fofinha-bonitinha-em-guardanapinho que as mães tanto consideram.

Nas poucas horas que dormiram, foram todos embolados, subvertendo a divisão de camas pré-estabelecida. Travesseiros e cobertas, também desprezaram. Um deles, talvez atordoado com a noite em claro, ignorou a roupa de cama limpinha, deitou e puxou um tecido que estava ao alcance das mãos – dormiu feliz, enrolado em uma cortina fora dos trilhos, com agenda marcada para a lavanderia.

No dia seguinte, na resenha do café da manhã, a mãe implora por uma foto do aniversariante com os convidados. Mas ninguém localiza o protagonista da festa. Depois de muitos apelos de “Cotote! Cadê você, Cotote?”. Eis que surge o aniversariante ajeitando as calças e explicando docemente o motivo do sumiço: “Espera, caralho, tava cagando!”

quinze anos

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Meu pai passarinho

As lembranças de pai estão irremediavelmente ligadas à terra e a tudo que vem dela. Impossível pensar nele sem sentir o pé pisando a terra,  o gosto do leite ao pé da vaca, a vista se perdendo diante de um pasto verdinho, o barulho dos passarinhos, o galope do cavalo, o Rio Doce na sua travessia sem parar…

Essa terra o deu muito e ele generosamente transferiu toda essa riqueza para nós, em forma material e imaterial. Das primeiras, as mais emblemáticas eram as férias na praia. Meu pai Dedé nos levou – a mim, meus irmãos e minha mãe -, por anos a fio, para o Espírito Santo, na segunda quinzena de janeiro. Guarapari era nossa xangrilá. Era um luxo trocar as montanhas de Minas pelas areias escaldantes capixabas e depois descansar as peles torradas de sol na cama de um hotel.  Em um tempo em que turismo era pra poucos, ele, em sua simplicidade, ano após ano, reservava para a família aquele três estrelas que, aos nossos olhos, era a hospedagem mais top que poderia existir.

Eu fui a última a nascer e não peguei esse período, mas os irmãos mais velhos contam que ele teve a fase do chocolate Laka. Vinha à cidade e trazia para a roça uma caixa de barrinhas para a filharada. Também buscava o retratista – como eram chamados os fotógrafos da época – para registrar as imagens da família Castro e depois dependurá-las na parede da sala .

Perdi os chocolates, mas ganhei uma Caloi Ceci com cestinha, que era a mais maravilhosa bicicleta que uma criança podia desejar. Dividi com minha irmã Alexandra dezenas de pasteizinhos de milho que ele trazia de viagem, quando já morávamos na cidade e ele vinha à capital.

Mas a herança imaterial, essa sim, é a que fica pra valer. Foi com a roças de milho verde que ele bancou a faculdade de todos os filhos que se graduaram em escola particular. Embora tenha poucos anos de estudo, sempre nos estimulou a fazer ao contrário e morria de orgulho a cada filho que conquistava um canudo. Quando entrávamos no mercado de trabalho, contava para meio mundo coisas como, “minha filha trabalha na Rede Globo”, para meu desespero que morria de vergonha de tanta prosa.

Ele nos ensinou a ter uma sede imensa de aprendizado, de vontade de escarafunchar as coisas, de criar projetos e empreender. As coisas cresciam na cabeça dele e ficávamos apavorados com tantos planos mirabolantes, que envolviam às vezes uma habilidade que ele não tinha e cifras que ele também não possuía. Ele se jogava, sem rede. A grande maioria deu certo, e os que não deram, eu sublimei. Só me lembro dele com uma confiança inabalável a cada projeto que emplacava, nos olhando como quem diz, “tolinhos, por que vocês acharam que daria errado?”.

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Tem também uma herança que guardo com carinho porque penso que nesse quesito eu sou bem parecida com ele – a ironia, o humor fino, misturado ao jeito antenado. Uma marca bem mineira de fazer troça, de rir de algo que não parece engraçado à primeira vista. E de ser um grande observador de tipos humanos, incrementando a história deles com um toque piadista.

Além de nos deixar essa lista de tantas boas heranças, a hora da partida também foi especial. Foi dormindo, tirando uma prosaica soneca depois do almoço, que ele se despediu. Assim como um passarinho, que sai de cena de mansinho, batendo asas, como as dezenas de andorinhas que sobrevoam sua fazenda diariamente.

Eles passarão, você passarinho!

Sangrando

Existe uma máxima que diz, “escrever é fácil, é só sentar diante do papel e deixar sangrar a testa”.  Não é assim tão dramático, mas também não é muito diferente. E digo com conhecimento de causa. Depois de muitos anos longe do ofício raiz de um jornalista, que é escrever, voltei para a labuta.

Meu veículo é um jornalzinho semanal, os assuntos são amenos, minha editora é super compreensiva, minhas fontes são acessíveis, mas sexta-feira ao fim da manhã, faça chuva ou faça sol, ainda que eu conte com todas essas facilidades, os textos têm que sair, nem que seja a fórceps.

E tem dia que empaca. Você senta diante do computador confiante porque as pautas estão fresquinhas na cabeça, os textos desenhados mentalmente, as entrevistas renderam…não pode dar nada errado. Mas é nessa sexta-feira que você vai se enrolar. Lá na penúltima nota você não tem a menor ideia do que vai redigir e o dead line tá fugando no cangote. É desesperador, mas ao mesmo tempo é surpreendente. Como em um passe de mágica, aparece a inspiração, empurrada por aquela adrenalina de um cachorrão preto correndo atrás de você, como bem definiu o Henfil.

Diferentemente de minutos atrás, você desembola um texto bacana, algumas vezes até com uma sacada inspirada,  no melhor estilo, “dominado, tá tudo dominado”. Se eu que sou uma reles jornalista sinto essa realização ao fechar meu jornalzinho, imagino a sensação dos renomados e premiados repórteres, que ainda resistem aos trancos dessa profissão doida e doída, como escreveu meu marido e jornalista preferido.

Mas, modéstia às favas, tantos os pequeninos quanto os gigantes redatores têm a mesma epifania após o ponto final de um texto sofrido, quase uma dádiva em um mundo onde há tanta gente procurando a real vocação: eu nasci pra isso, pra juntar uma letrinha atrás da outra; não poderia fazer nada melhor em nenhuma outra profissão!

escrita

Meus dias com Rita

Rita Lee é aquele tipo de artista que parece da família, pois está em todas as fases da vida da gente. Seus sucessos embalaram minhas primeiras paixões adolescentes (eu nem sinto meus pés no chão, olho e não vejo nada, eu só penso se você me quer…), as desilusões amorosas (desculpe, babe, eu vou viver mais pra mim, eu vou correndo buscar a glória, minha glória), as fantasias românticas (que tal nós dois, numa banheira de espuma…), os barracos afetivos (desculpe o auê, eu não queria magoar você...) as crises existenciais (não adianta chamar, quando alguém está perdido, procurando se encontrar…) e por aí vai…

Talvez seja por isso que a autobiografia da roqueira tenha me balançado tanto, a ponto de nos últimos meses ter sido o único livro a me tirar  das redes sociais, em um 2017 em que me propus voltar às leituras não-virtuais e estava perdendo de lavada até então.

Rita escreve cronologicamente, às vezes puxando um ou outro fato fora do andar da carruagem, o que pra mim foi um jeito envolvente de preparar o terreno para a fase hard da sua carreira. Na infância e adolescência em São Paulo, Rita parece uma garota banal, filha de uma mãe carola e um pai metódico. Não dizem que os filhos vêm para confrontar os pais? Pois é. Dito e feito. Mesmo criada em uma prosaica família paulistana, Rita foi ao extremo, para o bem e para o mal.

Gosto de pensar que meu pai é um bom termômetro do alcance da música de Rita Lee. No livro ela conta que, no auge da carreira, o príncipe Charles foi a uma boate e pediu que a casa tocasse um de seus sucessos. Agradar a realeza é o máximo, mas o suprassumo mesmo é agradar meu pai, um fazendeiro dos rincões mineiros, sistemático,  que nunca deve ter se aproximado de uma guitarra e, ainda assim, era super fã do disco Saúde da Lee.

Toda essa popularidade entre os famosos e anônimos, no entanto, não aplacaram muitas angústias da roqueira. O livro é recheado de histórias divertidas, pitorescas, calientes dela e do marido Roberto, mas tudo isso intercalado com as nuvens pesadas da relação com os meninos Mutantes, a imprensa brasileira (ela se queixa de ter sido duramente criticada ao longo da carreira) e a dependência das drogas e do álcool.

Ser vida lôka e estar por um fio no universo do rock é um filme repetido entre as estrelas do show bisness, mas quando é com a Rita Lee, pôxa, dá uma super vontade de pegar no colo e dizer, “miga, pára com isso”. É dilacerante ver a sucessão de interna-desinterna-interna-desinterna da roqueira, buscando se livrar dos entorpecentes.

Mas aí vem a neta e a vovozinha do rock consegue parar a montanha-russa que quase a derruba. Fofa.

Não podia ser diferente. Já pensou que vida irritante sem a Rita?

rita lee

O amor é o que fica

Publicado originalmente em 23 de maio de 2015

Conhecia pouco sobre Kandinsky, e também não sei nada de arte abstrata. O que tentei fazer [ao visitar a exposição Kandissnky: Tudo começa em um ponto] foi capturar algumas sutilezas da vida do artista e então gostei da faceta dele poeta, do interesse pela cultura popular e da relação afetiva com Gabriela Munter. Ela teria dito algo como, “depois de ter um professor como Kandisnky vai ser difícil acostumar com qualquer outro”.

E fiquei encantada com o tempo em que eles viveram nesta casa, uma espécie de xangrilá do casal, em Murnau, na Alemanha. O romance não vingou, Kandinsky casou de novo, mas tenho a impressão que foi o tempo em que ele foi mais feliz.

kandisnky

Pode não ser nada disso, mas o que ficou pra mim não foram as telas, as cores, o brilhantismo…o que me tocou é que, como sempre, o amor é a fase mais linda da história de todas as pessoas, das mais comuns às mais geniais

Meu coração, não sei por que, bate feliz, quanto te vê…

Sem querer fazer intriga, mas já fazendo, em São Paulo, Marisa Monte e Paulinho da Viola tocaram pouco mais de uma hora. Em BH, foi quase o dobro. Paulinho, um poço de timidez, estava perto de soltinho, até sorrindo ao narrar histórias pitorescas de sambistas da Portela.
Marisa Monte, aquela artista perfeita: a gente procura, procura e procura um defeito, mas sem sucesso! Com figurino dama de vermelho, cachos cada vez mais lindos, performática, delicada com a plateia, arrebatou o público quando cantou Carinhoso e logo depois propôs um bis de Pixinguinha, que compôs essa “música que faz a gente sentir tanto orgulho do Brasil”.
Quando você pensa que tá tudo redondinho, vem outras surpresas, como Carnavália, dos Tribalistas (sorry, eu curto), essa ode à festa mais bonita do país: Sinto a batucada se aproximar/Estou ensaiado para te tocar/Repique tocou, o surdo escutou/E o meu corasamborim/Cuíca gemeu/Será que era eu/Quando ela passou por mim…
Pra fechar com chave de ouro, um #ForaTemer bem ao estilo de mineiro, que gosta de falar sem dizer. Sugerida pelo sambista de cabelos brancos, Marisa e Paulinho cantaram Comida: A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte/
A gente não quer só comida/A gente quer saída para qualquer parte.
Enfim, melhor do que a encomenda.
Obrigada, universo!
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Todos os Caetanos do mundo

Primeiramente, devo confessar que sempre fui mais Chico do que Caetano. Até que ontem descobri que não sou tão convicta assim, pois fiquei completamente balançada pela filho da Dona Canô, no show Cobra Coral Canta Caetano. E, de quebra, também virei fã número 1 do quarteto mineiro, no melhor estilo, “nunca te vi, sempre te amei”. Flávio Henrique, Mariana Nunes, Kadu Vianna e Pedro Morais selecionaram preciosidades da obra do Caetano Veloso e fizeram um show marcante!

Sabe quando você já cantou uma música de cor e salteado, dezenas de vezes, mas só de repente se dá conta da beleza dos versos? Isso me arrebatou nos primeiros minutos. Achei de uma beleza tão triste esta queixa…”Um amor assim violento/ Quando torna-se mágoa/É o avesso de um sentimento/Oceano sem água”.

caetano-veloso

Mas logo em seguida me reanimei com a verde-e-rosa e a Bahia, a estação primeira do Brasil: “Isso é a confirmação de que a Mangueira/É onde o Rio é mais baiano”.

Na voz de Mariana Nunes, impossível não pensar que Caetano é baianeiro e seu Trem das Cores são todas as maria-fumaças serpenteando Minas Gerais: “As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar/Os dois lados da janela/E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há/Azul que é pura memória de algum lugar”.

E teve os músicos, seus arranjos fantásticos e suas vozes lindas pra lavar a alma da plateia em Podres Poderes: “Será que nunca faremos senão confirmar/A incompetência da América católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos/Será, será, que será?

Pra lavar a alma e também nos fazer lembrar dos versos mais lindos compostos debaixo dos caracóis daqueles cabelos: “Eu vi a mulher preparando outra pessoa/O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga/A vida é amiga da arte/É a parte que o sol me ensinou/
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou”.

E vieram mais e mais versos, mais arranjos, mais releituras, todas delicadamente escolhidas e ensaiadas, inclusive uma ou duas composições do lado B do Caê.

Mas o que arrebatou mesmo foram as clássicas, os grandes sucessos, as composições icônicas e poderosas como uma Tigresa, cantada no improviso por Mariana Nunes: “Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar/Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar/Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão/E a tigresa possa mais do que o leão”.

cobra coral

Que prazer em dose dupla! Obrigada, Caetano, por me fazer descobrir o Cobra Coral! Obrigada Cobra Coral, por me fazer (re)descobrir o Caetano!

Merlí: como não amar?

O roteiro desta série espanhola da Netflix parece sacal. Merlí (interpretado pelo ótimo Francesc Orella) é um professor de Filosofia que tem um jeito heterodoxo de educar, mas conquista uma classe de adolescentes. Acontece que o diferente é que esse encantamento não surge porque o educador é perfeito, mas justamente porque é humano,  comete desvios de condutas,  incoerências e vive dilemas da mesma forma que cada um de nós. Ao fim e ao cabo, a graça da série é colocar cada espectador diante das suas próprias fragilidades.

Sendo assim, tome porrada! Ao longo dos 13 episódios da primeira temporada, vão se descortinando vários dilemas éticos, sempre à luz dos grandes filósofos da humanidade – quem nunca ficou tentado a roubar a prova do colégio e entregar para o filho que está de recuperação? É correto um professor atravessar o samba e namorar a mãe de um aluno? Ou é melhor não misturar as estações e sufocar o desejo? Filantropia é pro bem ou pro mal? É certo arrecadar alimentos ou cobrar dos governantes que deem comida para os pobres com os impostos que pagamos? Vale a pena esconder do marido que autorizou o filho a ir a uma festa ou é melhor bancar a verdade, ganhando pontos com o amor e perdendo a confiança do rebento?

E como ajudar essa gangue a romper e ser feliz nesta montanha-russa chamada adolescência? Tem que ter muita coragem pra sair do armário, pra assumir um corpo fora do padrão de beleza, pra escolher o ofício que vai seguir pro resto da vida, pra vencer uma síndrome do pânico, pra dar adeus à virgindade, pra ser sensível sem ser piegas, pra ser forte, sem ser injusto, pra não discriminar os colegas negros e imigrantes – temática importante da atualidade,  mas que ficou de fora do roteiro. Aff…pobres peripetéticos e miseráveis pais, mães e educadores dessa turma.

Só mesmo recorrendo a Aristóteles, Nietzsche, Foucault, Platão, Descartes e…claro, ter a sorte de encontrar um Merlí que seja numa sala de aula do seu tedioso Ensino Médio!

Por isso eu cooorrrooo demais…

Temos uma relação delicada, eu e a corrida. Mas, por outro lado, ninguém pode dizer que se sente enganado nessa convivência. Foi assim: desde o primeiro dia deixei claro que minhas intenções não eram nada nobres. Procurei a corrida não pra dormir melhor, não pra produzir serotonina, não pra testar meus limites. Claro que recebo de bom grado essas gracinhas que ela me traz, mas de cara, toquei a real: “Querida, só estou com você porque quero emagrecer, ficar esbelta, perder os quilos a mais, ter de volta meu corpo de, pelo menos, alguns anos atrás… falô?”

Ela, por sua vez, também foi categórica: “Bonita, não te prometo vida boa, aqui é muita ralação, muita contusão, muita transpiração, muita competição e lá na frente, bem lá frente, uma medalhinha para levantar o ânimo… falô?”.

Com as cartas na mesa, começamos o relacionamento, que evoluiu aos trancos e barrancos. A cada dois dias, quando vou me encontrar com a bendita, me pergunto por que cargas d´água entrei nessa canoa furada, como caí nessa esparrela, pra que fui inventar essa moda? Mas, no momento seguinte, lembro que a outra alternativa é pior: emagrecer sem exercício físico é lenha, então, resignada, vou ao encontro da moça.

O que mais me desanima nessa relação delicada, além de o fato de ter que acordar cedo para me esfalfar nas pistas, são as intercorrências: o namoro não vinga, não deslancha, não evolui, não gera compromisso porque a corrida é malévola. Dói, literalmente. Dói tudo, dói intensamente: dói o calcanhar, dói o joelho, dói a coxa, dói a perna, dói o dedão do pé…Até que um dia param de doer os membros inferiores e começam a incomodar os superiores, como o cotovelo ou ombro, por exemplo, porque você deu um tranco durante a corrida. Ou o pescoço, porque você dormiu mal porque doía o calcanhar, o joelho, a coxa, a perna, o dedão do pé…

Mas não tem nada de bom nessa relação? Claro que tem, mas ainda não descobri…Sabe aquele “barato” que todo corredor afirma sentir depois do aquecimento, dos primeiros quilômetros, quando você entra na vibe da corrida e se sente flutuando…? Não sei, nunca senti. Essa moça é muito voluntariosa, e me trata a barrinha de cereal e água…

A sorte é que eu sou persistente e gosto de uma briga boa. Faço o jogo do contente e penso que essa moça deve ter lá o seu charme. Ela é marrenta, mas eu sou mais. Se virou modinha ser corredor, se tem uma penca de gente que se rendeu às passadas, se tem monte de estudos que comprovam que a corrida é do bem, não é possível que comigo ela ia ser tão mal.

E, então, como boa estrategista que é, numa manhã qualquer como hoje, a danada te apronta uma surpresa. Quando você não está nem um pouco a fim de encarar a figura, porque está exaurida das dores do encontro anterior, ela vem toda mansinha e te enreda: aumenta seu pace, te dá a maior disposição, te faz correr bonito como nunca. Bonito, assim, para os parâmetros de uma relação desgastada. Bonito para quem é iniciante, empolgado e  tem coração mole…Aí você esquece tudo e acha que nasceu pra correr, que vai ser lindo, que essa relação tem futuro. Até o joelho começar a doer e você a xingar essa parceira maldita…

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Lenu & Lila

Feliz de começar o ano terminando A amiga genial, de Elena Ferrante. Feliz é modo de dizer, estou muito contente por ter conhecido Lenu e Lila, mas na verdade essa dupla mexeu comigo. Há muito um livro não me arrebatava assim, me deixando de queixo caído no ponto final. Como assim, senhora Ferrante, encerrar o enredo, provocando no leitor esse dessossego, imaginando a cena a seguir?

Outro espanto: que escrita redonda! Não encontrei uma aresta, uma palavra fora do lugar, uma descrição nem a mais nem a menos. Não vi nenhum deslize, nem uma derrapada. Que prazer encontrar uma autora que põe uma palavra atrás da outra com tanta maestria!

Mas o grande pulo do gato da obra, para mim, é o deslocamento que ele provoca no leitor. Lenu e Lila são igualmente envolventes e, na minha percepção, vão se alternando no pódium da genialidade. Por identificação, me apeguei mais a Lenu, mas torcendo para que ela viesse a ter seus dias de Lila. Tudo em vão:  ela preferiu seguir seu destino, apenas inspirada pela ousadia da amiga.

A arretada, a ardida como a pimenta, a corajosa, durante quase a totalidade do livro, é Lila. E isso também é irresistível. Ponto pra Lila, vai pro trono de rainha. Porém, de repente, quando vai passar uma temporada diante do mar, surge a Lenu solar, nada lembrando a sorumbática estudante do caótico bairro napolitano. Sai Lila, sobe Lenu.

Voltando à vida normal, no entanto, ressurge a Lenu insegura, dependente do carinho da amiga decidida, passa-se a torcer pela Lila. Nesse vai-e-vem de alternâncias na preferência do leitor,  no final, prevalece o óbvio: são goiabada e queijo, as meninas se completam e são imbatíveis quando estão juntas, misturadas, inspirando uma a outra, mesmo que sejam tão diferentes.

Ainda fica aquela inveja enorme de se ter uma amiga genial para chamar de sua. Como uma amizade leal faz a vida pulsar diferente! Dá para idealizar um caminho assim, percorrido junto a uma amiga querida, daquelas com quem a gente se sente gigante, mesmo sendo uma formiguinha:

Tínhamos doze anos, mas caminhamos sem tempo pelas ruas fervilhantes do bairro, entre a poeira e as moscas que os velhos caminhões de passagem deixavam para trás, como duas velhinhas fazendo o balanço de suas vidas cheias de desilusão, bem apegadas uma à outra. Ninguém nos compreendia, só nós duas – pensávamos – nos entendíamos.