O amor é o que fica

Publicado originalmente em 23 de maio de 2015

Conhecia pouco sobre Kandinsky, e também não sei nada de arte abstrata. O que tentei fazer [ao visitar a exposição Kandissnky: Tudo começa em um ponto] foi capturar algumas sutilezas da vida do artista e então gostei da faceta dele poeta, do interesse pela cultura popular e da relação afetiva com Gabriela Munter. Ela teria dito algo como, “depois de ter um professor como Kandisnky vai ser difícil acostumar com qualquer outro”.

E fiquei encantada com o tempo em que eles viveram nesta casa, uma espécie de xangrilá do casal, em Murnau, na Alemanha. O romance não vingou, Kandinsky casou de novo, mas tenho a impressão que foi o tempo em que ele foi mais feliz.

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Pode não ser nada disso, mas o que ficou pra mim não foram as telas, as cores, o brilhantismo…o que me tocou é que, como sempre, o amor é a fase mais linda da história de todas as pessoas, das mais comuns às mais geniais

Meu coração, não sei por que, bate feliz, quanto te vê…

Sem querer fazer intriga, mas já fazendo, em São Paulo, Marisa Monte e Paulinho da Viola tocaram pouco mais de uma hora. Em BH, foi quase o dobro. Paulinho, um poço de timidez, estava perto de soltinho, até sorrindo ao narrar histórias pitorescas de sambistas da Portela.
Marisa Monte, aquela artista perfeita: a gente procura, procura e procura um defeito, mas sem sucesso! Com figurino dama de vermelho, cachos cada vez mais lindos, performática, delicada com a plateia, arrebatou o público quando cantou Carinhoso e logo depois propôs um bis de Pixinguinha, que compôs essa “música que faz a gente sentir tanto orgulho do Brasil”.
Quando você pensa que tá tudo redondinho, vem outras surpresas, como Carnavália, dos Tribalistas (sorry, eu curto), essa ode à festa mais bonita do país: Sinto a batucada se aproximar/Estou ensaiado para te tocar/Repique tocou, o surdo escutou/E o meu corasamborim/Cuíca gemeu/Será que era eu/Quando ela passou por mim…
Pra fechar com chave de ouro, um #ForaTemer bem ao estilo de mineiro, que gosta de falar sem dizer. Sugerida pelo sambista de cabelos brancos, Marisa e Paulinho cantaram Comida: A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte/
A gente não quer só comida/A gente quer saída para qualquer parte.
Enfim, melhor do que a encomenda.
Obrigada, universo!
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Todos os Caetanos do mundo

Primeiramente, devo confessar que sempre fui mais Chico do que Caetano. Até que ontem descobri que não sou tão convicta assim, pois fiquei completamente balançada pela filho da Dona Canô, no show Cobra Coral Canta Caetano. E, de quebra, também virei fã número 1 do quarteto mineiro, no melhor estilo, “nunca te vi, sempre te amei”. Flávio Henrique, Mariana Nunes, Kadu Vianna e Pedro Morais selecionaram preciosidades da obra do Caetano Veloso e fizeram um show marcante!

Sabe quando você já cantou uma música de cor e salteado, dezenas de vezes, mas só de repente se dá conta da beleza dos versos? Isso me arrebatou nos primeiros minutos. Achei de uma beleza tão triste esta queixa…”Um amor assim violento/ Quando torna-se mágoa/É o avesso de um sentimento/Oceano sem água”.

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Mas logo em seguida me reanimei com a verde-e-rosa e a Bahia, a estação primeira do Brasil: “Isso é a confirmação de que a Mangueira/É onde o Rio é mais baiano”.

Na voz de Mariana Nunes, impossível não pensar que Caetano é baianeiro e seu Trem das Cores são todas as maria-fumaças serpenteando Minas Gerais: “As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar/Os dois lados da janela/E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há/Azul que é pura memória de algum lugar”.

E teve os músicos, seus arranjos fantásticos e suas vozes lindas pra lavar a alma da plateia em Podres Poderes: “Será que nunca faremos senão confirmar/A incompetência da América católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos/Será, será, que será?

Pra lavar a alma e também nos fazer lembrar dos versos mais lindos compostos debaixo dos caracóis daqueles cabelos: “Eu vi a mulher preparando outra pessoa/O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga/A vida é amiga da arte/É a parte que o sol me ensinou/
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou”.

E vieram mais e mais versos, mais arranjos, mais releituras, todas delicadamente escolhidas e ensaiadas, inclusive uma ou duas composições do lado B do Caê.

Mas o que arrebatou mesmo foram as clássicas, os grandes sucessos, as composições icônicas e poderosas como uma Tigresa, cantada no improviso por Mariana Nunes: “Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar/Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar/Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão/E a tigresa possa mais do que o leão”.

cobra coral

Que prazer em dose dupla! Obrigada, Caetano, por me fazer descobrir o Cobra Coral! Obrigada Cobra Coral, por me fazer (re)descobrir o Caetano!

Merlí: como não amar?

O roteiro desta série espanhola da Netflix parece sacal. Merlí (interpretado pelo ótimo Francesc Orella) é um professor de Filosofia que tem um jeito heterodoxo de educar, mas conquista uma classe de adolescentes. Acontece que o diferente é que esse encantamento não surge porque o educador é perfeito, mas justamente porque é humano,  comete desvios de condutas,  incoerências e vive dilemas da mesma forma que cada um de nós. Ao fim e ao cabo, a graça da série é colocar cada espectador diante das suas próprias fragilidades.

Sendo assim, tome porrada! Ao longo dos 13 episódios da primeira temporada, vão se descortinando vários dilemas éticos, sempre à luz dos grandes filósofos da humanidade – quem nunca ficou tentado a roubar a prova do colégio e entregar para o filho que está de recuperação? É correto um professor atravessar o samba e namorar a mãe de um aluno? Ou é melhor não misturar as estações e sufocar o desejo? Filantropia é pro bem ou pro mal? É certo arrecadar alimentos ou cobrar dos governantes que deem comida para os pobres com os impostos que pagamos? Vale a pena esconder do marido que autorizou o filho a ir a uma festa ou é melhor bancar a verdade, ganhando pontos com o amor e perdendo a confiança do rebento?

E como ajudar essa gangue a romper e ser feliz nesta montanha-russa chamada adolescência? Tem que ter muita coragem pra sair do armário, pra assumir um corpo fora do padrão de beleza, pra escolher o ofício que vai seguir pro resto da vida, pra vencer uma síndrome do pânico, pra dar adeus à virgindade, pra ser sensível sem ser piegas, pra ser forte, sem ser injusto, pra não discriminar os colegas negros e imigrantes – temática importante da atualidade,  mas que ficou de fora do roteiro. Aff…pobres peripetéticos e miseráveis pais, mães e educadores dessa turma.

Só mesmo recorrendo a Aristóteles, Nietzsche, Foucault, Platão, Descartes e…claro, ter a sorte de encontrar um Merlí que seja numa sala de aula do seu tedioso Ensino Médio!

Por isso eu cooorrrooo demais…

Temos uma relação delicada, eu e a corrida. Mas, por outro lado, ninguém pode dizer que se sente enganado nessa convivência. Foi assim: desde o primeiro dia deixei claro que minhas intenções não eram nada nobres. Procurei a corrida não pra dormir melhor, não pra produzir serotonina, não pra testar meus limites. Claro que recebo de bom grado essas gracinhas que ela me traz, mas de cara, toquei a real: “Querida, só estou com você porque quero emagrecer, ficar esbelta, perder os quilos a mais, ter de volta meu corpo de, pelo menos, alguns anos atrás… falô?”

Ela, por sua vez, também foi categórica: “Bonita, não te prometo vida boa, aqui é muita ralação, muita contusão, muita transpiração, muita competição e lá na frente, bem lá frente, uma medalhinha para levantar o ânimo… falô?”.

Com as cartas na mesa, começamos o relacionamento, que evoluiu aos trancos e barrancos. A cada dois dias, quando vou me encontrar com a bendita, me pergunto por que cargas d´água entrei nessa canoa furada, como caí nessa esparrela, pra que fui inventar essa moda? Mas, no momento seguinte, lembro que a outra alternativa é pior: emagrecer sem exercício físico é lenha, então, resignada, vou ao encontro da moça.

O que mais me desanima nessa relação delicada, além de o fato de ter que acordar cedo para me esfalfar nas pistas, são as intercorrências: o namoro não vinga, não deslancha, não evolui, não gera compromisso porque a corrida é malévola. Dói, literalmente. Dói tudo, dói intensamente: dói o calcanhar, dói o joelho, dói a coxa, dói a perna, dói o dedão do pé…Até que um dia param de doer os membros inferiores e começam a incomodar os superiores, como o cotovelo ou ombro, por exemplo, porque você deu um tranco durante a corrida. Ou o pescoço, porque você dormiu mal porque doía o calcanhar, o joelho, a coxa, a perna, o dedão do pé…

Mas não tem nada de bom nessa relação? Claro que tem, mas ainda não descobri…Sabe aquele “barato” que todo corredor afirma sentir depois do aquecimento, dos primeiros quilômetros, quando você entra na vibe da corrida e se sente flutuando…? Não sei, nunca senti. Essa moça é muito voluntariosa, e me trata a barrinha de cereal e água…

A sorte é que eu sou persistente e gosto de uma briga boa. Faço o jogo do contente e penso que essa moça deve ter lá o seu charme. Ela é marrenta, mas eu sou mais. Se virou modinha ser corredor, se tem uma penca de gente que se rendeu às passadas, se tem monte de estudos que comprovam que a corrida é do bem, não é possível que comigo ela ia ser tão mal.

E, então, como boa estrategista que é, numa manhã qualquer como hoje, a danada te apronta uma surpresa. Quando você não está nem um pouco a fim de encarar a figura, porque está exaurida das dores do encontro anterior, ela vem toda mansinha e te enreda: aumenta seu pace, te dá a maior disposição, te faz correr bonito como nunca. Bonito, assim, para os parâmetros de uma relação desgastada. Bonito para quem é iniciante, empolgado e  tem coração mole…Aí você esquece tudo e acha que nasceu pra correr, que vai ser lindo, que essa relação tem futuro. Até o joelho começar a doer e você a xingar essa parceira maldita…

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Lenu & Lila

Feliz de começar o ano terminando A amiga genial, de Elena Ferrante. Feliz é modo de dizer, estou muito contente por ter conhecido Lenu e Lila, mas na verdade essa dupla mexeu comigo. Há muito um livro não me arrebatava assim, me deixando de queixo caído no ponto final. Como assim, senhora Ferrante, encerrar o enredo, provocando no leitor esse dessossego, imaginando a cena a seguir?

Outro espanto: que escrita redonda! Não encontrei uma aresta, uma palavra fora do lugar, uma descrição nem a mais nem a menos. Não vi nenhum deslize, nem uma derrapada. Que prazer encontrar uma autora que põe uma palavra atrás da outra com tanta maestria!

Mas o grande pulo do gato da obra, para mim, é o deslocamento que ele provoca no leitor. Lenu e Lila são igualmente envolventes e, na minha percepção, vão se alternando no pódium da genialidade. Por identificação, me apeguei mais a Lenu, mas torcendo para que ela viesse a ter seus dias de Lila. Tudo em vão:  ela preferiu seguir seu destino, apenas inspirada pela ousadia da amiga.

A arretada, a ardida como a pimenta, a corajosa, durante quase a totalidade do livro, é Lila. E isso também é irresistível. Ponto pra Lila, vai pro trono de rainha. Porém, de repente, quando vai passar uma temporada diante do mar, surge a Lenu solar, nada lembrando a sorumbática estudante do caótico bairro napolitano. Sai Lila, sobe Lenu.

Voltando à vida normal, no entanto, ressurge a Lenu insegura, dependente do carinho da amiga decidida, passa-se a torcer pela Lila. Nesse vai-e-vem de alternâncias na preferência do leitor,  no final, prevalece o óbvio: são goiabada e queijo, as meninas se completam e são imbatíveis quando estão juntas, misturadas, inspirando uma a outra, mesmo que sejam tão diferentes.

Ainda fica aquela inveja enorme de se ter uma amiga genial para chamar de sua. Como uma amizade leal faz a vida pulsar diferente! Dá para idealizar um caminho assim, percorrido junto a uma amiga querida, daquelas com quem a gente se sente gigante, mesmo sendo uma formiguinha:

Tínhamos doze anos, mas caminhamos sem tempo pelas ruas fervilhantes do bairro, entre a poeira e as moscas que os velhos caminhões de passagem deixavam para trás, como duas velhinhas fazendo o balanço de suas vidas cheias de desilusão, bem apegadas uma à outra. Ninguém nos compreendia, só nós duas – pensávamos – nos entendíamos.

Rioadentro

“Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; (…) Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente.(…) Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. (…) Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente”.

Riodentro  tira a gente do prumo. É como a água doce, tão fascinante e tão assustadora. É como a vida, às vezes serena, às vezes revolta. É o desejo de molhar só a ponta do pé ou se jogar sem medo. É planejar um curso e dar em uma quina de mar que a gente nem imaginava. Está tudo lá, nessa peça teatral que adapta o instigante conto de Guimarães Rosa.

Para narrar a história do pai que, de veneta, larga tudo pra trás e vai morar em uma canoinha no meio do rio, navega pelo palco do teatro, um Benjamim Guimarães abarrotado de mineiridade: as cumbucas e as cabaças, as fitas e o tambor do congado, a moda de viola, as flores de papel para o andor de Nossa Senhora, o chapéu de palha, as fitas no cabelo, a rosa tirana, o boiadeiro.

No pai, representado por Sitaram Custódio, toda a angústia de cada um de nós, tão particular e tão universal. A vontade de partir sem olhar pra trás, sem ter que explicar, o vazio, o ôco. O desejo de deixar o rio nos arrebatar, até viramos pó, ou lama, como no Rio Doce, que também é lembrado na peça.

Na figura da mãe, lindamente representada por Lira Ribas, a força da mulher do Jequitinhonha, do Brasil, do Haiti, da Síria, que embora não entenda os designos do destino, sabe que a vida é como o rio, tem que seguir seu curso.

Completam a cena, a filha do pai que foi embora, menina sem eira nem beira, sem voz, como se tivesse um pássaro entalado na garganta, e o filho, menino que nunca entendeu por que não conseguiu barrar o pai rumo ao rio. Nas interpretações tocantes de Rayni Campos e Carlos Caetano, transbordam emoções, inquietações, mistérios e calmarias. Tal e qual o rio: de onde queremos fugir e para onde queremos ir.

 

Elis lado B

Pimentinha penso que é um bom resumo da Elis Regina da cinebiografia de Hugo Prata. Na telona, a Elis é pimenta, mas menos picante do que nas páginas do livro Nada será como antes. O filme mostra uma cantora mais parecida com a mulher brasileira, o que cria uma grande identificação. A Elis afetada, histérica, deslumbrada, ficou nos bastidores. Tem, naturalmente, a Elis corajosa, irônica, competitiva, mas salta aos olhos a  mãe de primeira viagem, insegura, angustiada com o show business, doce e generosa com os músicos iniciantes.

Junto a isso tem a interpretação de Andréia Horta, que não só me fez acreditar que estava a seis graus de separação da Elis reencarnada, como também que, em determinados trejeitos, Maria Rita, a caçula da artista, entrava em cena. O sorriso, os braços girando no palco, o cabelo curtinho, o olhar. Incrivelmente convincente!

E, claro, a trilha sonora. Que história não fica encantadora embalada por Arrastão, Como nossos pais, O bêbado e o equilibrista, Fascinação? O enredo só fica mais bonito porque a cinebiografia mostra a amizade sincera da cantora com Lennie Dale, coreógrafo e bailarino norte-americano. Ser a maior cantora do Brasil e ter um amigo gay pra te ensinar a rodopiar no palco e na vida é muita sorte. Sorte que só brinda os iluminados!

 

 

 

A música vai à academia

Coluna originalmente escrita para o site http://indicai.mus.br/.

A força da música é tão potente que a faz transcender, chegando a universos como o da academia ou da literatura. Não raro, algum pesquisador se encanta por um artista da Música Popular Brasileira e se propõe a defender teses ou dissertações sobre sua obra. Quando o resultado é muito impactante, os estudos até viram livros, permitindo que pessoas comuns mergulhem no processo de criação dos músicos que foram os objetos de pesquisa.

Chico Buarque, com certeza, é um dos compositores brasileiros que mais transita pelas bancas de doutorado ou mestrado. Ele é um dos músicos do país que mais motiva estudos acadêmicos, pela riqueza de sua obra: mais de 50 anos de carreira, mais de 300 canções, e composições gravadas em mais de 40 álbuns. As canções que abordam as personagens femininas são o principal enfoque dos pesquisadores que o estudam, mas também há acadêmicos que abordam suas composições com enfoque político e até quem descubra “as geografias” presentes na obra do artista. Carolina Pereira, por exemplo, foi por esse caminho.

Em seu doutorado pela USP, a pesquisadora investigou lugares que ficaram marcados na obra de Chico Buarque. O estudo analisa, por exemplo, a canção “Estação derradeira”, composta em 1987 para o álbum Francisco, que exalta o Rio de Janeiro: Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/Cada ribanceira é uma nação. Aborda, também, outros temas ligados ao universo geográfico e que foram cantados por Chico, como a cidade vista a partir do olhar urbano, em “As vitrines” (Álbum Almanaque, 1982): Eu te vejo sumir por aí/ Te avisei que a cidade era um vão/ Dá tua mão/ Olha pra mim/ Não vai lá não. O trabalho também cita a migração e a formação plural do povo brasileiro, por meio da letra “Paratodos”, do álbum de mesmo nome, lançado em 1993: O meu pai era paulista/Meu avô, pernambucano/O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano.

Mesmo com a supremacia de Chico Buarque, a academia se rende também a autores como Paulinho da Viola. Elite Eça Negreiros, que também é cantora e pesquisadora de Música Popular Brasileira, escolheu o sambista para seu objeto de pesquisa, tanto no mestrado quanto no doutorado, pela USP. Sua tese, agora, foi adaptada e se transformou no livro “Paulinho da Viola e o Elogio do Amor” (Editora Ateliê, 148 págs).

Para a pesquisadora, ao investigar as canções do sambista foi possível identificar algumas modalidades da representação do amor. Em “Foi um rio que passou em minha vida” (1970), um dos sambas mais conhecidos do compositor, Negreiros destaca a paixão do amante que, mesmo diante da dor gerada pelas desilusões afetivas, continua se apaixonando e buscando no próprio amor a cura para os seus males: Meu coração tem mania de amor/ Amor não é fácil de achar/ As marcas dos meus desenganos ficou, ficou/ Só o amor pode apagar.

E para as compositoras da MPB, há espaço na academia? Repetindo a desigualdade de gênero, os estudos enfocando as mulheres que compõem são em número mais reduzido, ou não são tão badalados. É possível encontrar pesquisas sobre Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Dolores Duran (1930-1959) e Maysa (1936-1977). Das compositoras contemporâneas, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são algumas das pesquisadas.
Mas, inspiração não falta. As letras da MPB são riquíssimas e é possível se debruçar sobre a obra de vários artistas. E, no fim das contas, uma canção que nos arrebata pode mudar tudo, como bem escreveu Chico Buarque, em 1980: Qualquer canção de amor/ É uma canção de amor/ Não faz brotar amor/ E amantes/ Porém, se essa canção nos toca o coração/ O amor brota melhor/ E antes.

Barcelona: amor à segunda vista

Dias 10, 11 e 12: Barcelona

Tolinha que sou, achei que estava decidido: me identifico mais com Madrid do que com Barcelona. Claro, a primeira é muito mais parecida com Beagá: é linda,  envolvente, mas mais perto dos padrões. Uma cidade mais certinha, uma moça fina pra casar, um bom partido. Nós, mineiros, somos assim, mais previsíveis. Já Barcelona me assustou da primeira vez, achei a cidade muito vida loka, ainda que também a tenha considerado linda e envolvente como Madrid. Diferentemente da capital espanhola, achei Barcelona muito evoluída pros meus padrões.

Mas como diz Saramago, nada como voltar a um lugar no qual já se foi e descobrir uma pedra que não tinha notado, observá-la de noite, seus detalhes,suas idiossincrasias…Essa máxima do escritor caiu como uma luva: nessa segunda visita descobri uma cidade que me arrebatou. A graça de voltar a um mesmo lugar está nisso: nessas surpresas, na mudança de conceitos, preconceitos e percepções. Pode ser que eu tenha vindo a Barcelona numa fase menos Madrid e, anteriormente, tenha visitado a cidade numa época mais enquadrada. Agora, não, caí de amores por essa ovelha negra da Espanha.

Tudo me encantou, mas essa rebeldia, o desejo de ser um país independente e a garra com a qual os catalães defendem esse ideal separatista é de cair o queixo. Não sei dizer se é uma causa justa, a separação é polêmica. Não sei quem tem razão, mas sei que quem defende uma ideia com tanta veemência, num mundo onde tudo é tão volátil, onde nossos heróis morreram de overdose, onde procuramos uma ideologia pra viver, ah, isso tem muito valor!

Gaudi, Barceloneta, Parque da Cidadela, Las Ramblas…tudo é lindo, mas nada é mais tocante do que as bandeirinhas da Cataluña em todos, eu disse, todos os prédios de moradores de Barcelona, acenando para esse desejo de liberdade, de autonomia. No amor a uma causa, Barcelona é imbatível. E agora, no meu coração a cidade também é! Arriba!!!

 

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