Um sonho bonina

Quando eu cheguei, a casa já estava erguida, os cachorros escolhidos e a hera já brotava, embora tímida, no barranco aos fundos da moradia. Nada era genuinamente meu, mas abracei cada pedacinho daquele sonho como se estivesse lá desde quando a casa era apenas um desenho mal arquitetado.

Pra varanda, consegui uma muda de flor de cera que se enroscou com gosto na trelhiça que quebrava o sol. Antes disso, o jardim que não havia e que virou uma réplica do jardim de sua mãe. Ao fundo, uma grutinha com a imagem do Santo que, descobrimos eufóricos, era o protetor de ambos.

Na copa, um armário retrô ganhou lugar de destaque, trocamos as vidraças. Dava para ver o que tinha lá dentro, não precisávamos esconder a alegria que reinava no nosso interior. Queŕiamos viver descortinados. Que todo mundo soubesse que ali a felicidade era um imperativo. E a toda hora, não só nas horinhas de descuido…

Uma robusta estante de livros foi erguida. Do chão ao alto, como na revista que colecionava e que, folheando, marquei a página com uma orelha, como se dissesse, Eureka! Encontrei o móvel pra aquele canto da sala! Como era enorme, coube os livros meus e seus, bebidas de vários tipos e origens  e deu, ainda, pra encher as gavetas, reservando a da direita para as chaves e documentos antes que eles se perdessem ao caminhar contra o vento. Mas não era tudo, na prateleira do centro, bem onde a vista alcançava, ficaram as taças. Gostava de embaralhar todos os tipos, as redondas de vinho, as esguias de espumante e as diminutas de licor. Gostava de pensar que os etílicos galgavam o andar superior e se esparramavam caprichosamente dentro das taças. Era um sonho bom!

Também entre a sala e a copa havia a parede que virou a menina dos meus olhos. Você me deu carta branca pra brincar de Van Gogh naquele pedaço e eu embarquei numa viagem psicodélica.

Pensei, pensei, pensei e o veredicto: será uma parede beterraba, ou melhor, bonina. Além de mais sonoro, detesto comer beterraba. Foi meu mais intenso exercício de ousadia. Assim que o pintor terminou o serviço corri pra ver o resultado, coração disparado e mãos suando. Não havia ficado bom…havia ficado estupendo!!

Teve ainda o andar de cima e a sala de televisão que antes era um mezanino sem graça e virou o lugar mais gostoso da casa. Havia o quarto de casal com uma varanda que dava pra ver o horizonte. Sonhamos sonhos bons naquele pedaço, olhando pra fora ou nos aninhando debaixo das cobertas…

Teve o quarto dos meninos, que ganhou uma treliche com escadinha pra chegar a cama mais alta e cobiçada pela turminha quando eram pivetes. Quando cresceram e voltavam altinhos das festas de 15 anos, a cama de cima ficou relegada a segundo plano e a de baixo ganhou o centro das atenções. Dormir nela era a garantia de chegar mais rápido ao banheiro e deixar por lá os drinks que reviravam no estômago.

Também revirou meu estômago olhar para a parede bonina e não encontra-la. Toquei para ver se acreditava que meu exercício de ousadia tinha dado lugar a um verde picolé de chuchu. Fechei os olhos e abri de novo pra ver se alguma coisa mudava.  Nada. Virei as costas e caminhei até a porta na esperança de que aquele verde cafona fosse um delírio. Olhei de soslaio e minha parede bonina tinha virado uma amarga limonada. Não tinha mais parede bonina, nem cor, nem sonho.

Bati a porta, em frangalhos.

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Foto por Kelly Lacy em Pexels.com

Um sonho bonina

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Foto por Kelly Lacy em Pexels.com

Quando eu cheguei, a casa já estava erguida, os cachorros escolhidos e a hera já brotava, embora tímida, no barranco aos fundos da moradia. Nada era genuinamente meu, mas abracei cada pedacinho daquele sonho como se estivesse lá desde quando a casa era apenas um desenho mal arquitetado.

Pra varanda, consegui uma muda de flor de cera que se enroscou com gosto na trelhiça que quebrava o sol. Antes disso, o jardim que não havia e que virou uma réplica do jardim de sua mãe. Ao fundo, uma grutinha com a imagem do Santo que, descobrimos eufóricos, era o protetor de ambos.

Na copa, um armário retrô ganhou lugar de destaque, trocamos as vidraças. Dava para ver o que tinha lá dentro, não precisávamos esconder a alegria que reinava no nosso interior. Queŕiamos viver descortinados. Que todo mundo soubesse que ali a felicidade era um imperativo. E a toda hora, não só nas horinhas de descuido…

Uma robusta estante de livros foi erguida. Do chão ao alto, como na revista que colecionava e que, folheando, marquei a página com uma orelha, como se dissesse, Eureka! Encontrei o móvel pra aquele canto da sala! Como era enorme, coube os livros meus e seus, bebidas de vários tipos e origens  e deu, ainda, pra encher as gavetas, reservando a da direita para as chaves e documentos antes que eles se perdessem ao caminhar contra o vento. Mas não era tudo, na prateleira do centro, bem onde a vista alcançava, ficaram as taças. Gostava de embaralhar todos os tipos, as redondas de vinho, as esguias de espumante e as diminutas de licor. Gostava de pensar que os etílicos galgavam o andar superior e se esparramavam caprichosamente dentro das taças. Era um sonho bom!

Também entre a sala e a copa havia a parede que virou a menina dos meus olhos. Você me deu carta branca pra brincar de Van Gogh naquele pedaço e eu embarquei numa viagem psicodélica.

Pensei, pensei, pensei e o veredicto: será uma parede beterraba, ou melhor, bonina. Além de mais sonoro, detesto comer beterraba. Foi meu mais intenso exercício de ousadia. Assim que o pintor terminou o serviço corri pra ver o resultado, coração disparado e mãos suando. Não havia ficado bom…havia ficado estupendo!!

Teve ainda o andar de cima e a sala de televisão que antes era um mezanino sem graça e virou o lugar mais gostoso da casa. Havia o quarto de casal com uma varanda que dava pra ver o horizonte. Sonhamos sonhos bons naquele pedaço, olhando pra fora ou nos aninhando debaixo das cobertas…

Teve o quarto dos meninos, que ganhou uma treliche com escadinha pra chegar a cama mais alta e cobiçada pela turminha quando eram pivetes. Quando cresceram e voltavam altinhos das festas de 15 anos, a cama de cima ficou relegada a segundo plano e a de baixo ganhou o centro das atenções. Dormir nela era a garantia de chegar mais rápido ao banheiro e deixar por lá os drinks que reviravam no estômago.

Também revirou meu estômago olhar para a parede bonina e não encontra-la. Toquei para ver se acreditava que meu exercício de ousadia tinha dado lugar a um verde picolé de chuchu. Fechei os olhos e abri de novo pra ver se alguma coisa mudava.  Nada. Virei as costas e caminhei até a porta na esperança de que aquele verde cafona fosse um delírio. Olhei de soslaio e minha parede bonina tinha virado uma amarga limonada. Não tinha mais parede bonina, nem cor, nem sonho.

Bati a porta, em frangalhos.

Diário da Distopia: Nem 8 nem 80; dia 88

No princípio, a gente pensava que não aguentaria um mês. Cá estamos próximos a três meses e nada dos números baixarem, pelo contrário, 44 mil mortos e contando… Fazer o quê? Resistir. Claro que somos privilegiados, estamos seguros, em casa, podemos nos virar mesmo com pouco trabalho, mas tem dias que são duros.

Que falta faz a liberdade de sair sem conferir máscara, álcool gel, sem olhar em volta se as pessoas estão protegidas, sem encostar em nada, sem ter que colocar a roupa e o sapato da rua. Sair, bater a porta e voar pro cinema. Encontrar um amigo na bilheteria e abraçar e dar três beijinhos… Ah, como eu morro de saudades da telona, de me jogar numa poltrona e esquecer da vida lá fora, que agora nem há mais. Ontem vi uma listinha dos filmes que assisti no cinema este ano. Foram quatro, sendo o último Parasita, que ganhou o Oscar de melhor filme em março, justo quando começou a pandemia no Brasil. Achei uma boa metáfora para o momento. É como se a vida tivesse sido interrompida, como a listinha do cinema. Um ano que começou embalado e de repente alguém passou a régua e pediu a conta.  Pararam o filme no meio da sessão e nos despacharam para casa. Ficamos parados, como o número 88 da contagem desse Diário da Distopia. Nem 8 nem 80. Estamos parados nesse banho-maria, nesse zero a zero, nesse picolé de chuchu.

Poster Parasita

Mas como escreveu Guimarães Rosa, “felicidade se acha nas horinhas de descuido”, há pinceladas aqui e ali de alegria. Um casaco novo, um direct amorzinho, um pão que ficou no ponto e uma entrevista da Isabel Allende:

“A pandemia nos ensinou que somos uma só família. O que se passa com um ser humano em Wuhan, se passa com o planeta, se passa com todos nós. Não existe essa ideia tribal de que estamos separados do grupo e de que podemos defendê-lo, enquanto o resto das pessoas se esfrega. Não há muralhas, não há paredes que possam separar as pessoas. Os criadores, artistas, cientistas, todos os jovens, muitíssimas mulheres, estão considerando uma nova normalidade. Não querem voltar ao que era normal. Estão se perguntando que mundo queremos. Essa é a pergunta mais importante deste momento. Esse sonho de um mundo diferente: temos de ir para lá”.

 

Mas passados esses refrescos, voltamos à programação normal. Com porradas nada agradáveis do governo federal, dia sim, o outro também, a vida segue suspensa… Á espera de um milagre, de uma vacina, do impeachment, do fim do racismo, e de que um mundo diferente finalmente se inaugure!

Diário da Distopia – dia 44

Quatorze dias sem escrever. Esse é um diário que não é diariamente atualizado, porque não há quase nada de bom pra escrever, não existe inspiração. Como cantou o Cazuza, “eu não tenho data pra comemorar, às vezes os meus dias são de par em par, procurando uma agulha no palheiro…”.

Tudo segue um estranho fluxo. A vida anda, mas estamos imóveis dentro de casa. Tudo que parece ser, não é bem assim. Estamos no dia 44, em tese, a quarentena foi cumprida, mas ela é alargada. Chamam de 40 dias aquilo que ninguém sabe precisar quando termina. O pico da pandemia também é outra coisa sinistra. Sempre se diz que é na próxima semana e essa tal próxima nunca se alcança. Outra incógnita é a vacina que também ninguém sabe quando essa bendita chegará. Então, é o tempo da incerteza.tirinha

Soma-se a isso o fato de hoje ser uma segunda-feira e com uma nota super triste: a morte de Aldir Blanc, justo por esse vírus tão devastador. A inspiração que me faltou sobrou em João Bosco, ao falar de sua parceira de anos com ele, na música e na vida.

Diante de tanta incerteza, me deparei com esta verdade: ter um amigo assim é o que vale, o resto é uma incognita!

joao bosco

Diário da Distopia – dia 30

Trinta dias, quem podia imaginar?? Quando a escola do filhote suspendeu as aulas enviou um comunicado que seriam duas semanas de paralisação. Acreditamos piamente. Sabíamos de nada, inocentes…

E a gente vai se conformando ao que não tem remédio. Não, nenhum pesquisador comprovou ainda que a cloroquina pode curar o vírus, só aquele inominável acredita nisso. O Brasil tem esse plus, vivemos uma pandemia sob o governo do inominável. Desgraça pouca é bobagem. É um desserviço atrás do outro, uma canetada em cima de outra, um pronunciamento patético seguido de outro.

Parece um filme de quinta, em que não existe a possibilidade de abandonar a sessão…você fica como um zumbi dentro da sala, torcendo pelo fim daquela ponta de um torturante band-aid no calcanhar, como cantou João Bosco.

Ontem li uma notinha de que os restaurantes norte-americanos vão mudar sua configuração pós-pandemia. Os salões serão bem menores, as mesas afastadas umas das outras, os talheres virão em embalagens de papel. Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa...terá que usar luvas e máscaras. Bem, e aqui? Alguém comentou que será o fim do self-service. Como assim? Restaurante a quilo é patrimônio nacional. Adianta protestar? Não, mas que é de perder a fome, isso é…

E amanhã é segunda, e depois é feriado. Não faz diferença quase nenhuma. Todos os dias parecem uma segunda modorrenta. No fim de semana tem lives musicais e a gente se anima um pouco… Não vale mi-mi-mi, mas também não vale fazer o jogo do contente.  É isso e pronto.

Mas no meio, pode ter um vôo poético, que nos lembra que nossas asas resistem…

julia Panades

Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o
de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre
para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e
de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.

Menotti Del Picchia

Aquarela: Júlia Panadés

Diário da Distopia – dia 24

Páscoa, mas nada mudou. Na quinta-feira um amigo que tem saído para trabalhar disse que era ponto facultativo. Perguntei por que e ele disse que era Semana Santa, não fosse isso nem teria percebido.

Agora a pandemia virou divisor de águas. AC e DC, Antes e Depois do Corona. Parece que o AC já vai longe como um tempo bom e o DC se arrasta, voluntariosamente, à nossa revelia. Não sabemos quando o DC terá fim, mas sabemos que o AC nunca mais será.

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Os passarinhos surgiram. Em muitos anos aqui nunca tinha ouvido. De manhãzinha eles piam, alegres, alheios a tudo que está acontecendo. Alguém escreveu ou disse que os humanos estão contidos e a natureza segue seu curso, inabalável. As montanhas do Himalaia, na Índia, com o isolamento e poluição reduzida, agora são visíveis, depois de 30 anos.

Então é assim, muita coisa que passava despercebida agora é vista e muita coisa que era familiar aos olhos agora desapareceu…não tem quase ninguém nas ruas antes frenéticas de Nova Iorque,  capital do mundo que planejei conhecer este ano e agora é um dos lugares com maior número de infectados. Essa cidade tão castigada pelo vírus, porém, não joga a toalha. Acabei de ver na TV, todos as noites, no mesmo horário, os moradores vão para as janelas e fazem um barulhaço em agradecimento aos profissionais de saúde. Coisas que a gente não via e agora saltam aos olhos e alegram o coração!

Em BH,  projeções lindas têm sido feitas no JK, com referência ao corona que nos deixa com saudades enormes dos amores, dos amigos, da família…Dos amores que ainda não chegaram, dos amigos que podem vir a ser e outras famílias que podemos construir. Tem também projeções que apelam para o fica em casa e já rolou até pedido de casamento em letras de neon. Não tá fácil pra ninguém…

Fez um ano que me pós-graduei mas parece tão distante… sim, foi naquele tempo AC… O DC nos colocou todos mascarados e a gente fica se distraindo com as estampas do acessório, tentando colocar um pouco de cor nesses dias tão cinzentos. Também me distraio com A Casa de Papel, mas minha heroína Nairobi agoniza a cada episódio: Netflix DC tá muito diferente.

Mas no meio dessa jornada – que já nem sei se está no início ou no meio, mas que parece longe do fim – encontrei uma Adelia Prado, ora doida, ora santa:

A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardin.
Estou no começo do meu dessespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

 

Diário da distopia – dia 16

Sábado, mas tanto faz. Todo dia é igual. Ir ao supermercado virou um acontecimento. Hoje não consegui ficar, tinha fila pra entrar, achei over, especialmente porque era sábado, afinal, todo dia é igual, mas sábado é sábado. Onde alguém haveria de ficar em fila, esperando pra entrar num supermercado, num sábado à noite? Agora ficam. Eles que lutem, desisti.

Queria contar alguma coisa diferente que tenha havido, mas não encontro. Puxando muito pela memória, porque foi ontem, mas parece que já passou um mês, começamos a usar máscara. Desde o início uma polêmica, usa, não usa, usa, não usa, agora, usa.  Achei super estranho, além de ser algo muito fora do habitual pra quem não é da área de saude, é desconfortável. Já não respiro bem, me senti ainda mais congestionada, o olho coça, o nariz idem, não enxergo, é preciso gritar pra conversar e me fazer ouvir. Você se sente presa em casa,  sai na rua de máscara e continua se sentindo confinado. É o espírito do momento, né? Haveremos de acostumar, ou não…

Também me deparei com a carta de Dora para Josué, achei tão linda! Sempre me emociono vendo esta passagem de Central do Brasil. Li e reli… e gosto daquele trecho de olhar o retratinho quando bater a saudade. Agora é assim, a gente fica olhando os retratinhos com saudade de tudo que ficou pra trás.

E no fim do estranho sábado, Mário Quintana  me socorreu com os versos “Emergência”, bem propícios pro momento atual:

“Quem faz um poema abre uma janela, 

Respiras, tu que estás numa cela abafada,

este ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

– para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado”

 

 

Diário da Distopia – dia 10

Março vai terminando e a gente nem percebe as águas fechando o verão. Tem sido tudo muito igual do lado de dentro. Busquei Virgínia Woolf, que escreveu:

“Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora; e pensei, quanto é pior, talvez, ser trancado do lado de dentro”

A incerteza de quanto tempo isso vai durar é  acachapante. Então a gente inventa moda, como se fossem férias no meio da avalanche…os doguinhos mostram que a vida pulsa, mesmo que esteja confinada do lado de dentro…

 

Cozinhar pode ser um alento, a gente tenta, e faz um bolo de banana. Vai tudo muito bem, mas o duro é comer a iguaria inteira sozinha, visto que o filhote só belisca… Corta pra outra terapia, acompanhar live dos amigos músicos, porque ninguém pode sair pro bar. Dá um quentinho no coração, mas nada substitui o toque, o carinho, o olho no olho. Fico alternando entre as divagações sobre minha quarentena particular e os problemas muito mais sérios e em escala mundial. A Itália tão arrasada, a Espanha, a China, Nova York, capital do mundo irreconhecível em seu silêncio ensurdecedor…Os hospitais lotados… médicos exauridos…as famílias confinadas… sem ao menos poder velar seus mortos…tudo muito, muito triste!

Salto pra meu mundinho novamente. É sobre ele que tenho aparente domínio nesta distopia em que tudo foge ao controle.

Fico pensando que, parafraseando Hemingway:

Daqui um tempo, pensaremos quem estava ao nosso lado nas trincheiras contra o vírus do horror.  E isso importa? Mais do que a própria guerra!

Diário da distopia – dia 06

Ontem tive que ir ao calendário checar se era 23 ou 24 de março. Mas tanto faz porque todos os dias são iguais, com pequenas variações. Eu que adoro uma festa fico pensando se em 24 de junho terei que comemorar meu Sao Joao por skype. No Nordeste ja adiaram pro segundo semestre. Oi? Sao Joao fora de junho nunca vi. Penso e desisto. Meus pequenos dilemas são muito inúteis diante de uma pandemia. E tento pensar em outro assunto, como se fosse possível.

Voltei a cozinhar, o que foi uma aventura. O almoço ficou tão sem graça quanto a pilha de louça louca que restou pra lavar. Acompanho o Fábio Assunção no Instagram. Ele recita Drummond, Belchior, Paulinho Moska e outros fantásticos. É um respiro no meio dessa loucura.

E tem o Pepeu. Criei um meme e por algumas horas até esqueci do vírus do horror. Entrei pra um grupo de ajuda mútua no FB, fizemos um bate-papo pelo Zoom, meditamos, trocamos ideias, nos acolhemos…

E no meio de tanta incerteza temos um presidente da República que vai à TV dizer que é só uma gripezinha.

Está tudo de ponta a cabeça aqui no Reino da distopia…IMG_20200323_213226_570

Diário da distopia – dia 04

Também procuro algo pra me preencher no imenso vazio da quarentena. Desde que essa estranha realidade nos tomou de assalto tenho sempre pensado em distopia. O dicionário diz que se trata de “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação”.

Se não podemos contra o inimigo vamos nos unir a ele. Imaginar que estamos de férias minimalistas, cof, cof, cof…Pensar no coronga vírus como a bolinha de gude que o dog põe na boca e imobiliza. De longe parece até um brinquedinho inofensivo… Exercitar o desapego, abandonar shoppings e bancos. Preparar a comida de boteco e comer sem ir ao boteco, fazer você mesma um drink diferente. Improvisar uma academia na sala de casa. Vá lá que ainda não rolou comida de boteco, caipmorango nem alongamento, mas tempo é o que não falta. A previsão é de uma looonga jornada.

Passaram três lentos dias. Chegou o domingo e vamos imaginar que será um domingo bem sem graça como costumam ser todos, com ou sem quarentena. Pra esse dia 04, escolhi este poeminha de Fernando Pessoa. Vamos assim, porque se não fosse essa distopia o domingo seria mais do mesmo.

Dá-me um sorriso ao domingo

Dá-me um sorriso ao domingo

Para à segunda eu lembrar

Bem sabes: sempre te sigo

E não é preciso andar

(Ilustra Evelyn Castilho)

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