Respira fundo e vai…

Não têm sido dias fáceis. Mas uma pós-graduação que começou muito antes de tudo revirar precisa ser concluída. E tem trabalhos pra entregar e prazos pra cumprir e opiniões para emitir sobre assuntos que não cabem dentro da minha cabeça atolada de problemas existenciais.

Importa-me lá, diz o universo. Eu preciso produzir mesmo que ande tão a flor da pele que qualquer beijo de novela me faça chorar, como cantou tão bonito o Zeca Baleiro. Tudo que não tem remédio, remediado está e tenho feito, sabe-se lá Deus como, os trabalhos da especialização.

O último foi uma lástima. Meu cérebro parecia uma gelatina, era uma segunda-feira de um dia mais péssimo do que tem sido todos os outros, mas não tinha mais prazo. O livro que era a base do trabalho tinha mais de 100 páginas e eu não conseguia reter um parágrafo. Mas saiu a fórceps. Como também foi forçando a barra que saiu o trabalho anterior e como deverá ser o próximo. Não acaba nunca, estamos ainda na terceira semana da disciplina…

Aí vieram as notas e, contrariando, todos os prognósticos, tirei total no dois trabalhos feitos no limite. Não, eu não acho que apreendi muita coisa, nem que fiz uma trabalho a contento. Claro, o professor foi generoso na correção. Mas o que mais me intrigou é como a gente se desdobra, se reinventa, se transforma que nem milho virando pipoca quando a temperatura sobe. Não sei se isso é exatamente bom, porque tem horas que é preciso jogar a toalha. Essa tendência que a gente tem de espremer a laranja ao máximo pode transformar tudo em bagaço, literalmente.

Mas não deixa de ser um alento pensar que a gente pode brilhar, mesmo quando se acha um pavio apagado.

blog pipoca

Anúncios

Fala baixo, se não eu grito!

Os barulhos são meus pastores e a paz me faltará. Tudo começou com o Shopping Cidade. Sou sobrevivente da construção do centro de compras quando o mesmo veio se instalar ao lado do prédio onde morávamos felizes e tranquilos, na Rua Rio de Janeiro.

Foram noites em claro, ligando para os pedreiros, ligando para o Disk-silêncio, que é mudo, saindo de camisola e baixando na construção pra implorar, “pelo amor de Deus, seus cabras, eu preciso dormir”…Tudo em vão porque os empreendedores do shopping estavam pouco se lixando pra insônia dos moradores e dá-lhe britadeira.

Depois dessa experiência traumática, quando precisava escolher um lugar pra morar meu primeiro critério sempre era o silêncio. Meu apartamento no bairro Coração Eucarístico era numa rua tranquila, de frente pra um terreno com uma árvore linda. No amanhecer, um bando de passarinhos vinha se aninhar na árvore e era o máximo! Tive convicção que morava no paraíso e até escutava as trombetas dos anjos. Mas o barulho é um fantasma que encontra brechas e veio a primeira decepção…cortaram a árvore para…adivinhem? Construírem um prédio horroroso.

Acabou minha lua-de-mel com o sossego. E não parou por aí, minha vizinha de cima também comprou um karaokê. É uma delícia cantar músicas bregas e loucas em um bar, em uma festa, em uma despedida, mas ter uma cantoria dessas em cima da sua cabeça, todo sábado e domingo era a treva. E ela, a vizinha até então adorável, cantava mal pacas, e tinha fixação pela música, filme triste, que me fez chorar…Ora, filme triste era aquele que eu estava vivendo…

Corta para a vida no Buritis. Como sempre, apartamento em rua tranquila. Escolhi um predinho em uma via com pouco trânsito, já pra evitar o estresse do bairro mais populoso de BH com a fama de agitado…Novamente a vizinhança tirou minha graça. O problema era o morador solitário do terceiro andar, que passava seu tempo livre, que coincidia com o meu, jogando videogame. Ele era um gamer que realmente entrava no espírito do jogo. E a cada partida ele gritava palavrões impublicáveis, e pulava e urrava em cima da cabeça da gente. A situação ficou tão insustentável que foi pauta de reunião de condomínio.

Mas morando na Alameda do Silêncio, em Pasárgada, não podia dar errado, né? Uma casa numa rua com um nome desses, bicho! Pois o barulho também se esconde nas matas da Região Metropolitana de BH. É para os condomínios que fogem os moradores da cidade estressados com barulhos. E eles vão fazer o que nesses lugares bucólicos? Justamente fazer as festas que os incomodavam na cidade. Nos últimos meses, rolou até uma rave e não teve nem um amigo do rei pra salvar a gente.

megaphone

No Gutierrez a vida é sossegada, não posso queixar. Mas queixo assim mesmo: o playground do prédio é debaixo da minha janela. Não, eu não dei essa mancada ao escolher o apartamento. Quando o prédio estava pronto, os moradores decidiram que o melhor lugar para as criancinhas animadas do edifício brincarem em casinhas de boneca,  balanços e escorregadores era justamente debaixo da minha janela.

Mas você pode estar achando que tô inventando, que sou intolerante, que vida na cidade grande tem barulho em tudo quanto é lugar, menos na sessão de massagem relaxante, correto? Nem sempre…duas horas atrás estava alegre e satisfeita recebendo uma massagem pra aliviar o estresse que ando vivendo. Tudo ia maravilhosamente bem…A massagista uma fofa, com óleos cheirosos, música zen, sala escurinha, e mãos firmes para desatar todos os meus nós quando…começou um barulho. Uma marreta batendo na parede ao lado. Imaginei que era algum vizinho pregando um quadro e aquilo ia acabar logo – eu sou sempre otimista!

Mas não passou, as marretadas persistiram, depois intensificadas por uma furadeira. Diante do caos, resolvi sair do meu nirvana e perguntar o que estava se passando. A massagista estava corada, coitada…e me explicou muito constrangida  que eram obras na casa de máquinas, ao lado da sala de massagens,  pra consertar o elevador. E lá se foi todo meu relax tão sonhado…

Mesmo que eu só queira um pouco de silêncio, talvez os sinais sejam esses,  é preciso conviver com os altos decibéis, se safar dos turbilhões, pra alcançar a calmaria. Ainda assim, que p**** é essa? Tô com vontade de berrar bem alto e acordar toda a vizinhança!!!!!!!!!!

Salve, Silva!

Possivelmente você conheça muitas pessoas com o sobrenome Silva, tão comum no Brasil. Mas, do Silva, nome artístico de Lúcio Silva de Souza, pouca gente dá notícia. Por enquanto… porque ele vai estourar, com certeza. Esse capixaba tem menos de 30 anos, mas é cantor, compositor, produtor musical e multi-instrumentista.

silva

Além de tudo é ousado, porque se arvorou a cantar o repertório da Marisa Monte. E não só mandou muitíssimo bem, como fez arranjos maravilhosos para as canções. Sabe quando o discípulo fica em pé de igualdade com a mestre? Pois é! É o caso de Silva canta Marisa.

Mas Silva não só deu uma roupagem totalmente nova para o repertório da Marisa Monte, mesmo que não precisasse, como também compôs “Noturna“, com a cantora.

Pra mim bateu como brisa no rosto, porque vamos combinar que tem noites bem difíceis de atravessar…

Não há nada de novo na noite
Venha cá, não há nada a temer
Pode ser que o silêncio te escute
E no escuro você possa ver

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada, em nada
Deixar pra amanhã
Deixar pra depois
É bom se lembrar de respirar de novo, de novo

Não há nada de novo na noite
Venha cá, não há nada a temer
Pode ser que o silêncio te escute
E no escuro você possa ver

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada

Segundo comentou o artista no show de BH, ao apresentar pra Marisa os acordes que se transformariam em Noturna, ela disse que a música era algo”chiquérrimo”.

Definição perfeita: Silva é chiquérrimo!

silva bh

Patty & Nanda

Minha prima Patrícia faz aniversário hoje. E, quando chega 28 de fevereiro, sempre lembro da gente em aventuras dessas que só são possíveis compartilhar em parceria, com alguém muito próximo, muito chegada e companheira!

Muitas vezes, encontramos esse amigo-de-fé-irmão-camarada no meio dos primos. São com eles que, normalmente, dividimos a infância, a adolescência e a juventude. Na fase adulta, já não é a mesma coisa. As contingências da vida fazem cada um tomar um rumo. Encontramos menos, nos divertimos menos, somos mais caretas, atolados em responsabilidades e a convivência é menos frequente.

Mas nas primeiras décadas de vida, não. As viagens mais gostosas, as festinhas mais interessantes, os passeios mais divertidos, as primeiras transgressões sempre têm um primo como cúmplice. Com a Patty foi assim. Éramos unha-e-carne nas brincadeiras de casinha – sempre vizinhas de porta, e belas, recatadas e do lar… Também éramos parceiras nas nossas fantasias de professoras, muito dedicadas aos nossos alunos e empenhadas em mudar a educação do país.

Quando viramos mocinhas, formamos um trio da pesada, com o reforço da minha irmã Alexandra, que não curtia brincadeiras de criança e só chegou ao grupo depois. Fomos a muitas festinhas juntas, a muitos festivais de música, a muitos shows…Mas, passado um tempo, eu sobrei porque Alexandra e Patty eram mais prafrentex e começaram os namoricos. Eu era mais pateta e fiquei pra trás.

Depois, esse descompasso desapareceu. Alexandra tomou a dianteira e eu e Patty voltamos a ser unha-e-carne novamente. Fui madrinha de seu casamento civil, uma cerimônia em que só há um par de testemunhas, o que me encheu de alegria!

Mas o fato mais emblemático de todos esses anos em que andamos uma ao lado da outra  foi a Patty ter sido co-pilota em minha estreia com habilitação de motorista. Foi essa prima corajosa que me acompanhou ao Detran quando minha carteira tinha acabado de sair do forno. Obviamente, foi uma viagem de terror, pois eu era uma motorista inexperiente e dirigia mal pra caramba.

Ainda assim fomos juntas avenida Amazonas afora, enfrentando os busões, as buzinas, a poluição e toda a ira daqueles que estão se lixando pra quem encara o trânsito de uma cidade grande pela primeira vez…Pouco nos importou. Naquele trajeto, sentíamos uma confiança inabalável, que só temos quando estamos ao lado de uma companheirona. No melhor estilo nada poderá nos deter, naquela viagem ritual de passagem, fomos parceiras como nunca, curtimos um enredo cinematográfico e vivemos nosso momento Thelma & Louise!

thelma e louise

De lama e de luta

O carnaval de BH é pra cair na lama, mas também na luta. São muitos as bandeiras bacanas levantadas pelos blocos. Mas vou citar só cinco delas, que merecem registro e aplausos:

  • O Bloco Bruta Flor saiu na frente e já mostrou a que veio. Desfilou no último domingo de janeiro, falando de feminismo, sororidade e empoderamento.
  • O Então Brilha, que desfila nas imediações da Guaicurus, região onde trabalham prostitutas, vai ter uma ala só para essas profissionais. Mais do que merecido dar visibilidade a essas trabalhadoras tão excluídas, afinal, como diz o poema do russo Maiakóvski, que inspira o bloco, “gente é pra brilhar” .
  •  O Alô Abacaxi também dará visibilidade a outro grupo marginalizado, os  LGBTIQA. Por isso, escolheu como local de cortejo, o Barro Preto, nos arredores da Praça Raul Soares, por considerar a região como símbolo de ocupação e de resistência da classe. Na página, está explicado que os abacaxis querem mostrar que se trata de um”cenário de ocupação da cidade, não só como ponto de lazer”, mas, principalmente, problematizar “as questões sociais envolvidas, como a prostituição, o tráfico de drogas, a violência urbana, a resistência das minorias frente ao preconceito, ao julgamento da sociedade, à discriminação”.
  • O Todo Mundo Cabe no Mundo já nasceu de luta. Desde o início tem o propósito de ser inclusivo, abrindo os braços para a diversidade e acolhendo os cadeirantes, os portadores de síndrome e de necessidades especiais. Bola super dentro, porque outros blocos seguiram o exemplo e também já colocam alas inclusivas em seus cortejos, como contou direitinho a Patrícia Cassesse nesta matéria.
  • E cabe também luta pro carnaval sair do miolo. Um dos que puxou o bloco pra descentralização da folia foi o Du Pente, que organizou, contagiou e vai fazer acontecer o carnaval do Barreiro. U-hu!

 

bruta flor

Minha casa, minha vida

Encontrar um filme bacana, partindo do nada, no meio das centenas de opções da Netflix é tarefa dura. É como ficar diante das opções do self-service: bate aquela dúvida sobre o que saborear. Você escolhe  por alto, lendo  as poucas linhas da descrição do prato, mas se depois da primeira garfada  não era aquilo que você tinha sonhado, dá aquela frustração! Ontem, porém, contrariando todas as probabilidades de me dar mal,   fui bem sucedida nessa missão…

Ruth & Alex não tem nada de superprodução. É um filme singelo, mas muito bem costurado, principalmente porque tem dois medalhões como protagonistas, Diane Keaton e Morgan Freeman. Eles são um casal à beira da velhice que vive o dilema de procurar uma nova moradia pra chamar de sua…Alguém falou casa? C-A-S-A? Ah, a palavra casa para uma canceriana como eu tem peso de ouro. Bingo! Não há nada que mais simboliza a essência desse signo do que o lar, doce lar!

ruth e alex

Alex, muito mais do que Ruth, sendo artista plástico, tem muito de geminiano, misturado ao charme do escorpiano. Mas, com certeza, tem ascendente em câncer. Mudar, para ele, deixando pra trás todas as memórias, todos os recônditos, as plantas do terraço, o ateliê de pintura e todos os lampejos de inspiração, os vizinhos de andar e até abrir mão da escadaria do prédio sem elevador é um golpe.

Mudar é saudável, é estimulante, é potente, mas dá trabalho. Imagina começar tudo novo, de novo? Redescobrir a melhor padaria, acostumar com os novos alaridos do prédio, socializar com os vizinhos outra vez…

Entre bater asas e fincar raízes, o canceriano escolhe sempre a segunda opção – pro bem e pro mal.

Arroz de forno da redenção

Tem algumas comidas que são mais que alimento, são redentoras. O arroz de forno, por exemplo, se enquadra nesse grupo. Primeiro, porque é uma receita que não tem jeito de dar errado. Se você tiver uma lata de milho verde e uma massa de tomate: formô!

Segundo, porque é receita simples, que você pode incrementar a seu bel-prazer. Não precisa ficar apegada ao passo-a-passo, é só ir adicionando os ingredientes, fazendo as camadas, cobrir com muito queijo e aquecer… Descobri o prato com a Fal Azevedo, há muitos anos, quando a gente trocava receitas nos blogs. Ela fez um post tão saboroso de arroz de forno que nunca mais esqueci….Você sabe desse post, Fal?

Neste domingo, fiz arroz da redenção. E fiquei super feliz porque meu amigo Álvaro amou o prato, lembrando da sua avó, que preparava a receita. Tem isso também, é comida antiga, daquelas de outras gerações, que evocam lembranças, memórias afetivas. É um prato perfeito, que alimenta o corpo e a alma!

arroz de forno

2017, seu lindo!

Janeiro: Sorria, você está na Bahia! Há tantos peixinhos a nadar no mar quanto os beijinhos que darei na sua boca... Barra Grande, em uma casa linda, com amigos queridos. Começo de ano azulzinho, da cor do mar.

Fevereiro: Teve muito carnaval. Acompanhar o Então, Brilha foi apoteótico. Me esbaldei!!!

Março: *Alô, Verde e Rosa, alô, meu povo! Filma nóis. Mãe, tô na Sapucaí!  Desfile das Campeãs, a Mangueira é a coisa mais linda deste mundo!!!  *Mas acabou a brincadeira: começou a pós-graduação! *Tutoria: São João del-Rei, que alegria trabalhar nessa cidade!

Abril: Me belisca: um ano de golpe #ForaTemer

Maio: * Cinco anos de casadinhos, já temos histórias pra contar…*Mãe chegou aos 80, que felicidade! *Ju Steck em BH. Marisa Monte e Paulinho da Viola em BH. Foi mara!

Junho: *Um ano sendo jornalista. Renascendo pra escrita. *Mês de aniversário, de São João, de ganhar muito chamego, sempre de muitas alegrias…

Julho: *A roça avança, vai ter milho, vai ter gado, vai ter leite! Pai vibraria com a Fazenda Três Irmãs!

Agosto: * Luiz Melodia virou passarinho. *Deu bug no amor. Um mês de desgosto, pra riscar, pra esquecer…

Setembro: *Fênix, renascendo das cinzas * O jardim de Leocádia. Meu amor autor! *Nós somos loucos, somos Cruzeiro, campeão da Copa do Brasil!!! * Uma das raras corridinhas do ano, 2017 de lesão, não bom…

Outubro: *15 anos do filhote. Sou mãe de um adolescente, sempre essa dualidade dores x delícias…*U2 em São Paulo, desejo realizado!

Novembro: *Niver do meu amor *Todas contra a PEC 181,  Se liga, seu machista, a América Latina vai ser toda feminista! 

Dezembro: *Mãe, tô de recuperação!!!* Ocupa Política em BH, quebra tudo! *Vai começar tudo novo de novo, vem 2018!

 

Dois compadres destes, bicho!

Difícil apontar o momento mais tocante do show de lançamento do DVD de 20 anos de carreira de Vander Lee. O material foi gravado em julho de 2016 e, um mês depois, o artista partiu.

Todos os que subiram ao palco, entre eles a ex-mulher, Regina Souza, os filhos, Lucas Rasta, Laura Catarina e Clara Catarina, Chico César e Zeca Baleiro, além da banda que o acompanhou no DVD, estavam emocionadíssimos e fizeram as melhores reverências ao Vandeco.

Mas os depoimentos de Maurício Tizumba foram um caso à parte. Imagina que privilégio… os caras eram compadres! Então, Tizumba contou da lindeza dessa amizade. Explicou a confusão em torno de uma das letras de Vander Lee, criticada por ter versos de frieza com as mulheres. O compadre explicou, “mas gente, ele fez a canção motivado por uma manequim de loja”.

vander lee e tizumba

Em cada história, dava pra entender perfeitamente o impacto da morte de Vandeco para o congadeiro, que disse que foi a partida que mais o tocou, a ponto de ele não conseguir assimilar essa fatalidade.

E não menos importante, Tizumba falou de ter apadrinhado a caçula de Vander Lee. Só quem é comadre e compadre de um amigo ou amiga querida sabe o elo que se forma dessa relação. Tizumba falou lindamente do batizado de Clara Catarina e do ritual escolhido pelos padrinhos e pais para a bênção. Contou que escolheram uma cerimônia com muito fogo pra Clara ser firme e aguerrida, com muito azeite, pra ela ter molejo e se desvincilhar das armadilhas da vida, e muita água, pra que a menina pudesse correr solta pela vida afora.  Pra arrematar, tocaram tambor e cantaram, padrinho e afilhada, inspiradíssimos, uma música de Vander Lee.

tizumba

Sentir a força dessa história de compadres foi um bálsamo. Salve, Tizumba! Salve, Vandeco!

 

 

Sob as bênçãos de Baco

O melhor do vinho é o balancê que ele faz no nosso corpo e na nossa alma. Todo mundo que já secou uma garrafa conhece os efeitos – aquela sensação de leveza, o riso que vem solto e as palavras que saem da boca sem a menor cerimônia…As pernas ficam bambas na medida exata – não a ponto de você perder a linha, mas suficiente pra tudo ficar muito mais bonito, atraente e saboroso porque a visão é aguçada e o paladar é apurado.

É possível experimentar isso tudo, sem saber quase nada do que está por trás da produção, pode ser até com o vinho em oferta que você encontrou na prateleira do supermercado… Mas o pulo do gato é que quando você descobre os bastidores, a aventura fica muito mais divertida, como explicou o amigo Túlio Mafra, na noite de vinhos que organiza de tempos em tempos. Os seis rótulos que degustamos foram harmonizados com um jantar pra lá de especial, preparado pela Maria Esperança, sua mulher. Imagina que combinação: ele escolhe os vinhos, ela seleciona e prepara o menu. E nós, os convidados, fazemos o “sacrifício” de experimentar o resultado dessa dobradinha…

Com esse lembrete inicial, começamos bem. O compromisso foi ter uma noite leve como o barato do vinho, ninguém com obrigação de  virar expert no assunto, muito menos se transformar em um enólogo prepotente, o enochato, como é popularmente conhecido.

Os dois primeiros vinhos foram brancos. A bebida da primeira garrafa, da África do Sul, é feita com a uva chenin blanc, tem gosto de fruta e aroma que lembra melão, pêra e goiaba branca. Como sou muito facinha, de cara simpatizei com o cabra. Veio acompanhado de mil folhas de palmito, com mousse de haddock defumado e ceviche de camarões. Como diria minha vó Dota, feito com tanto ingrediente bom, só pode ser ótimo, e foi.

Em seguida, a pedida foi  um vinho feito com a uva riesling. Fabricado na Alemanha, ele também tem sabor frutado e aroma que lembra pêssego e lima. O teor alcoólico é um pouco menor que o primeiro, então, é uma boa opção se você quer deixar as pernas somente levemente bambas. Degustamos junto de bruschettas de cogumelos e tomates, e sendo bruschettas fui imensamente contemplada porque é uma entrada que eu amo de paixão!

 

Aí, pra bagunçar o coreto, pois você já começava a se iludir que estava pegando a manha dos brancos, vem um vinho tinto. Chi-Chi-Chi-lê-lê-lê, Viva Chile! Produzido às portas do deserto do Atacama, é feito com uva pinot noir e tem sabor frutado, remetendo a framboesa, morango e cereja. Ficou perfeito com um ragu de fraldinha, com molho de frutas vermelhas.

fraldinha esta

Na quarta etapa, voltamos aos brancos. Esse chegou chegando, classificado como um vinho mais opulento e caro. Elaborado com a uva pinot gris é produzido na Califórnia, na vinícola fundada por Fred MacMurray, ator falecido de Hollywood. Achei isso de cinema e vinho muito acertado e delicioso! Pra acompanhar, a Maria mandou muitíssimo bem, com um assado de bacalhau desfiado.

 

Na etapa final, vieram mais dois tintos. O primeiro, um vinho da Toscana, tem paladar de framboesa e é suave, comprovando que a Itália nunca decepciona.  Mas a Espanha também não fica pra trás, e de lá veio a derradeira garrafa, feito com as uvas cabernet sauvignon e monastrell. É um tipo mais diferentão no aroma e no paladar, pois tem um toque de especiarias. Eu, leiga que sou, não identifiquei esse diferencial, mas se os entendidos dizem que tem, tem.

O último prato também foi em grande estilo, um lombo ao molho de vinho com batatas elegantes. A elegância foi produção da Maria, que teve que criar um prato em seu curso de gastronomia e batizá-lo com nome forte. Inspirada no queijo cheddar derretendo pela batata, surgiu a nomenclatura – batatas elegantes.  Atesto e dou fé : elegantes, macias e saborosas!

E pra fechar com chave-de-ouro, a sobremesa pela qual eu arrasto um bonde: creme brûléé. Pela cara de bebinhos e felizes dos confrades dá pra imaginar o quão perfeita foi a noite.

Evoé, Baco!